Críticas Filmes

Druk – Mais uma Rodada expõe questões culturais, mas evita discuti-las

Mads Mikkelsen é um dos maiores atores da sua geração, e em Druk vive o drama da crise de meia-idade. Homens frustrados e álcool não são uma boa mistura, e Vinterberg sabe disso, porém o instinto de autopreservação masculina reluta em oferecer um posicionamento.

Vencedor de melhor filme internacional no Oscar deste ano, Druk – Mais uma Rodada é um retrato realista e humano sobre a crise de meia idade masculina e o impacto sociocultural do álcool na nossa rotina. O drama cômico e, por vezes, sombrio cresce com o protagonismo sensível e hipnotizante de Mads Mikkelsen, unido ao talento já reconhecido do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg.

Martin (Mads Mikkelsen) é um sonâmbulo caminhando pelos dias da sua vida, apático e alheio a própria existência. Em casa, mal troca palavras com sua esposa, que trabalha em plantões noturnos, e os filhos sequer olham na sua cara. No trabalho, o cenário não é promissor também: Martin foi chamado pela diretoria do colégio, seus resultados como professor de histórias são insatisfatórios e não vão levar os alunos a tirarem uma boa nota no vestibular – as aulas de Martin são um saco, e ele simplesmente não consegue deixar os estudantes engajados.

Movido pela obrigação social, Martin vai a um jantar com os melhores amigos, e também professores do colégio. A fim de alegrar o amigo, Peter (Lars Ranthe) propõe realizar um experimento controverso: testar um estudo que diz que nós, humano, temos uma deficiência de álcool no organismo, e por isso devemos ingerir uma pequena quantidade para manter o equilíbrio e prosperar na vida pessoal e profissional. Porém, passar os dias relativamente bêbado não é para qualquer um, e pode acarretar em consequências severas.

Sem julgamentos, o filme escrito e dirigido por Thomas Vinterberg explora a crise de meia idade masculina com uma perspectiva da perda da juventude, da energia e otimismo característicos dessa fase. Mads Mikkelsen faz um trabalho espetacular (seu padrão) em mostrar a depressão e o incomodo social de Martin, com expressão e trejeitos orgânicos e sutis. O protagonista rouba todas as cenas e tem uma humanidade muito relacionável, algo que não é típico de seu trabalho. Vinterberg, que já trabalhou com o ator, o tira desse lugar de vilão hollywoodiano (Le Chiffre, Kaecilius, Hannibal e, agora, Grindelwald – temos um ponto aqui) e o coloca como uma cara comum – extrapola, enfim, a simpatia do ator (que é um amor de pessoa).

Druk: Mais uma Rodada traz seriedade e humanização a crise de meia idade masculina. Normalmente, filmes que navegam nesse território têm protagonistas infantilizados que, ao longo da jornada previsível, aprendem a importância de amadurecer (sim, aos 50 anos, porque até os 49 homens ainda são meninos). Aqui, Vinterberg foca na deficiência emocional desses homens, acentuada pelo álcool, e não oferece uma conclusão unânime e simples a um problema complexo, que abrange o papel social masculino.

Casamento, filhos para alimentar, dirigir, trabalho, adolescentes para ensinar e supervisionar – os quatro professores vivem sob a pressão da responsabilidade, um deslize pode acarretar em catástrofe. Martin sente esse peso e não sabe lidar bem com a frustração constante que é a sua vida, a perda da juventude e o acumulo de papeis desgastantes. Seu casamento está definhando, seus filhos o ignoram e ele vive num torpor apático que parece anular seus sentimentos. E o mesmo se estende a seus amigos.

Nikolaj (Magnus Millang), chega em casa e encontra o caos, com bebês e crianças promovendo a desordem e o barulho, lhe tirando qualquer paz e privacidade. Tommy (Thomas Bo Larsen) se divorciou e perdeu todo o autocuidado, vive numa casa suja, fedido e direciona toda afeto ao cuidado do cachorro. Apesar de nunca atribuir esse peso a mulher de forma direta e verbalizada, a narrativa heteronormativa de homens tristes, invisivelmente, coloca parte da responsabilidade na figura feminina e ao fato desses homens terem deixado de ser o centro das atenções na vida da mulher. Não parece algo intencional, mas intrínseco da abordagem existencial do homem padrão mediano. Sentimento intensificado pela realidade de Peter (Magnus Millang), também triste e frustrado, é o amigo mais bem sucedido, e não coincidentemente, o único que não se casou ou teve filhos.

Claramente, esses são homens de meia-idade que não sabem lidar com suas frustrações (por isso universais rs), e o álcool parece uma boa saída para deixarem o desconforto emocional de lado e reviverem sua versão jovem e divertida. Num primeiro momento, podemos dizer que o experimento caminha para o sucesso, eles de fato conseguem melhorar a vida e trazer luz a melancolia que regia os dias – Martin engaja com os alunos e consegue um date com a esposa, Tommy finalmente se torna um bom técnico do time de futebol e acolhe um garotinho que sofre bullying, as coisas parecem fluir. Mas só até certo ponto.

Ceder ao álcool é tapar o Sol com a peneira, e não demora para os amigos errarem na dose e passarem do ponto. O longa busca discutir o alcoolismo de uma forma leve, humanizada e relacionável com a vida real: as pessoas reagem diferente ao consumo constante e excessivo de álcool, a quem consiga administrar isso no cotidiano, e a quem perde tudo vitima da falta de controle provocada pelo torpor de estar embriagado. No filme acompanhamos as consequências diversas que o experimento provoca, não caminhando para uma conclusão moral, mas crua e extremamente real.

Druk evoca a temática do problemático impacto social e pessoal do consumo de álcool, algo intrínseco a cultura ocidental. Visto como um instrumento de socialização, quando em pequenas quantidades (o famoso “bebo socialmente”), o álcool pode ser um eficiente desinibidor social e estimulante intelectual. Entretanto, é o maior responsável por acidentes de carro e morte em trânsito, além de despertar comportamentos problemáticos ao tirar o filtro das ações e palavras. Álcool é sobre controle, em Druk, esses homens perderam o controle de suas vidas faz algum tempo, e colocam a sua realidade em risco – afinal, se você precisa de um ~bafômetro pessoal, as coisas estão meio desandadas, né?

Vinterberg consegue criar uma narrativa constante, que não pende para a comédia escrachada (graças as excelentes atuações que nunca colocam um bêbado caricato em cena) e nem adota um tom catastrófico e sombrio, caminhando com maestria na linha tênue dessa realidade sensível. O filme não é uma apologia ao alcoolismo e nem busca condenar o hábito social de consumir álcool, trazendo uma abordagem honesta e cruamente realista do tema – intercalando momentos de alegria e descontração com consequências para a vida pessoal e profissional.

Martin personifica a crise de meia-idade de homens que buscam se reconectar com suas identidades, depois de anos reclusos em suas próprias frustrações, reprimindo seus sonhos e juventude. Porém, a história alerta sobre os riscos de ceder a uma “cura” rápida, e não tratar de forma efetiva as crises que são extensas e complexas – e demandam tratamento psicológico profissional e a temida conexão com suas emoções que os ~homens de meia idade~ evitam, por toda a construção social em torno de vulnerabilidade e masculidade.

Druk é um retrato fiel demais da realidade, e o filme perde sua potência em não mostrar alternativas viáveis a crise dos homens retratadas, mostrando uma agonia que não parece ter solução (ou origem). A conclusão é uma tragédia conformista, quase uma metáfora de quem sofre com alcoolismo e não assume a doença. Uma narrativa que se isenta de posicionamento não protege os seus personagens do julgamento moral, mas não lhe oferece a oportunidade de enxergar a realidade com outra lente.

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