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Caros Camaradas – o desespero de ver seus ideias ruindo

Russos gostam de provocar nosso intelecto, principalmente de forma pessimista. Caros Camaradas utiliza uma tragédia real para retratar a ruína não de um regime, mas dos ideais pessoais nos quais eles se amparam.

O últimos 150 anos na Rússia foram uma loucura, difícil de acompanhar até mesmo pelos livros de história. O país foi, por anos, o maior inimigo do imperialismo americano, com inúmeros vilões estereotipados e rasos que não se aprofundaram o suficiente em qualquer personalidade. Então, quem são os Russos e como eram sua relação com a União Soviética? Andrei Konchalovskiy constrói um retrato universal com o regime socialista de fundo, ilustrando que, no final do dia, são gente como a gente.

Lyuda é uma mulher pragmática e devota ao partido comunista, onde trabalha e defende os ideias. Só que, em 1962, algumas medidas tem torrado a paciência do povo: o salário foi reduzido e a preço dos alimentos subiram, o que culminou, previsivelmente, numa greve na fábrica mais importante da pequena cidade de Novocherkassk. Lyuda vê de perto a insatisfação das pessoas, e tem um desentendimento com a filha justamente por isso.

O governo soviético, nada satisfeito com esses desdobramentos, exige uma solução rápida, eficiente e definitiva – afinal, não pode vazar para o resto do país que está rolando uma greve, já pensou se a moda pega? Pelos olhos de Lyuda, vemos a confusão dentro do partido e a intervenção da KGB no assunto, que transforma uma manifestação pacífica em um massacre sangrento com 80 pessoas mortas e mais de 100 feridas. Quem estava na greve e agora desapareceu? Ela mesma, a filha da Lyuda – que está no meio dessa loucura.

Yuliya Vysotskaya mistura perfeitamente a frieza russa com o amor maternal, algo que rompe o estereótipo ocidental e conduz a narrativa com humanidade e um sentimento universalmente relacionável. Lyuda não tem apenas que lidar com o desaparecimento da filha – e fazer cara de paisagem, pois a menina estava metida com manifestantes, né? Mas, também, com a sua própria desilusão frente aos ideais comunistas. A personagem assiste ao partido cometer um crime, tomar atitudes incongruentes com o que prega. Ao mesmo tempo que Lyuda concorda que está tudo errado, ela se agarra ao ideal que a levou até ali, por que é difícil mudar de opinião sobre algo que faz parte de você.

Muitos não sabem, mas a união soviética nunca chegou a viver os dias de ~delírios comunistas. O partido era uma promessa, um regime socialista “transitório” que preparava terreno para, enfim, viver a democracia comunista plena e feliz – que nunca chegou. Lyuda acreditava nesses ideias, que se perderam com a morte de Stalin, segundo a personagem – ela chega a dizer “Se Stalin estivesse vivo, já viveríamos o comunismo”. Andrei Konchalovskiy consegue transmitir essas emoções de desilusão política para o ocidente, pois o foco não é o conteúdo das crenças de Lyuda, mas como essas crenças foram destruídas pelas pessoas no poder – vivemos isso todos os dias por aqui.

O cineasta opta por uma fotografia preta e branca e aos moldes dos filmes da época em que o longa se passa, ou seja, a sensação é que estamos assistindo a um filme antigo. A câmera é quase sempre estática e tem um enquadramento que foge da norma contemporânea, mas confere personalidade, com quadros interessantes e bem representativos, extrapolando os sentimentos de Lyuda.

Entretanto, toda essa vibe ~filme antigo~ também é percebida pelo ritmo. O longa é cheio de diálogos políticos complexos e não possui muita ação, tem um suspense perene que demora a explodir. O texto russo exige um pouco das aulas de história e é repleto de referências culturais difíceis para pegarmos, ao mesmo tempo que enriquece a experiência ocidental – existe forma mais fácil de conhecer outra cultura do que a assistirmos pelos olhos de locais?

O filme nunca chega a um drama catártico – russos, não é mesmo? No entanto, surpreende como, mesmo sem as camadas hollywoodianas, transmite humanidade, emoção e sofrimento do seu jeito. Yuliya Vysotskaya é uma atriz incrível, entrega uma personagem complexa, pragmática e gentil ao mesmo tempo, segurando toda a carga dramático sozinha. Ela dá medo e é vulnerável ao mesmo tempo!

Caros Camaradas desmitifica o comunismo para ambos lados polarizados na briga política, colocando luz sobre uma tragédia real – que acontece em qualquer regime totalitário. Andrei Konchalovskiy acerta em trazer uma visão diferente, tirando o foco dos trabalhadores e retratando como era aquela situação para alguém inocente de dentro do partido comunista – o que deixa a história mais rica, complexa e interessante de se acompanhar. Caros Camaradas é um título irônico dentro da jornada da personagem, de uma história cheia de contradições e promessas quebradas, como é a realidade no planeta Terra.

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