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Round 6 faz excelentes críticas sociais, mas escorrega na linha de chegada!

Rouns 6 é a série do momento, mas será que todo esse hype é merecido? Apesar das excelentes críticas e produção impecável, Round 6 comete vários deslizes, e, nos deixa, também, viajar nas interpretações.

Todo mundo tem o seu preço, mas quem define o quão valioso ele é? Round 6 transpõe o capitalismo para um jogo cruel e evidencia que, na meritocracia, vence quem renuncia a própria humanidade. A série sul-coreana faz críticas brutais a um sistema que o mundo inteiro já notou não funcionar para a maioria. Com excelente direção e ótima capacidade narrativa, Round 6 comete poucos erros e impressiona, porém o melodrama e algumas inconsistência se sobressaem no final.

Na sociedade moderna, não ter dinheiro ou dever tudo o que não tem é praticamente uma morte social, você passa a não existir e corre perigo de vida todos os dias. Gi-hun brinca com a própria sorte (ou azar) ao viver as custas da sua mãe idosa e ao apostar o pouco dinheiro que os dois têm. O protagonista parece ter parado de amadurecer na adolescência, e apesar de desejar proporcionar uma vida melhor para a filhinha, não parece ter a responsabilidade necessária para isso, e irá perdê-la devido a sua postura inconsequente.

Quando a situação financeira chega no limite, ele assina um acordo renunciando a sua integridade física com um “agiota”, e recebe uma proposta ousada: participar de uns jogos misteriosos que tem como prêmio uma fortuna de milhões de dólares. O que ele, e nem os outros 455 jogadores esperavam é que, ser eliminado das brincadeiras significaria simplesmente, ser assassinado.

Nesse post você encontrará:
  • Mini crítica da série;
  • Crítica Social: o que significam os jogos;
  • Faces da mesma moeda: Gi-hun e Líder
  • Seita de Ricos – onde estão os outros vencedores?
  • Representação das mulheres e minorias
  • Round 6: erros e incongruências irritantes
  • Enfim, a mensagem que fica de Round 6

Mini crítica da série

Round 6 tem uma produção impecável, a direção de Hwang Dong-Hyuk é excelente e ele sabe comandar tanto as partes de drama quanto sequências de ação. A progressão da tensão nas provas são bem administradas e, por mais que existam momentos muito melodramáticos, estes também são bem conduzidos e típicos de séries sul-coreanas.

O design de produção segue bem a linha Netflix: a série cria identidade em todas as pontas, com fantasia de carnaval, abertura para experiências sensoriais, possibilidade de estandes em feiras nerds e, surpreende por juntar tudo isso a uma narrativa robusta, cheia de simbolismos, filosofia e complexidade – o que não é muito típico dos originais do streaming, ainda mais os que atingem o grande público. Toda a produção é linda, lúdica em certos momento para nos remeter a infância e usa a violência para que nunca esquecemos de fato onde estamos e o que está em jogo. Visual e tecnicamente a série é uma poesia e a direção a destaca num universo cada vez mais genérico

Os primeiros episódios são ousados e não se preocupam em segurar o ritmo para fazer seu ponto e introduzir a história propriamente. Ele nos dá espaço para conhecermos os personagens e nos apresenta suas características mais importantes: de como eles irão funcionar como jogador. É preciso em fazer suas construções e não coloca qualquer informação por acaso, porém, ao decorrer dos episódios se perde um pouco.

Testemunhamos um momento “Luke, I’m your father” que tem pouco impacto e, principalmente, efeito narrativo para o arco do policial. Percebemos que, ao se encaminhar para o final, o roteiro perde o fôlego, se apoia em melodramas previsíveis e adota muitas conveniências. O otimismo sugerido na última cena não é capaz de amarrar tudo que ficou para trás, um tanto quanto esquecido.

Round 6 propõe discussões necessárias e críticas enfáticas, porém nada sobre a série é original, se destacando pela qualidade em criar uma identidade própria num universo de tema e formato já bastante trabalhados no audiovisual. A série e fruto de um criador endividado e bitolado com Battle Royale, mas referências são sempre bem vindas quando brilhantemente executadas como fez Hwang Dong-Hyuk. A série nasceu da premissa de um temporada única, mas existem várias possibilidades de expandir e criar não apenas novas temporadas, como uma franquia do formato. Infelizmente, Netflix não vai largar esse osso tão cedo e, estaremos lá vendidos para acompanhar!

Avaliação: 4 de 5.

A partir de agora, spoilers (!!)


Death Game (jogo mortal) é um subgênero da ficção que perpassa pelo horror. Já o vimos em várias obras, tais como Jogos Vorazes, Jogos Mortais (Saw), Alice in Borderland, e até jogos como Fortnite. Normalmente, nessa narrativa as pessoas são colocadas numa arena onde precisam jogar com a própria vida para sobreviver, e os motivos que os levam até lá são plurais, assim como as regras e o contexto. Porém, uma coisa que sempre faz parte é a crítica social ou a filosofia de vida dos personagens.

Round 6 é uma crítica explícita ao sistema capitalista e, quem já acompanhou algumas obras audiovisuais da Coreia do Sul, tal como Parasita e toda a filmografia de Bong Joon-ho por exemplo, percebe que essa é uma ferida aberta, temática que aparece sempre de alguma forma. Aqui, ela é o centro da história, e Hwang Dong-hyuk, roteirista e diretor, prova que não tem meias-palavras ao escancarar o pão e circo que vivemos todos os dias.

Críticas sociais

Tal como O Poço, Round 6 choca pela forma como reduz a vida das pessoas a nada, utiliza de violência explícita para escancarar o horror do que o ser humano é capaz e não é tão sutil assim na mensagem que quer passar, e nem precisa ser. Constantemente, a sociedade vive um juízo moral e, quando observamos pessoas pobres, endividadas, que cometeram crimes, ou seja, erraram de alguma forma, nos é ensinado que essa pessoa vale menos – pelos valores deturpados e necessidade de se sobressair. O conceito de segunda chance no capitalismo é praticamente um mito, quantos de fato tem essa oportunidade? Round 6 sabe que quase ninguém.

Porém, imerso nas suas próprias críticas e simbolismo, a série mascara alguns enredos pobre e tira o foco de temáticas que não soube abordar direito.

Apesar disso, Round 6 faz críticas excelentes, profundas e irônicas sobre a sociedade, algo que, mesmo se passando na Coreia do Sul, se traduz para o Brasil e para a imensa maioria da sociedade desigual que instalamos como modelo econômico.

Os que significam os jogos

Round 6 é genial em explicar, quase como para uma criança, como funciona o capitalismo: para você ganhar muito dinheiro, outras pessoas terão que perdê-lo – o sistema se sustenta pela desigualdade, e você terá que seguir sabendo que, ao crescer, outros encolhem, o dinheiro que entra no seu bolso, sai do de outra pessoa.

A realidade sem dinheiro significa viver um eterno risco de vida, só que sem a chance de ganhar muito dinheiro, diferente do jogo – e o sonho de todo mundo sem um centavo na carteira é, milagrosamente, ficar rico. É ingenuidade acreditar que o dinheiro não tem o poder de consertar as coisas, ele facilmente resolveria 80% dos problemas do mundo! (os outros 20% implicam nas pessoas irem ao psicólogo). Quem não quer ganhar dinheiro fácil? Mas, até para os mais ricos, isso não existe: o dinheiro vem com um preço, às vezes mais alto do que poderíamos imaginar.

No primeiro jogo, “batatinha 1, 2, 3”, se todos personagens tivessem jogado direitinho, poderiam avançar, bastava apenas seguir a regra imposta e entender os mecanismos que poderiam facilitar a sua travessia. Na “colmeia de açúcar” também, conseguindo trabalhar sob pressão, todos jogadores passariam para o próximo nível – com uma pitada de sorte. Até esse ponto, o seu sucesso dependia apenas de você, um conceito bem conhecido do capitalismo.

No entanto, quando chegamos ao terceiro jogo, a brincadeira por si só corta os participantes pela metade, ou seja, o sistema não permite que todos vençam. Além de não depender apenas do seu esforço e empenho, para avançar, você precisará começar a deixar outros para trás.

O “cabo de guerra” é um momento decisivo: ele impõe que equipes sejam formadas. Apesar da mensagem incrível de “a união faz a força” e que, o mais importante é ter uma boa estratégia e alinhamento com o time do que apenas força bruta, ele também nos prepara para outra lição poderosa: nem todo mundo poderá chegar no final.

O fatídico episódio da “bola de gude” é sobre a capacidade de trair a pessoa que você mais confia, é entender que às vezes é preciso trabalhar em equipe, mas, no final do dia você está sozinho e, eventualmente, precisará derrubar seu aliado. A quinta prova, “ponte de vidro” é sobre sacrifício e sorte – sim, a série debocha da meritocracia porque, no final, parte do sucesso milionário de alguém conta com uma boa dose de sorte, e de fazer a própria sorte as custas dos outros.

Por fim, o “Jogo da Lula”, o Round 6 dessa jornada inescrupulosa, é apenas a última lição: atacar e defender são a mesma coisa, só vence quem elimina o concorrente.

Nesse sentido, todos os jogos, mesmo que baseados na infância, são preenchidos de substância que criam um excelente magnata atual: conhecer e driblar as regras, saber trabalhar sob pressão, elaborar estratégias eficientes, sacrificar alianças quando necessário, sorte e, saber atacar o concorrente. Esse é o molde de um vencedor no capitalismo, não a toa, uma pesquisa recente divulgou que os CEOs de grandes e bilionárias corporações possuem traços de psicopatia.

O novo visual de Gi-hun (Lee Jung-jae), o cabelo vermelho, na verdade significa comunismo, ele vai enfrentar o sistema capitalista e, começou a fazer isso quando distribuiu sua renda a mãe do Sang-woo (Park Hae-soo). Brincadeira, o cabelo vermelho é uma das várias analogias a Matrix, já que, no filme, a pílula vermelha significa acordar para a realidade manipuladora que todos vivem e combatê-la – tal como Morpheus e sua equipe.

Faces da mesma moeda: Gi-hun e Líder

Outra crítica forte de Round 6 é em relação aos jogos de azar em geral. Nosso protagonista, Gi-hun é viciado em apostar em corridas de cavalo, ou seja, alguém que além de gostar da sensação de vencer, também quer ganhar dinheiro “fácil”. No entanto, é interessante notar a sutileza da situação de Gi-hun: ele trabalhou para uma montadora que, simplesmente, fechou e demitiu todo mundo com uma mão na frente outra atrás, e, ao protestar, quase foi preso (o governo ficou do lado da empresa). Ou seja, ele tentou ir pelo caminho “tradicional” de se ter uma boa vida e foi prejudicado, sua mãe, idosa, ainda tem que trabalhar para sustentar os dois e vive na pobreza. A série deixa claro: você trabalha para enriquecer os outros, e é refém disso (vide Ali, também) O sistema é quase uma escravidão, onde pelo seu trabalho honesto dificilmente irá sair do lugar.

Gi-hun tem quase a ingenuidade de uma criança, e o seu vício em apostas traduz a sua atitude inconsequente, porém, ele é alguém que tem fé nas pessoas e preserva um pouco da sua dignidade. Ao ganhar, o personagem não consegue lidar com a culpa que aquele dinheiro carrega e decide não usar nada da fortuna. Gi-hun se recusa durante toda a série a se tornar parte do sistema, a adotar a filosofia que enfiam goela abaixo.

Outro personagem que sabemos ser viciado em jogos é o Líder (Lee Byung-hun). Junto com seu irmão, descobrimos que ele venceu os jogos há 5 anos (conforme timeline da série), então, se ele é um bilionário, não faz sentido estar ali, certo? No entanto, e se, diferente de Gi-hun, ele apostou o dinheiro que ganhou e perdeu tudo? Por que, também, vemos que ele está endividado e mora num cubículo.

Jogos viciam, e não apenas pelo prêmio, mas pela sensação de vitória e adrenalina que apostar propícia. Gi-hun, depois de ter sacrificado muito, percebeu que, apostando, ele tem muito mais a perder do que a ganhar, a dor o desperta do vício, pois, no final, a balança dele ficou negativa emocionalmente. Ele não sente mais o prazer em apostar.

Já para o Líder, seguindo a interpretação descrita, o jogo elevou a adrenalina de apostar. No entanto, muito dificilmente qualquer aposta proporcionaria a adrenalina e a sensação de vitória do que ter em jogo a própria vida, e, nisto, para conseguir chegar no nível de emoção oferecido pelo jogo, ele apostou tudo – e perdeu. Endividado, ele já teve a sua segunda chance e, provavelmente, não pode voltar ao jogo. Quem empresta dinheiro naquele contexto é o Velho, Oh Il-nam (Oh Yeong-su), ele enriqueceu às custas do endividamento alheio e, por isso, numa tentativa de negociar, deve ter oferecido a posição ao Líder.

Diferente de Gi-hun, o Líder integra o sistema e é vítima dele ao mesmo tempo. Além de acreditar naquela filosofia absurda (o capitalismo rs), ele dissemina a crença e faz questão de aplicá-la. Em diversas falas, vemos que ele é alguém que defende aquilo tudo que está acontecendo, mesmo tendo sido prejudicado por essa noção. Provavelmente, o Líder ocupa uma posição análoga a escravidão, onde, para cobrar a divida que ele deve ter, Oh Il-nam o obriga a estar ali. Ele é praticamente um alienado, alguém defendendo um sistema que sequer funcionou para ele – e existem várias pessoas assim, vítimas que continuam insistindo que esse modelo funciona.

Seita de Ricos – onde estão os outros vencedores?

Nas descobertas de Jun-ho (Wi Ha-Joon), vemos que os jogos acontecem desde a década de 1980, já tendo proporcionado vários vencedores, um deles seu próprio irmão. Mais tarde na narrativa, somos levados a acreditar, por meio do diálogo de Gi-hun com o gerente do banco, que quem mantém ou aumenta sua fortuna por mais de um ano é convidado a se juntar aos VIPs. Ou seja, é possível acreditarmos que os VIPs sejam ex-vencedores dos jogos, que souberam administrar suas fortunas e, hoje, confiam que o sistema funciona.

O fato de Il-nam ser o número 1 pode ser uma simbologia que confirma esse ciclo. Ao que tudo indica, foi ele quem criou os jogos, pois estava ~entediado com sua vida rica. Além disso, o problema de quase todos participantes são derivados de dívidas, e o velho tem uma empresa de empréstimos, ou seja, ele tá na raiz do ciclo vicioso. Mesmo que nunca tivesse, até aquele ano, participado dos jogos de verdade, ele é o jogador número 1 por ter enriquecido desenvolvendo as características capitalistas abordadas acima.

Sua visão pessimista em relação a humanidade e o fato de acreditar que aqueles valores lhe trouxeram a fortuna o fez criar, praticamente, uma seita, onde muitos vencedores aderem essa filosofia vil de vida, e, tendo passado por tal experiência, banalizam a vida dos outros. O próprio personagem compara os participantes dos jogos a cavalos, ele é desprovido de humanidade e, no processo, incentiva que os demais façam o mesmo. Os vencedores não sentem mais prazer, mas o problema não está no acúmulo de dinheiro, mas na desumanização que sofreram no processo, onde são incapazes de enxergar beleza nas coisas.

Se tem algo que a ficção nos alerta é de que gente rica ama uma seita macabra, existem inúmeras obras sobre isso e, eventualmente, sempre acontecem sacrifícios de pobres. É algo recorrente demais que chega a ser preocupante, mas fato é, ser VIP é um desejo humano bizarro e recorrente pois, expressa poder, e, no final, ter dinheiro e fazer aqueles jogos é uma demonstração de poder perante aos outros e a sociedade, um grito de que, no capitalismo, existem, sim, vidas que valem mais do que outras (na verdade, a vida do pobre é um entretenimento).

A teoria dos VIPs serem ex-candidatos aumenta quando descobrimos que os jogos acontecem em outros países, justificando a nacionalidade plural daquele grupo seleto. Ademais, acrescenta uma nova camada a críticas que a série propõe a fazer: nesse sistema, não basta chegar ao topo, é preciso lutar para permanecer lá, e ter estômago para lidar com as suas ações e consequências.

Representação das mulheres e minorias

Round 6 procura fazer um recorte de gênero e racial para a sua crítica contundente a sociedade, porém, diferente do sucesso que tem em desenhar a complexidade econômica, aqui a série se perde: não oferece uma prospecção positiva, como o final de Gi-hun, e, ao mesmo tempo que procura criticar o papel das minorias e a forma como são tratas, acaba as colocando justamente nessa posição.

A prova do Cabo de Guerra também é decisiva para uma mensagem que a série quer transmitir e foi construindo ao longo da sua jornada: com estratégia, uma equipe com mulheres, imigrantes e idosos pode vencer os desafios – há valor na pluralidade de ideias e pessoas. Existem duas falas ao longo dos episódios que são ditas incessantemente a fim de fazer a audiência acreditar, mas que se provam mentiras jogo após jogo.

Uma delas é “o jogo precisa ser justo para todos”. Os organizadores falam isso a exaustão, mas na verdade nenhuma prova é justa: sempre existe alguém com alguma vantagem, as pessoas dão um jeito, ilegal ou não, de saírem na frente. Nenhum competidor está ali de igual para igual, é uma ilusão, e eles fazem questão de reforçar isso.

Outra fala repetida é de que não querem mulheres nos grupos, pois elas são fracas e vão perder. Porém, proporcionalmente, elas parecem chegar cada vez mais longe, e poderiam vencer, se não fosse o sistema e os próprios homens fazendo questão de excluí-las.

Deok-su (Heo Sung-tae) nunca enxerga qualquer mulher como uma ameaça a sua vitória, além de subestima-las, trai a única pessoa que, de fato, se mostrou leal a ele, Han Mi-nyeo (Kim Joo-Ryung). A personagem queria fazer parte do que, socialmente (patriarcado), entende-se como grupo mais forte, ela buscava a proteção do Deok-su e estava disposta a se humilhar para ser aceita.

Ela representa uma série de mulheres que passam por relacionamentos abusivos, que servem de escada para homens, e que se sujeitam a situações degradantes e violentas apenas para sobreviverem. A personagem é domada por uma mentalidade de que precisa se aliar a um homem forte, e não percebe que consegue avançar sozinha, ou que pode se aliar a outras mulheres – porque é isso que o patriarcado prega, na verdade.

Em contraponto temos Kang Sae-byeok (Jung Hoyeon), uma menina jovem que nega todos esses “valores” absorvidos por Mi-neyo, mais velha. A personagem carrega alegorias muito pesadas, mas com mensagens um tanto ambíguas, concluídas numa situação para lá de frustrante.

Sae-byeok nos conquistou pela sua pose de durona, distanciamento emocional e foco em ganhar os jogos, mas sem prejudicar diretamente alguém. Ela é esperta, sabe sair de situações complicadas, consegue lutar, e fica claro que já viu coisas terríveis na vida. No entanto, quando temos a “partida extra”, a anarquia noturna no dormitório, ela é salva por Gi-hun e seus amigos, e, depois, ele deixa claro que ela está com o grupo dele. Sae-byeok precisa de aliados para avançar no jogo, mas ela não precisava ser salva por homem nenhum, mesmo que esse seja vendido como o mocinho da série. Depois disso, ele a defende inúmeras vezes, e isso tira poder da personagem, que era forte!

O jogo da bolinha de gude é devastador por diversas questões, e, para mim, a principal é o diálogo dela com a sua dupla. As duas meninas não sabem jogar aquilo, e, uma das razões que ficam implícitas é que ambas tiveram sua infância negada, com preocupações muito maiores do que deveriam ser: brincar. Sae-byeok é imigrante ilegal, viu seu pai morrer e a mãe ser deportada, além de lidar com o irmão no orfanato. Já a sua concorrente no jogo foi vítima de violência doméstica e presenciou o assassinato da mãe. Enquanto Gi-hun tinha memórias felizes que sempre trazia à tona ao conversar com seu amigo da época, Sang-woo, as duas garotas tiveram que encarar essas situações ainda crianças. O que acontece com muitas meninas.

Sae-byeok estava prestes a ir para a final quando o impensável aconteceu: foi acertada por um caco de vidro enorme e aleatório que perfurou seu abdômen. Até ali nenhum jogo havia feito nada parecido: expor os vencedores ao perigo. Na verdade, isso contraria a própria regra e valor que eles davam a cada um que cumpria as provas. E, no meio de uma chuva avulsa de cacos de vidros, aos homens eles só fazem um cortinho no rosto, mas na única personagem feminina, um caco imenso perfura a barriga e praticamente a tira da competição – quê?

É inaceitável que isso tenha acontecido, e, para mim, é um erro grave na narrativa. Tentei encaixar uma crítica de que, por mais que a mulher avance, ela nunca vai chegar lá (não sabemos se alguma mulher já venceu o Jogo da Lula) – o sistema arruma um jeito de tirar as mulheres do jogo. Porém, aquilo só pareceu “falta de sorte” (intuito da prova), e qual o tamanho da sacanagem em a única mulher no jogo ser a azarada? Imperdoável, conveniência besta e que colocou uma personagem incrível como a Sae-byeok no papel que ela negou narrativa inteira: degrau para o Gi-hun crescer.

No leito de morte, ela o impede de se “corromper”, mostrando que ele não é uma pessoa ruim. E então é assassinada de forma idiota para motivar o protagonista. No final, o ponto de vista triste de Mi-neyo se concretiza, e a narrativa, apesar de ter consciência do estereótipo da figura feminina, parece quase inevitável em colocá-la nele, afinal, essa é uma história escrita por um homem. A jornada incrível de Sae-byeok é reduzida ao desenvolvimento de Gi-hun, e a personagem perde a sua independência ao se tornar ferramenta narrativa.

Neste sentido, é curioso perceber, também, que tanto Gi-hun quanto Sang-woo são filhos de mães solos, os pais dos dois não aparece e nem são citados. Além disso, ambos colocaram suas mães em uma situação lamentável. As duas, velhinhas, se sustentam, tocam um negócio e trabalham pesado quando, na realidade, deviam estar descansando. Mil crítica cabem aqui que não foram abordadas na série, o que me faz questionar se a escolha da ausência de um pai foi proposital ou apenas um acaso, um “modelo comum” em famílias humildes, nas quais o abandono parental é grande. (será um problema na Coreia, também?). No final, a questão de gênero não vai para lugar nenhum, a série tem consciência dos problemas relacionados ao assunto, mas não sabe como concluí-los.

Por fim, além de representar, de forma intencional ou não, o abismo de chances e oportunidades que existem entre homens e mulheres, o tópico imigração também é trabalho. Sae-byeok é da Coreia do Norte e Ali (Anupam Tripathi) do Paquistão, ao longo dos episódios fica claro que a maioria dos sul-coreanos não os enxerga de igual para igual, eles são discriminados o tempo todo. Só que além dessa agressão verbal, o jogo, também, deixa os imigrantes em desvantagem! Os dois não conhecem as brincadeiras, Sae-byeok não consegue usufruir da vantagem que tem, porque não sabe nem que é uma vantagem. Ali é ingênuo e, por não entender as regras, se permite confiar no outro e cair na maior ladainha – e essa ingenuidade também é um pouco estereotipada, não é mesmo?

A conclusão de Round 6 sobre minorias é de que elas estão sempre em desvantagem, e o capitalismo é desenhado para elas perderem. Não existe dizer que todos começam do mesmo lugar num jogo quando, alguns tem uma cultura diferente, outros sofreram abuso na infância, outros tem limitações físicas, outras tem que sustentar o filho, e assim por diante.

Vale destacar, também, que Gi-hun, o advogado das mulheres (que ódio, sério), fala o tempo todo que existem jogos de “meninos e meninas”, e, de fato, essa construção social existe em praticamente todas culturas, só que na competição não tem nenhum “jogo de meninas” e isso é bem simples: O Jogo da Lula (Round 6) foi criado por um homem, e, diferente do mocinho Gi-hun, ele em momento algum considerou as mulheres. É óbvio que tem apenas “jogos de meninos”, eram aqueles que o velho brincava. Ou vocês acham mesmo que o homem cis, líder do sistema capitalista meritocrático, aparentemente único VIP, criaria alguma “facilidade” para as mulheres? Além de todas as desvantagens citadas, as mulheres precisam se adaptar a jogar um jogo do qual sempre foram propositalmente excluídas, assim como são os imigrantes e pessoas de outras raças e nacionalidades.

Round 6: erros e incongruências irritantes

Embalando o momento exaltada, Round 6 pode ter esse roteiro denso, repleto de simbolismos, críticas contundentes e material filosófico que poderíamos falar a exaustão (já estou, né), porém, a série comete deslizes que são irritantes, deixam um vazio em boa parte da sua história e, para mim, prejudicou a experiência como um todo. O criador da série deixou claro em entrevistas que esse é um projeto único e nunca foi sua intenção criar uma outra temporada, por isso, sem considerar potenciais ganchos, analisemos a obra como um material fechado.

Vamos começar falando do elefante branco na série: o arco do policial. Jun-ho ouve Gi-hun denunciando os jogos de maneira lunática na delegacia e, ao contrário dos seus coworkers, compra na hora aquela história absurda. Então, no apartamento do irmão desaparecido e com problemas com jogos, ele encontra o cartão e, enfim, acaba infiltrado como staff do local. Como diria modus operandi: até ai, tudo bem!

Jun-ho é um policial preparado e inteligente, o que torna sua trama empolgante no começo. Ele descobre coisas rapidamente, se infiltra super bem, tem excelentes sacadas e não deixa o expectador frustrado em lidar com ~atrapalhadas de bom-moço chocado, amo a não-americanização desse enredo. Só que a grande pergunta que fica no ar é: para quê?

Primeiro que Jun-ho não parece exatamente um bom moço, já que toma decisões um pouco questionáveis, além de não demonstrar nenhum choque genuíno ou perturbação real ao descobrir um lugar que assassina pessoas e, eventualmente, trafica uns órgãos escondidinho. Ele vê o Gi-hun lá e simplesmente o ignora, o único contato deles é quando o policial disfarçado pergunta sobre um jogador, seu irmão – quem não esperou que os dois armassem alguma empreitada contra o sistema juntos, pelo amor de Deus?

Ter expectativas frustradas faz parte, e o cara, afinal, tinha ido lá atrás do irmão e, dado o tanto de mortes, parecia bem difícil encontrá-lo mesmo. No seu momento policial, ele faz anotações, tenta entender como aquilo tudo funciona, é bem legal de acompanhar, até a conclusão ser em vão: o famoso não deu em nada.

Para quê descobrimos quando os jogos começaram? Um ano depois do fatídico fim, os organizadores já estão recrutando novos participantes, zero escândalos aconteceram o que nos leva a concluir que as mensagens de texto do Jun-ho nunca chegaram até seu chefe, e ele ~supostamente morreu a toa. Afinal, não tem sequer uma cena, um diálogo, que sugira que os organizadores tenham comprado a polícia.

O quarto do irmão, no início, sugere que ele sumiu por alguns dias, quisá um mês, além disso, ele está devendo o aluguel, mas se essa divida fosse desde 2015 – quando ele ganhou os jogos, o dito cujo já teria sido despejado e, convenhamos, o policial não teria dinheiro para pagar assim, simplesmente 5 anos de aluguel. Além disso, temos o telefonema dele com a mãe, sugerindo que o sumiço não passa de alguns dias, nem na polícia deram parte ainda.

Ou seja, o irmão ficou bilionário há alguns anos, ninguém da família soube e agora ele trabalha para essa organização maligna como um líder que, o irmão policial descobriu e isso lhe custou a vida. Qual a relação desses irmãos? Por que o Líder deve ter sumido por uns dias algumas vezes, principalmente durante o seu jogo. Sabemos que, nessa experiência perturbadora, você renuncia parte da sua humanidade e, eventualmente, matar o irmão não se torna tão pesado na consciência assim. No entanto, temos Jun-ho arriscando a vida por ele, ou seja, eles tem um laço forte, não? Mas ele nunca soube que o irmão ficou rico? Mesmo trabalhando para a polícia? Não faz sentido!

O público precisaria de mais para se conectar emocionalmente com essa história. Entendendo que o Líder é um contraponto a Gi-hun, funciona para o contexto crítico que Round 6 quer nos oferecer, porém, quando olhamos o arco do policial, sua história é solta e vai minguando a cada episódio: ele não tem uma personalidade bem construída, é esquisito a forma banal que lida com tráfico de órgãos e o andamento dos jogos, não sabemos nada sobre sua posição na polícia ou relação com o irmão, para, no fim, a investigação dá em nada, inclusive, de forma narrativa.

Outra situação que não leva a lugar nenhum são os funcionários do jogo. As informações que a série fornece é de que, como os jogadores, eles tem regras próprias e estão, de certa forma, presos nessa situação. Descobrimos que podem ser punidos, e que um deles é apenas um garoto – o que torna difícil o conceito de estar ali devido a dívidas.

Para aceitar assassinar pessoas e traficar órgãos, gente boa claramente não são, mas como foram parar naquela situação? Não devem ganhar muito, e o trabalho pode ser uma analogia a escravidão, talvez sejam pessoas traficadas ou foram vendidas por parentes para pagar dividas. Seja como for são especulações vazias: pessoas que trabalham para o sistema também não enriquecem e arrumam meio sórdidos e ganhar um dinheirinho a mais. Não sabemos quem são, como foram parar lá, enfim – podia ter um núcleo que desenvolvesse esse outro lado do jogo, ou ocultar essas informações que são irrelevantes e deixa tudo no meio do caminho.

A série se propõe a discutir assuntos complexos, a mergulhar na temática e oferecer diversas alegorias – caso fosse apenas o pão e circo como ele é, não teria problema deixar essas lacunas, mas, ao assumir a postura de desenhar um sistema social, essas pontas soltas são fragilidades.

Por exemplo, a história do Gi-hun esquecer no churrasco os agiotas para quem estava devendo é mal explicada. Ele assinou um termo que “renunciava a sua integridade física” semelhante ao do jogo, e, no final, sabendo que Il-nam enriqueceu por meio de empréstimos, ele pode estar por trás dos agiotas, já que o velhinho se provou sem índole alguma. Mas, de novo, um diálogo sobre isso resolveria essa questão: ao ganhar, a divida foi perdoada? Comunica a audiência. Gi-hun não mexeu no dinheiro, os agiotas não o procuraram e sua mãe morreu pela doença, não por causa da divida… ou seja, enredo solto que faz diferença na conclusão do personagem.

Por fim, algo difícil de engolir é o fato dos jogos estarem desenhados na parede do dormitório o tempo todo. Quando as camas estava todos empilhadas e encostadas na parede, é compreensível não reparar, mas, depois do motim e de já ter visto que a sua vida está em perigo de todas as maneiras possíveis, como aquelas pessoas não perceberam? Você está numa situação de vida ou morte, num jogo, e não repara no lugar onde passa a maior parte do tempo? Haviam 456 pessoas ali, algumas inteligentes, observadoras, que provaram conseguir pensar sob pressão. Achei ultrajante.

Enfim, a mensagem que fica de Round 6

A vida do outro não vale nada. O sistema capitalista canibaliza as oportunidades e humilha as pessoas. A vida da maioria tem um preço baixo e tem gente que lucra e se diverte às custas da desgraça alheia. A meritocracia é uma piada. Quem te coloca nessa situação se isenta da culpa com contratos vazios de promessas que eles sabem que você não pode cumprir. Quando o dinheiro opera, as pessoas não tem de fato uma escolha. A sociedade é um mar pessimista de pessoas gananciosas, mas se você olhar de perto, vai ver quem tem várias dispostas a ajudar o próximo, mas óbvio que essas não serão ricas.

O prêmio de bilhões de wons é quase uma esmola, não pelo valor, mas pelo contexto. Existem magnatas assistiam aquele show de horrores, apostando de forma leviana em jogadores que não se deram ao trabalho de conhecer (ler a ficha de “inscrição”) e se divertem com a morte violenta dos outros. Com uma vaquinha, uma doação que não impacta a saúde financeira desses porcos, eles transformam a vida de 1 entre 456 pessoas. Desde o começo eles sabem que o valor que atribuem a cada vida teria potencial de transformar todos eles, mas escolhem, por entretenimento, fazer dessa forma. Os ricos podem ajudar as pessoas mas, por não ter mais humanidade ou empatia, não veem prazer nisso – eles podem, mas não vão!

O Il-nam é o verdadeiro vilão, não o babaca do Doek-su. Ele é basicamente um agiota, incentiva o endividamento de famílias e, por meio disso, consegue escravos ou jogadores que irão diverti-lo com a própria vida. Ele se acha “legal” em oferecer uma segunda-chance as pessoas, coisa que não acontece no mundo real, mas que segunda chance é essa? Il-nam zomba do Gi-hun e de todos os participantes, sua vida nunca esteve em risco e ele tem uma saída estratégica antes da ponte de vidro – é patético. Ele é um cara perverso que desde o começo se aproveita de Gi-hun e, sinceramente, não duraria muito no mundo real quando exposto a ele.

Round 6 é sobre um boomer que passou a perna em várias pessoas, prejudica outras tantas, fez sua fortuna de modo totalmente questionável e, por que ele “conseguiu” acredita que todos conseguem. Não sabe nada sobre humanidade, é pessimista, trata os outros como objeto, e não duraria 2 dias longe da sua bolha e proteção. Bilionários não deveriam existir, e aqui está a prova: fortunas são feitas às custas de miséria. Paz!

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