A Pior Pessoa do Mundo reconhece aqueles que estão perdidos na sua busca por identidade e reforça: você não é especial

A Pior Pessoa do Mundo reconhece aqueles que estão perdidos na sua busca por identidade e reforça: você não é especial

Crise dos 30, a idade batendo na porta e a vida nunca esteve tão longe de estar resolvida. A Pior Pessoa do Mundo é um drama existencial norueguês que trata com ironia e humanidade uma questão atual da geração millennial. Com empatia e humor, o filme é cru e carinhoso ao mesmo tempo, e aborda desde questão de gênero até o tabu que assombra a todos: a morte.

Julie era uma excelente aluna, tirava notas boas e se dedicava aos estudos, por isso todos a sua volta disseram que seria um desperdício se ela não se tornasse médica. No meio da faculdade de medicina, Julie percebe que aquilo não é para ela, sua verdadeira paixão reside em entender a alma das pessoas, e, por isso, larga tudo para se tornar psicóloga. Quando está saindo casualmente com seu professor (ops), Julie descobre um talento escondido: a fotografia. Em um momento de epifania, a jovem percebe que seu destino é ser fotógrafa. Quase aos 30 anos, Julie está bem longe de ter uma carreira, porém este é apenas o prólogo da sua história.

Dividido em 12 capítulos, com um prólogo e um epílogo, A Pior Pessoa do Mundo utiliza da estrutura pseudo-literária, com uma narradora omnisciente, para contar a história caótica de Julie, jovem que tem dificuldade de tomar decisões e encarar a transição para a vida adulta.

Em um evento da classe artística, Julie conhece o quadrinista renomado Aksel, um homem mais velho, mas com quem a química é instantânea. Os dois começam um relacionamento, e quando Julie se muda para a casa do namorado, tem a ponta da sua primeira lição: se acomodar no outro é aprender a ceder um pouco do seu espaço, um pouco de si.

Aksel, já em meados dos 40 anos, deseja ter filhos, algo que Julie não quer, pelo menos não ainda. Apesar de se darem super bem e dividirem vários interesses em comum, o momento diferente de vida é um grande obstáculo no relacionamento dos dois, e faz com que Julie comece a colocar um pé para fora dele.

divulgação | A Pior Pessoa do Mundo

Em uma cena encantadora, Julie vive uma daquelas noites espontâneas que iremos nos lembrar pelo resto da vida: de penetra em uma festa, conhece Eivind. Ambos comprometidos, eles decidem que não irão trair seus parceiros, porém, criam outro tipo de intimidade, se deixam encantar pelo outro e compartilham momentos absurdos, inusitados, mas que os une de uma forma única e autêntica. O que é traição? Essa é uma discussão geracional que tem se transformado, principalmente com o conceito da linguagem do amor – o jeito que você comunica o amor também é o jeito como você se sente traído.

O roteiro, imerso nas pautas e realidade millennial (brancos e privilegiados, vale o parênteses), também as utiliza como ponto de alívio cômico e sátira, como é o caso da personagem politicamente engajada. A mulher descobre pertencer a uma linhagem indígena (muito distante) e se torna uma paródia dos viciados em Yoga e guerreiros da justiça social. Fica claro que o diretor e roteirista, Joachim Trier, enxerga a forma como os millennials se engajam politicamente como uma busca por identidade, algo narcisista que serve para exibir suas virtudes e, em última instância, se torna vão (uma visão meio pais frustrados com os filhos, mas que em grande parte não está de toda errada).

Joachim Trier não deixa sua câmera parada, e a falta de estabilidade alude ao momento de Julie. A personagem nunca deixa a cena, portanto, somos imersos apenas no seu ponto de vista e sentimentos, o que torna mais fácil nos relacionarmos com ela e entender as suas questões tão individuais. A primeira vez que vemos Julie, ela está em um belíssimo terraço, o céu imenso e ela acima de toda a cidade: Julie tem o mundo aos seus pés, um infinito de possibilidades, no entanto, é justamente este o maior problema da jovem.

Divulgação | Renate Reinsve vencedora do Prêmio de interpretação feminina de Cannes

Quem nunca perdeu horas procurando algo para assistir no streaming? Existe um provérbio contemporâneo que diz: quanto maior o menu, mais difícil é escolher o prato certo. Como é possível acreditar que estamos fazendo a escolha correta quando existem tantas opções que soam tão boas quanto? Quando nossa identidade vai para tantos lugares diferentes? Julie está em uma constante busca por algo que ela não consegue definir, no entanto ela sabe que ainda não encontrou.

Cada escolha uma renúncia, e se comprometer é muito difícil quando se pensa em deixar tanto para traz. Julie não consegue tomar essa decisão, que só cabe a ela (que ainda não sabe ao certo nem quem é de verdade), por soar tão definitiva dentro de nós – mas não são, assim como não existe a resposta correta e sempre podemos mudar nossos rumos.

I feel like a spectator in my own life. Like I’m playing a supporting role in my own life.

Ao colocar uma mulher como protagonista, A Pior Pessoa do Mundo também desafia o conceito de carreira e família, pois é um dilema maior e mais comum nas mulheres que são colocadas na posição de ter que escolher uma opção apenas. O filme discute outras tantas perspectivas relacionadas a gênero, a cultura do cancelamento e a forma como a sociedade está sempre evoluindo em suas pautas.

Uma delas, inclusive, esbarra justamente na família de Julie e segue por uma abordagem mais psicanalítica. Em uma das melhores representações de uma viagem alucinógena, após ingerir alguns cogumelos mágicos, a personagem entra em um delírio engraçado e profundo que inclui Julie jogar um O.B. na cara de seu pai. Atrás do viés cômico, existe muita profundidade no texto que não é falado, não é explícito, mas carregado de simbologias e mensagens que são passadas por meio da fotografia, das atuações, das reações dos personagens. A Pior Pessoa do Mundo pode parecer superficial devido aos seus diálogo mundanos e cortes aleatórios dos momentos de vida da protagonista, e essa linguagem é típica do gênero mumblecore: Joaquim Trier não esconde a enorme inspiração em Frances Ha!

divulgação | A Pior Pessoa do Mundo dirigido por Joachim Trier

A geração millennial cresceu sob a redoma da promessa: vocês são únicos, talentosos, podem ser quem quiserem e estão destinados ao sucesso. A Pior Pessoa do Mundo mostra que essa ideia de originalidade é superestimada e que estamos estagnados na vida quando vivemos esperando que a tal promessa se cumpra – ao esperarmos que a flor única e especial que somos floresça, podemos apodrecer como broto – algo que apenas a realidade estarrecedora parece capaz de mostrar, um sofrimento inevitável a certo ponto.

A Pior Pessoa do Mundo não é um romance, tão pouco uma comédia romântica, é um drama existencial divertido e de fácil tradução, relacionável para muitas pessoas. Uma das cenas mais doces do filme inclui Julie vivendo em sua mente um momento de “e se”, onde o tempo para e a permite explorar uma ideia que vem martelando sua mente e coração.

O formato de capítulos oferece liberdade a linha narrativa da história, que possibilita focar apenas nos momentos transformadores de Julie, que a levaram até o momento de seu epílogo. Sua história é caótica e mundana ao mesmo tempo. Enquanto muitas pessoas conseguem fazer a transição para a vida adulta de forma suave e natural: construindo carreira, formando uma família etc, algumas pessoas tem dificuldade em dar esse passo, em fazer escolhas. Joaquim Trier parece ouvir as redes sociais e os vários memes de millennials que estão todo dia descobrindo o que significa ser adulto e, principalmente, como chegam em certa idade e a vida não está nada parecida com suas expectativas.

divugação | A Pior Pessoa do Mundo indicado a Melhor Filme Estrangeiro

Frustração e bagunça, a entrada nos trinta anos é caótica para muitas pessoas (sub-representadas no cinema, tidas muitas vezes como alívio cômico, motivo de vergonha e piada – pessoalmente ofendida nesses casos). Joaquim Trier tem uma visão empática e realista da situação dos privilegiados que sofrem, ele assume a influência que as pessoas ao nosso redor tem sobre nossas escolhas e como, às vezes, a nossa mania de autossabotagem pode ser conveniente para quem está conosco.

A Pior Pessoa do Mundo é tão irônico quanto a vida pode ser, e sua conclusão potencializa a ansiedade que a passagem do tempo desperta em nós. Perdas fazem parte do nosso caminho, que é imprevisível e implacável. O tom melancólico e empático encerra com uma fagulha de esperança, de compreensão e de urgência comedida, porque, no fim das contas, são nossas experiências tortas, doloridas e emblemáticas que nos transformam e nos fazem evoluir e esse progresso não é linear, mas uma bagunça que vai e volta. A Pior Pessoa do Mundo encerra com uma mensagem otimista, na qual vemos Julie finalmente entendendo quem é e o que a faz bem.

A única questão com o filme é o fato de uma história tão feminina e atual ser dirigida por um homem. De forma espontânea e nada planejada, Joaquim Trier conclui, com A Pior Pessoa do Mundo, sua trilogia fílmica Oslo. O diretor e roteirista é um claro exemplo norueguês do mumblecore – sub-gênero cinematográfico feito por homens brancos millennials privilegiados que utilizam de ironia, filosofia e psicologia para ilustrar de forma irreverente suas crises existenciais. Tal como o paralelo norte-americano, Frances Ha, vemos um homem definindo as questão da mulher millennial. Foi preciso? Como uma flecha no coração. No entanto, as críticas e questões de gênero ficam um tanto quanto dúbias quando colocadas sob essa perspectiva (meio esquerdomacho).

divulgação | Anders Danielsen Lie e Renate Reinsve em A Pior Pessoa do Mundo

Veredito!

A Pior Pessoa do Mundo é como um baralho de tarot, cada carta tirada é um traço de personalidade e um evento da vida de Julie, brilhantemente interpretada por Renate Reinsve (que parece mais com a Dakota Johnson do que a própria Dakota Johnson). Joaquim Trier tem uma direção coesa e aborda com irreverência e compaixão o dilema de grande parte dos millennial: a dificuldade em escolher quando se há tantas opções, e a consequente relutância em se comprometer com a temida vida adulta. Com um tom de frustração, arrependimento, melancolia e leveza, o diretor ilustra que a vida é feita de tentativas e erros e a busca pelo autoconhecimento, para muitas pessoas, é uma batalha difícil que envolve perdas e dar alguns passos para trás. Eventos absurdos e mundanos dão voz a um texto profundo, recheado de pautas atuais e diálogos existencialista. A Pior Pessoa do Mundo é autêntico e honesto, um espelho para aqueles que estão sempre insatisfeitos, em uma busca por algo que a única coisa que sabem a respeito, é que ainda não foi encontrado.

Avaliação: 4.5 de 5.

Indicações ao Oscar 2022
* Melhor Filme Estrangeiro
* Melhor Roteiro Original

Olá! Eu sou a Thais Teixeira, especialista em criação de conteúdo e acúmulo diversos cursos geeks, desde crítica de cinema até coisas bem específicas. Adoro escrever e sinto que a leitura é um momento quase meditativo, por isso sou do time #bringtheblogsback!

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