Drive My Car propõe uma longa viagem para dentro das emoções que escondemos de nós mesmos

O luto tira a nossa direção, nos obriga a recalcular a rota no meio de um túnel escuro e sem sinal de GPS, onde seguimos adiante alcançando apenas a incerteza do próximo passo. Drive My Car é um introspectivo ensaio sobre luto e identidade, no qual o carro é uma bolha confortável de fuga. Dirigido e co-escrito por Ryusuke Hamaguchi, a adaptação do conto homônimo de Haruki Murakami, é um torpor sentimental que explora a contrariedade das emoções que não conseguimos entender.

Os créditos iniciais não aparecem antes dos quarenta primeiros minutos do filme – o que assistimos até este ponto é apenas o prólogo da história de Yûsuke Kafuku. Ator e diretor de teatro, a primeira vez que o vemos é após ter relação sexual com sua esposa, Oto. Excelente roteirista, a inspiração de Oto aparece durante o sexo: ela recita uma história que cabe a Yûsuke, em outro momento, repetir para ela. A vida sexual dos dois e a intimidade que parecem compartilhar escondem a falta de conexão emocional, os dois são apáticos, e essa dinâmica se instalou após a perda da filha pequena, há vários anos.

A história que Oto nos conta de forma indireta é sombria, e Yûsuke parece ignorar, de propósito, os detalhes que não lhe convém – ou mudar alguns rumos para que a história lhe vista melhor. Quanto Oto apresenta um jovem ator fã de seu marido, ela demonstra incômodo com o rótulo de esposa – um detalhe que não passa despercebido, principalmente porque, algumas cenas adiante, Yûsuke a flagra com outro homem em sua cama, e ao invés de confrontar, decide sair de fininho e fingir que nada aconteceu. Uma dinâmica que parece normal para o diretor, até que, certo dia, a esposa, de modo sério e definitivo, diz que eles precisam conversar quando ele voltar do trabalho – no entanto, Yûsuke e Oto nunca têm essa conversa, quando chega em casa, tarde da noite, a esposa está morta.

Dois anos depois, Yûsuke é convidado a dirigir Uncle Vanya em Hiroshima, peça do lendário dramaturgo e escritor russo Anton Tchécov, na qual vivia o protagonista antes da morte da esposa. A cidade reflete e acentua a sensação de desastre do personagem, ao estar sempre sob o assombro do luto. No novo emprego, Kafuku tem que enfrentar um imprevisto desagradável: devido a questões do seguro, o diretor precisa de motorista, não podendo dirigir o seu próprio carro para ir e voltar do Hotel – que fez questão de escolher o mais longe possível justamente por usar esse tempo como parte do seu processo criativo. Misaki Watari é uma motorista quieta, discreta e que, aos poucos, descobrimos refletir a história de Yûsuke, tendo seu próprio luto e história da qual busca sempre fugir.

O carro de Yûsuke Kafuku é seu fiel companheiro e ele nutre um verdadeiro amor e apego ao possante vermelho. No início, temos a sensação de que este filme se passa uns 20 anos atrás, porém somos surpreendidos conforme percebemos que são tempos atuais. Ryûsuke Hamaguchi faz do carro um personagem, intenso e preso ao tempo – provavelmente quando o protagonista perdeu a filha. A fotografia do filme coloca essa bolinha vermelha sentimental em uma jornada sem fim, com planos abertos que ilustram sua pequenez e solidão diante da jornada. O carro simboliza a viagem espiritual do protagonista, a zona de conforto que ele encontra no seu pequeno mundo, inalterado pela passagem do tempo.

divulgação | Drive My Car dirigido por Ryûsuke Hamaguchi

A presença de Oto na vida do marido é quase uma assombração que ele se recusa a deixar ir embora. Yûsuke ouve a fita que a esposa gravou antes de morrer, recitando as falas de Uncle Vanya que não as dele, que complementa em voz alta. O texto da peça de Tchécov funciona como a voz íntima dos personagens, às vezes ilustrando sentimentos escondidos, conflitantes e que faz eles mesmos analisarem as suas emoções.

A fotografia pálida e a maneira como Hamaguchi conduz a história, com fluidez, movimento e texto introspectivo acentua a sensação do protagonista estar em um torpor sentimental, não deixando nada realmente invadir suas emoções, fugindo de tudo aquilo que desperta algo em si. Certa cena, Yûsuke justifica porque não interpreta mais Uncle Vanya na peça:Quando você recita as falas dele, isso arrasta o verdadeiro você. Você não sente isso? (…) Eu não aguento mais isso”.

A nova versão que dirige de Uncle Vanya traz uma característica peculiar: os atores falam sua própria língua e, não, nem todos são japoneses – a intenção é que a emoção traduza aquilo que, tecnicamente, não entendemos. E isso funciona de forma magnífica com a atriz Kon Yoon-su, muda que se comunica pela linguagem coreana de sinais. O idioma é um detalhe, e a escolha criativa e a excelente direção mostram que os sentimentos se comunicam a sua própria forma, tanto em relação ao outro, quanto a como aprendemos sobre nós mesmo no processo. O principal truque da peça de Yûsuke é fazer com que os atores ouçam a si mesmos falar, de forma tão clara e transparente, que os outros intuem o que ele está tentando dizer, mesmo sem compreender as palavras.

divulgação | Drive My Car adaptação do conto de Haruki Murakami

Em um dos subplots de Drive My Car, temos uma das melhores representações da cultura do cancelamento, esta vivida sob uma perspectiva inédita. Yûsuke Kafuku contrata o jovem ator Takatsuki, astro dos filmes e televisão, o ator está desempregado devido as acusações de envolvimento sexual com uma menor de idade. Kafuku afirma que a sua falta de controle é socialmente desagradável, mas pode ser benéfica para o trabalho como ator. Durante os ensaios, Takatsuki se envolve em um crime que compromete toda a produção da peça. A mensagem de Hamaguchi é clara: ao apressar o retorno do ator, não existe o tempo necessário para refletir sobre o ocorrido, se arrepender e trabalhar no auto-aperfeiçoamento para tais atitudes grotescas não voltarem a se repetir. Assim, Yûsuke é culpado, agiu com irresponsabilidade e, de certa forma, foi cúmplice do desastre da peça. Dessa forma, o mínimo que pode fazer é assumir o protagonismo que relutava, em respeito ao elenco que ensaiou com dedicação, e aceitar que a sua produção será assombrada por esse fantasma e pela culpa de sua imprudência.

No entanto, a personagem mais intrigante é Misaki Watari – uma incomum pixie girl, que não parece existir fora da função de motorista de Yûsuke (isso é uma crítica rs), mas que reflete o personagem de formas inesperadas. Enquanto ela funciona como um espelho, e parece lidar com o luto da mesma forma que o protagonista: se fechando a ponto de não demonstrar qualquer emoção, um enigma que soa apático até entender o que aquela armadura tanto protege. Diferente da esposa, uma relação baseada no sexo e na desconexão emocional, aqui Yûsuke desenvolve grande intimidade com Misaki, que ouve junto com ele as gravações de Oto e imerge nesse universo tão particular. A motorista é uma companhia ingrata, que invade sua privacidade, seu espaço pessoal, mas os dois desenvolvem uma relação inesperada, ocupando o lugar que falta no outro: Yûsuke como o pai, e Misaki como a filha que o protagonista perde – e teria, atualmente, a mesma idade dela.

divulgação | Hidetoshi Nishijima e Tôko Miura em Drive My Car

Hamaguchi acredita na importância daquilo que não é dito, e na dificuldade que temos em entender nossas emoções. Yûsuke nutre um pouco de ressentimento por Oto, em especial pela incerteza eterna de jamais saber o que a esposa gostaria de lhe dizer – o medo do fim do casamento o fez aceitar a situações desconfortáveis, sem jamais saber o que Oto sentia. A história misteriosa que ela recitava no início do filme ganha um significado inesperado quando o protagonista conhece a continuação, pela boca de outra pessoa. Fredrik Backman, autor de Gente Ansiosa, tem uma citação que diz: “Esse é o poder da literatura, sabe, ela pode funcionar como pequenas cartas de amor entre pessoas que só podem explicar seus sentimentos apontando para os de outras pessoas”, e é isto que Drive My Car parece querer dizer para nós, a audiência, e para seus personagens, por meio da obra de Tchecóv.

O acordar do sonho que Drive My Car nos embala é abrupto, e a realidade de seu epílogo um tanto quanto frustrante – ainda bem que, neste caso, dura menos de 10 minutos! Desnecessário inserir a pandemia de forma tão descontextualizada e dispensável! Algo que atravanca a sentimental conclusão do Saab 2000 vermelho, o carro de Yûsuke.

Drive My Car devasta e conforta por meio da poesia criada pelo carro, que é conforto que leva para longe da dor, cuja colisão nos desperta e nos mostra a cura pela estrada. O carro representa liberdade e solidão, a partida e a chegada, aquilo que o afasta de Oto, e a traz de volta. Hamaguchi explora o processo criativo de forma crua e honesta, sem romantização ou rompantes emocionais. Esta é uma história que ilustra as diferentes formas de colaboração: talentos ocultos, má-escolha de colaboradores, bastidores, formas diversas de interpretação, a impessoalidade de relações íntimas, e a afabilidade de relações profissionais. Como diria Taylor Swift: “You were drivin’ the getaway car, We were flyin’, but we’d never get far”. O luto é uma jornada solitária, mas pode ser bem conduzida pelo silêncio confortável de outrem que entende o peso do sentimento sem que precisemos expô-lo por meio de palavras.

divulgação | Drive My Car premiado filme japonês na temporada de 2021

Veredito

Ao aceitarmos um motorista, confiamos nossa direção na mão de outra pessoa. Drive My Car, adaptação do conto de Haruki Murakami, é uma poética e introspectiva história sobre luto e identidade. Ryûsuke Hamaguchi cria um clima autoral para o filme, trabalha as diferentes linha narrativas e a metalinguagem proposta de forma original, fugindo de lugares comuns, além de extrair o melhor do excelente elenco, que abrange atores de diferentes background. A emoção é o idioma central, e Hamaguchi transforma o carro vermelho do protagonista em um personagem indispensável, que carrega muito mais do que apenas uma metáfora – nós somos seus passageiros, e transportando diversos sentimentos, sempre fugindo e voltando para a casa. Drive My Car expande a introspecção mundana de uma viagem de carro, e o refugio acolhedor que este representa. As três horas mal são percebidas, já que Hamaguchi sabe o ponto exato de reverter a trama e nos apresentar novos conflitos e significados. O filme acerta em evitar a super exposições de suas ideias e nos embala em sua atmosfera apática e intelectual, exigindo um pouco de cultura prévia. Drive My Car é uma obra de arte que aborda, justamente, o processo criativo, que exige um contato profundo com nosso eu, inclusive com o que nos recusamos a ver.

Avaliação: 4.5 de 5.

Indicações ao Oscar 2022
* Melhor Filme
* Melhor Direção
* Melhor Filme Estrangeiro
* Melhor Roteiro Adaptado

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