Críticas Filmes

Viúva Negra esconde falhas atrás de ação e saudades

A espera acabou, Viúva Negra ganha seu merecido filme solo e tem a aventura de espiã russa que tanto pedimos. Apesar do excelente elenco, a despedida de Natasha Romanoff é uma grande bagunça.

Finalmente Natasha Romanoff tem seu merecido longa-mentragem no mundinho cinematográfico da Marvel. A personagem que serviu de suporte para desenvolvimento de protagonistas brancos durante toda sua trajetória carecia de contexto e um momento só seu, pedido feito a exaustão pelas fãs. Viúva Negra entrega o previsível (e saudoso) entretenimento da Marvel, porém não é capaz de compensar os 11 anos de história mal construída da personagem que ajudou a alavancar o império.

Situado entre Guerra Civil e Guerra Infinita, Viúva Negra é uma aventura avulsa de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson), fugitiva do governo americano que precisa sair do mapa por um tempo. Anunciado e com a estreia programada para após os eventos de Vingadores Ultimato – no qual fazem o favor de matá-la – essa sinopse por si só já não tem sentido, mas continua. Enquanto tenta arranjar um esconderijo, o passado de Natasha vem a tona, e uma importante missão parece não ter saído conforme o planejado, o que a leva a reunir sua família para concluir o serviço.

Excelente filme de ação, Viúva Negra entrega cenas perfeitas, lutas bem coreografadas e empolgantes e um roteiro que parece sair direto de um check-list do gênero – para o bem e para o mal. Scarlett Johansson se sente em casa na pele da personagem e ousa nos oferecer uma nova faceta desta, mais vulnerável, mais íntima e mais conectada as outras pessoas, no caso, a família. Sua química com o resto do elenco brilha na tela, especialmente com a irmã, Yelena, vivida ~magistralmente~ por Florence Pugh – que, graças a Deus, poderemos acompanhar mais um pouquinho.

Não só as irmãs emanam o charme frio e violento típico de espiões russos. David Harbour, patriarca da família, empresta seu arquétipo “cara de mau, coração mole” a Alexei Shostakov, um equivalente soviético ao Capitão América – não adianta refletir sobre o mal posicionamento do personagem na história, até o roteirista sabe que não havia contexto para isso no longa. A ausência de química com a esposa, Melina, interpretada por Rachel Weisz (perfeita!), cai como uma luva: a personagem é conhecida como Dama de Ferro nos quadrinhos, uma mente perversa dentro da Hydra.

O quarteto inusitado funciona de maneiras inesperadas, principalmente pela pluralidade dos trabalhos anteriores do elenco – o que chega a ser um desperdício: com uma dose maior de espionagem e seriedade, Viúva Negra seria um excelente filme do gênero e aproveitaria mais o talento e a sintonia que o elenco possui.

Como uma aventura completamente avulsa, o filme funciona bem. O básico de espionagem russa sai na frente dos parceiros do gênero – já conhecemos e amamos Natasha. Viúva Negra é um entretenimento que nos envolve rápido e não solta a nossa mão até acabar, sentimento acentuado pela saudade de assistir um filminho da Marvel nos cinemas – afinal, quando o estúdio nos deu um retiro de um ano? Nunca.

Entretanto, passada a euforia, o açúcar fica amargo na boca e uma dura e inevitável realidade inunda o coração do espectador: esse filme é todo errado. Viúva Negra não sobrevive aos dias posteriores de reflexão sobre o longa: nem de forma independente, muito menos como um trabalho inserido dentro do MCU (que é assunto para outra postagem (mais exaltada)).

O roteiro de Eric Pearson é um retalho que tenta tampar a ferida de 11 anos clamando por filme solo da personagem, mas serve apenas para infecciona-la. A história quer ser uma origem, mas procura meios menos óbvios de o fazer, e falha – é uma origem 2.0 com sabor de fracasso para Natasha, que ideia foi essa? Se passa num espaço de tempo que não tem propósito ou sentido, afinal, Natasha está morta, e estamos acompanhando sua aventura entre dois filmes da Marvel como se não soubéssemos o que aconteceu com ela. E, no fim do dia, o filme solo da Natasha é uma desculpa para introduzir novos (e maravilhosos) personagens ao MCU, e, mais uma vez, moldaram a história da personagem para fazer outras acontecerem (mesmo que, agora, seja para Yelena).

O longa poderia contar qualquer aventura da Viúva Negra, que são inúmeras segundo a própria personagem. É interessante trazer uma perspectiva mais sensível e familiar, porém será que essa é a melhor escolha, dar um coração a alguém notoriamente fria e ~calculista? Não soa um pouco machista essa necessidade de transformar Natasha numa caixinha ~family friendly? Por que não colocá-la como vilã? Ou numa missão questionável da S.H.I.E.L.D.? São reflexões que questionam as decisões fáceis e automáticas tomadas pelo roteiro, que não ousou ou brincou tanto com a personagem como ela merecia. Jogou seguro, algo que a Viúva Negra jamais faria.

Além dessas questões (de ausência) criativas, Eric Pearson tem uma linguagem pedante ao abordar pautas feministas, verbalizando todas as demandas da matéria com discursos que gritam “olha como esse filme é feminista”. Isso fica claro no diálogo entre Yelena e Natasha, no final da cena em que as duas fogem de uma perseguição num carro roubado: a irmã da protagonista fala sobre o primeiro ~lookinho que ela escolheu e comprou: um colete militar cheio de bolsos. O humor disfarça o texto nada sutil que busca palmas da plateia por fazer o mínimo: oferecer trajes práticos e não sexualizados para assassinas treinadas.

Ao mesmo tempo que o roteiro levanta essa bandeira de maneira forçada, carece de sensibilidade ao abordar outra questão feminina: a mutilação das Viúvas Negras. Numa cena gratuita e completamente dispensável, Yelena adota um tom jocoso ao explicar como não pode ter filhos – algo que Natasha já havia falado anteriormente. Porém, essa é uma questão muito delicada, existem mulheres no mundo que ainda sofrem mutilações, e não é de bom tom transformar tamanha violência – física e psicológica – em piada. Pearson foi roteirista de Thor Ragnarok e Agent Carter, não posso falar pela série, porém o último longa do Deus do Trovão acerta nas piadas e no humor, só que isso não combina com a Viúva Negra.

A direção é de Cate Shortland, a primeira mulher a dirigir sozinha um longa do MCU (Capitã Marvel é co-dirigido por um homem), porém, difícil julgar seu trabalho no todo. Shortland entrega um ótimo filme de ação e usa bem o material que lhe foi entregue, mas o material, putz! O roteiro de pouca inspiração unido ao rígido guideline da Marvel minam a possível criatividade da cineasta, que é engolida pela fórmula e pela produção padrão do estúdio, emulando cenas e quadros que fizeram sucesso anteriormente.

Viúva Negra está uns 6 anos atrasado, tanto no contexto dentro do universo proposto pela Marvel, quanto na sua estrutura e proposta narrativa. Tal qual Capitão América, a sensação é que esse filme ficou anos congelado e despertou tarde demais, como dizem alguns ~insiders~ dos estúdio. Entretém e mata a saudade de Natasha Romanoff, mas está longe de ser a despedida e legado que a personagem merecia.

Kevin Feige, o filme solo da Viúva Negra não é um favor que você faz a meia duzia de fãs, mas uma obrigação que você negligenciou tempo demais, até virar uma armadilha para filmes de heroínas e dirigidos por mulheres.

Cena pós-credito: fizeram outra né? Cara de pau ao extremo. Ficou excelente, que ódio, Marvel!

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