Gossip Girl é uma fantasia cringe de Gen Z

Dear follwers, a emenda saiu pior que o soneto! Ao tentar adequar a trama depois da resposta negativa do público, a segunda parte da primeira temporada de Gossip Girl comete erros tão graves quanto e demonstra que a série é a própria garota do blog perdida na personagem e precisa, urgentemente, de uma crítica de sensibilidade. Querida Gossip Girl, não estamos mais em 2007!!

Quando comentei sobre o debut da nova era de gossip girl, alertei que a sensação era promissora, mas ainda tinha uma clima de bomba prestes a explodir, e a série o tempo todo caminhou para a segunda opção. Apesar de viciante, ela transbordava problemas como: a questão da idade dos adolescentes ser totalmente inverossímil e desconfortável com suas atitudes, a rivalidade de duas irmãs negras (ou birracial) para conquistar um menino branco padrão, professores que perseguem estudantes menores de idade, o estereótipo batido de bissexuais interpretado por Max e a trama vazia de qualquer enredo significativo no geral. Enfim, bem problemático.

SPOILER ALERT!

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Divulgação | HBO MAX

No episódio de estreia da segunda parte, eles se esforçaram para romper com essas críticas. Sabemos que, durante o hiato entre as partes, houveram regravações e procuraram mudar algumas coisas que não foram bem recebidas (como poderiam?). Temos o fim da rivalidade das irmãs adolescentes por homem, a redenção do caso absurdo do professor obcecado por um aluno (questionável, mas tiraram da frente), os professores tomando um chá de consciência, a quebra do estereótipo bissexual de Max e um tema delicado que poderia guiar com embasamento o resto da história. Parecia que estavam dispostos a se atualizarem e conversarem com o novo mundo, porém, um olhar atento demonstra que isso não aconteceu, e a série continua muito problemática.

As correções foram bem-vindas, agora, os personagens estão mais humanizados e adequados a idade: conflitos verossímeis de adolescentes com os pais, o espaço para eles se conhecerem e experimentarem, o rompimento com o tradicional, a descoberta do amor, o afastamento de amigos – houve uma leveza, ou, pelo menos, uma adequação de sentimentos.

A Gossip Girl docente virou pauta de discussão filosófica entre adultos – tentam criar uma relação de causa e consequência do comportamento dos adolescentes, forçam algumas coisas, mas uma saída eficiente visto a lama que este enredo em particular se encontrava. Apesar da forma explícita e tosca com que a discussão sobre poder, caráter, limites etc é feita, há uma autoconsciência, o que é, de certa forma, válido.

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Divulgação | HBO MAX

O episódio de Ação de Graças, um clássico no universo Gossip Girl, é incrível, hilário, bem produzido e o ponto alto de toda a temporada. Ele carrega uma áurea de inocência, de confusão e surpresa totalmente previsível que é legal de acompanhar. É um raro momento que a série acerta e no qual ela deveria ter se prendido mais, ter observado como a trama ganha quando a confusão é mais realista, e os personagens são mais humanos.

Depois desse episódio, no entanto, podemos observar que Gossip Girl não mudou e a série parece não evoluir ao decorrer dos episódios. Uma trama que anda para trás, que não enxerga dois palmos a sua frente e é repleta de preconceitos estruturais que não dá para ignorar: Gossip Girl é a própria menina branca rica que é obcecada em destruir.

Quando saiu o elenco, todos ficamos empolgados que Gossip Girl traria diversidade, e pautada nesta palavra que ela vendeu seu reboot: teríamos diferentes etnias, orientações sexuais e identidade de gênero, a alta sociedade de Nova York teria uma cara nova, atual, ousada e inclusiva.

Mas que representatividade é essa?

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Luna, personagem interpretada por Zión Moreno, é uma mulher trans cuja proposta do diretor era incluí-la de forma orgânica e oferecer a ela um plot natural, que não focasse na sua identidade de gênero e no processo envolvido, algo que soou super positivo. No entanto, não imaginávamos que não oferecer um arco padrão significava não oferecer arco algum!

A história da personagem é ser assessora de imprensa de Julien, ter vários contatos para ajudar a amiga e fazer cara de pena. Zión Moreno não tem material para trabalhar e sua presença soa como um rosto bonito cumprindo o papel de representatividade – que não significa estar lá, mas ter um arco, um enredo, algo com que trabalhar, também.

No último episódio, entregam um enredo clichê e vazio que não leva nada a lugar algum. Não exploram nada da personagem, só a fazem viver o clássico: affair com um padrão lindo da casa de campo – por que uma personagem sem contexto algum precisaria desse acréscimo? Qual o ponto para seu desenvolvimento, se não conhecemos, sequer, qualquer aspecto da sua personalidade ou contexto? O que esse romance SIGNIFICA para Luna? Como se não bastasse ser apoio de Julien, ela se torna orelha de Max, e ganha, como prêmio de consolação, um clichê tedioso.

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Já com o personagem mais irritante, Obie (Eli Brown), é incompreensível entender como duas irmãs foram se apaixonar por alguém tão sem personalidade e entediante. O personagem corre atrás da Julien (Jordan Alexander) durante toda a segunda parte, endossando o clássico: rapaz bonzinho cara de coitado (a própria TRAMA quer que nos esquecemos que ele trocou a Julien pela irmã mais nova de apenas 14 anos, depois traiu a nova namorada com Julien, irmã mais velha, e não tem coragem de terminar um namoro que não quer mais – meu deus).

No final, ele dá piti pois, Julien não está correspondendo aos seus sentimentos e ele, que corre atrás da garota e diz inúmeras vezes que quer ficar por perto, exige no pior momento possível uma resposta – no meio da crise com o pai abusador, o cancelamento virtual e a festa fracassada, esse sem noção quer que Julien diga que o ama e fica enraivecido quando ela, muito gentilmente, diz que é um timing ruim. – Era para esse cara ser o mocinho? Tenha misericórdia.

Julien é uma pessoa egoísta que acha que todos estão disponíveis para ajudar em seus dramas, sim, ela nunca teve uma conversa que não fosse sobre ela na série, verdade, mas NAQUELE momento o piti de Obie foi errado e a série endossou o comportamento do garoto. A série ficou do lado de um menino mimado, em crise de identidade mal trabalhada – o roteiro culpa Julien pela sua incapacidade de dar uma personalidade a Obie, mas, por 12 episódio o menino é um rico vazio com cara de coitado, e isso não é culpa da Julien, mas de quem achou que apenas ser um rosto supostamente bonito e um cara gentil seria o suficiente para fazer o personagem funcionar – advinha? não é.

(Sem entrarmos no mérito que o sem personalidade do Obie arruina o noivado da irmã de graça, uma história sem pé nem cabeça que ocorre de forma relâmpago e deixa todo mundo com cara “??”)

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O endosso ao comportamento de vítima de Obie é apenas a ponta do iceberg das mensagem conflitantes e do subtexto super problemático da série. Audrey (Emily Alyn Lind), melhor amiga de Julien, também se irrita e se queixa do egoísmo da personagem, esta com razão e algo bem proporcional ao ocorrido, visto que, no seu caso, a atitude autocentrada de Julien respinga de forma negativa em sua vida. Apesar de estar certa e logo se reconciliar com a amiga, Audrey também é pintada como uma vítima: amizade unilateral com Julien, adolescente sozinha que precisa cuidar da mãe doente e ajudá-la a se reerguer, administra uma casa basicamente, está presente para todos que precisam dela. Um doce!

O que Audrey e Obie tem em comum? São desenhados como pessoas boas, solicitas, generosas, empática e, também, são brancas! Enquanto isso, do outro lado, temos Julien, a menina que só tem defeitos, faz tudo errado, ingrata, egoísta e é negra. O problema fica maior quando expandimos essa percepção a todos personagens negros da trama.

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Vivemos a rivalidade entre irmãs, que já é feio o suficiente, mas principalmente quando as duas são negras e se apaixonam pelo mesmo rapaz branco. Monet (Savannah Lee Smith) é a amiga “diabinha” de Julien, sempre tem um plano terrível nas mangas, como Luna, seu arco gira entorno de consertar os problemas da protagonista, ao mesmo tempo que é a amiga que a traiu e que pode vir a trair de novo.

Então, temos Zoya (Whitney Peak) que faz uma nova amiga, Shan (Grace Duah), negra, tal como Monet, sem personalidade. A menina entra como uma fada madrinha que quer salvar a vida de Zoya sem qualquer razão: ela decide que irá virar melhor amiga da garota de um jeito bizarro, banca uma psicóloga de 30 anos de graça, gruda em Zoya e vive em função de fazer a garota perceber que ela não precisa pertencer ao grupo social da irmã. É surreal o que acontece nesse enredo, e como pegam uma personagem esteticamente cheia de personalidade e a transformam, tal qual as demais, em uma personalização dos roteiristas que precisam desenvolver na marra as personagens mal feitas que criaram. Mesmo sendo melhores amigas de meninas negras, essas personagens caem no estereótipo da “melhor amiga negra” do mesmo jeito – vontade de gritar.

O problema com a representação negra não termina aqui, infelizmente. Monet teve a quem puxar sua personalidade péssima, e, nos instantes finais, conhecemos sua mãe. Uma mulher rica, poderosa e gata, ela poderia ser um exemplo positivo, mas, ao contrário, é detestável com a empregada que aceita o bico de fazer a troca de presentes natalinos. Essa empregada humilhada é a Srta. Keller (Tavi Gevinson), a própria criadora arrependida da Gossip Girl – BRANCA (!!)

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Temos um exemplo horroroso de uma mulher negra sendo péssima com a coitada da branca loirinha, num discurso completamente desconectado da realidade e sem qualquer avaliação minimamente crítica da situação.

O simbolismo é algo poderoso e Gossip Girl utilizou da pior forma possível. Não é OK vender que uma jovem, branca e 100% dentro do padrão socialmente favorecido seja vítima de uma mulher negra opressiva, segregativa em seu discurso. O ponto não é se existem ou não pessoas nessa situação, claro que existem pessoas brancas pobres em condições humilhante e pessoas negras ricas e esnobes, mas isso é uma MEGA exceção cujo momento ainda não cabe ilustrar dessa forma nas histórias.

Isso atesta estereótipos horríveis como: negros em posição de poder se tornando opressores que não querem saber dos outros (existe esse preconceito muito forte), brancos sofrem preconceito (mentira, pobres sofrem preconceito – mas mostrar isso dessa forma não está vendendo a ideia corretamente).

No final, essa situação endossa o ponto de vista deturbado de Kate Keller em ter criado a Gossip Girl com uma nuance sem contexto no discurso da personagem, justifica sua atitude deplorável e ratifica preconceitos. A gota final é o momento hipócrita onde a mesma mulher branca desprovida de qualquer noção condena Nick (Johnathan Fernandez) (negro), pai de Zoya e atual tutor de Julien, por aceitar dinheiro de uma fonte questionável (obs: não acho que ele tá errado em pegar o dinheiro do pai da menina que ele vai hospedar sabe). A relação de poder, caráter e oportunidade são completamente distorcidos.

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Então entremos no tópico pai de Julien, Davis (Luke Kirby). O maior enredo da segunda parte gira entorno de ele ser um predador sexual, homem que embriagava mulheres e abusava sexualmente delas. Tema delicado, mas promissor: como fica a cabeça de uma jovem desconstruída e feminista que descobre que seu amado pai já fez esse tipo de coisa? – uma pauta real de várias meninas da alta sociedade em tempos de #metoo, parecia que Gossip Girl havia acertado!

No entanto, uma coisa ficou clara: a série não se preparou para ter essa conversa.

A confusão de Julien é compreensível, delicada e verdadeira: ao mesmo tempo que ela quer que tudo seja mentira, pois ama muito o pai, a realidade insiste em lhe provar que talvez ele seja mesmo culpado. A atitude de Zoya em relação a tudo isso é 100% condizente com a personagem, e o conflito das duas bem trabalhado, colocando-as como irmãs de verdade, mulheres não totalmente maduras mas completamente dispostas a lidar de forma correta com a difícil realidade.

O enredo desanda quando Gossip Girl decide trabalhar a realidade crua de uma situação que necessita de mudança e instaura na audiência jovem um sentimento de conformismo e desesperança com o lado errado da história, ao invés de oferecer um vislumbre de algo positivo, que poderia ser construído com muito drama e exagero como a série gosta, sim.

Julien ser cruelmente acusada de cúmplice do pai e cancelada na internet dá dimensão e complexidade para a trama, Julien ser perseguida por professores sem qualquer motivo e difamada gratuitamente pela Gossip Girl, ao mesmo tempo que é mal interpretada silenciando vítimas de abuso é passar totalmente do ponto e, usando um termo bem feio, chutar cachorro morto e dar razão para a personagem ser auto-centrada, impedindo-a de crescer.

Gossip Girl não é uma série jurídica e nem destinada a adultos com preocupações legais e realistas (coisa que ela já provou estar anos-luz de distância, né). Dito isso, toda a trama jurídico-legal envolvendo Davis predador sexual tem uma conclusão horrorosa. A magnitude e potencial de discussão da questão é resolvido de forma simplória e rasa: Davis se safa das acusações vendendo a imagem de homem confuso comprometido em ouvir o lado das mulheres, e a série absolve e acredita NELE, a sensação é que este homem branco manipulador é tão forte que convenceu os próprios roteirista da sua inocência.

Além disso, não trabalha de forma significativa o enredo das mulheres vítimas de abuso, deixando-as como culpadas de um predador sexual estar saindo impune de seus crimes: “essa personagem não quis denunciar para não comprometer sua carreira e não se envolver em polêmica, olha aí, deixou o cara de safar”; “essa outra personagem ficou com medo de se expor, mentiu, e agora o processo é nulo e ela vai perder sua reputação, olha aí”. A lei é complicada e, às vezes, dificulta o processo, é verdade sim, mas numa série adolescente alimentar tamanha desilusão frente ao abuso sexual grave cometido por um branco poderoso é revoltante!

No início, a confusão, desespero e preconceito que a personagem enfrenta diante do tema são boas, até desandar completamente. Escolhem o momento que Julien está, de fato, lidando com uma crise pertinente e enfrentando o maior drama da sua vida para chamá-la de egoísta e dar razão para Obie. Arrependida de ter perdido o menino babaca, que agora está com outra, ela inventa de embriagar a mocinha para provar como ela é vulgar e doida.

A menina que está sofrendo por o pai ser acusado de EMBRIAGAR MULHERES para abusar delas, duas semanas depois, está EMBRIAGANDO UMA MULHER para expô-la ao ridículo e acabar com o relacionamento do menino (ex da irmã mais nova que a deixou por AINDA estar apaixonado por ela) que a chamou de EGOÍSTA por estar vivendo um drama público grave.

Percebem? Como a série pode carecer tanto de empatia, sensibilidade, senso de responsabilidade dessa forma? A personagem de Julien pode ser a protagonista que comete mil erros, mas colocá-la nessa posição de não evolução, de não ter dois neurônios para lhe dizer o que está acontecendo é demais. Essa e todas as outras narrativas demonstram que a série não está em 2021! Parece que o Perez Hilton escreve o roteiro e nunca leu uma matéria para além da manchete.

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Divulgação | HBO MAX

Apesar de envolvente, a primeira temporada de Gossip Girl é um desserviço que perde ou estraga todas as brilhante oportunidade de ser a narrativa podre que deseja, mas com o menor senso de ética que poderia ter. Ela não explora o elenco diverso de maneira eficaz: poderia dar mais destaque para Luna, poderia abordar apropriação cultural da elite, não-binaridade e moda, poderia explorar melhor a relação HORRÍVEL de Aki (Evan Mock) com o pai, enfim, possibilidades não faltavam! Dá para ser supérfulo – ricos, inconsequentes e pegação – sem ser completamente irresponsável.

Não dá para tolerar a vilanização de todo o elenco negro (notaram que a mãe de Julien, negra, é quem trai o coitado de Davis – a gente nunca soube o POR QUÊ – e supostamente abandona a família para construir outra?), ao mesmo tempo que há vitimização e absolvição dos brancos, colocados como coitados. É um padrão horroroso que se repete em toda a estrutura da obra.

Além disso, temos toda a filosofia e enredo deturbado da Gossip Girl ser um bando de professor sem caráter achando que a solução para lidar com os alunos ricos e insuportáveis é destruindo a vida desses adolescentes.

A Gossip Girl original é um oceano de problemas e polêmicas, completamente data ao seu tempo. Essa seria a chance de criar algo melhor, que converse com esta geração, com esta época, e não colocar um filtro de tiktok na série antiga e fingir que está totalmente modernizada. O enredo envolvente não a absolve de seus problemas, e, ao invés de me sentir empolgada e leve com a história absurda de adolescentes podres de ricos, fiquei pesada, indignada e triste.

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