As Virgens Suicidas é o retrato cru de uma juventude sonhadora e melancólica

Primeiro filme de Sofia Coppola, As Virgens Suicidas completa vinte anos e continua muito atual. O retrato intimista das irmãs Lisbon mostra as dissonâncias entre percepção e realidade, ilustrando uma adolescência objetificada que nunca é, de fato, compreendida. Baseado no livro homônimo, Coppola rompe com os estereótipos teens da época e faz uma obra que discute transtornos mentais numa idade tão conturbada como é a adolescência.

Cecília é a irmã mais nova de cinco, conhecidas como As Lisbon. Com 13 anos, a caçula comete suicídio nas férias de verão, desestabilizando toda a família. Na volta as aulas, as quatro irmãs vão à escola como se nada tivesse acontecido, e a morte de Cecília nunca é discutida ou mencionada. Bonitas, as meninas são envoltas em um mistério, como seres incríveis e indecifráveis para os meninos, que as espionam obsessivamente. O narrador do filme conta essa história vinte e cinco anos após os acontecimentos, já adulto, evidenciando as diferentes percepções (e falta delas) na história das cinco adolescentes.

*Esse é um filme sobre suicídio com gatilhos fortes para pessoas sensíveis ao tema*

As Virgens Suicidas foi o debut de Sofia Coppola como cineasta, sendo ela a diretora e roteirista do filme. Um de seus livros favoritos, ela sentiu necessidade de contar essa história e de quebrar o padrão de filmes adolescentes da época, que retratavam jovens bobos e rasos e subestimavam esse público. Em Virgens Suicidas o que temos é o retrato real da adolescência, com a objetificação das meninas, conflitos com os pais e uma busca por sua identidade. Coppola usa sua voz para mostrar como as garotas não eram ouvidas e os malefícios da falta de comunicação. O narrador ilustra como, durante o período, ele estava cego na sua própria obsessão e não percebeu, de fato, o que acontecia na casa vizinha.

Podemos dizer que Sofia Coppola é a primeira tumblr girl/vsco girl com segurança. A estética do filme está surpreendentemente atual, provando que Virgens Suicidas é atemporal! Já definindo seu estilo, logo no primeiro longa de Coppola vemos uma atmosfera “dreamy, ilustrando a idealização que as pessoas tinham das irmãs Lisbon, uma névoa misteriosa numa pegada fada. O filme foi gravado em película e tem granulados que intensificam essa sensação e conversam com a estética atual, meio vintage. A paleta de cores é clara, com muitos tons pastéis e coisinhas florais – essa pegada girlie sendo um dos marcos do cinema de Sofia Coppola. Porém, mais do que uma maravilhosa coesão estética, esse conjunto de elementos é usado para retratar a estado de espírito das meninas, a ingenuidade delas.

as virgens suicidas sofia coppola

Nunca li o livro (dificílimo de encontrar), mas o roteiro de Sofia Coppola é impecável e delicado. Ele se mostra maduro e faz bom uso de metáforas, como a árvore na frente da casa das garotas, que ilustra como as meninas se sentem, e como esse sentimento é tratado pelos outros – é sensacional. As aulas de matemática do Sr. Lisbon (pai das garotas) também contribui com as entrelinhas da mensagem do filme, e, com detalhes, Sofia Coppola diz muito mais do que aparenta. Principalmente porque comunicação não é o forte de ninguém ali, principalmente na família, e a ausência desses diálogos também diz muito, um roteiro inteligente e que não subestima a sua audiência.

O filme retrata o mal que a falta de comunicação familiar pode causar, já que a casa vive em constante silencio e reprimendas. Sufocadas pelo catolicismo da mãe, as meninas não conseguem perseguir suas identidades e terem a vivência de adolescente, no desejo de protege-las e preserva-las a mãe as isola, e o isolamento nunca é saudável. O pai, vítima do machismo, não consegue expressar seus sentimentos, sua solidão é evidente e preenchida por conversas vazias e sem significado. Esse retrato intimista da família Lisbon é feito com muita delicadeza por Sofia Coppola, que não buscar julgar ou palestrar sobre, mas apenas ilustrar causas e efeitos.

No longa não vemos julgamentos morais, nem por parte das meninas ou dos meninos, mas um retrato frio da sociedade. Os meninos observam as meninas, invadem sua privacidade e ficam obcecados com elas, mas nunca, de fato, se preocupam genuinamente com seus sentimentos. Eles as enxergam como objetos, seres mágicos inalcançáveis, mistérios que eles querem resolver, como um desafio. Eles chamam de amor, mas fica claro que não é esse o sentimento, uma vez que não as enxergam como seres humanos ou indivíduos separados – as meninas são sempre as irmãs Lisbon. Esse encantamento é quebrado por certo garoto, e, quando isso acontece e vê que elas eram apenas garotas, descarta. Seria fácil Sofia Coppola assumir um tom advertido em relação a isso, mas ela não cai nessa armadilha – Virgens Suicidas é fluido e busca trabalhar os dois lados (meninos x meninas) de forma neutra e precisa.

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Quando falamos de obras sobre suicídio na adolescência nos vem à mente os 13 porquês, mas Virgens Suicidas se distancia muito da série da netflix. O tom é outro, a vibe do filme é bem mais leve e gostosinha, e o suicídio é tratado de uma maneira mais simbólica e menos fatalista. O longa não procura motivos, razões ou culpados – o distanciamento do narrador ajuda nessa sensação. O título funciona como uma alegoria da transição da adolescência para a vida adulta num aspecto mais psicológico, ou seja, toda a atmosfera dreamy e ingênua “morre” quando se passa para a vida adulta, que é real e deixa as fantasias de lado.

Esse rompante é a linha condutora do filme. Logo na primeira cena vemos Lux numa imagem surrealista no por do sol, tudo vsco girl super bonito com uma trilha sonora que embala a gente e, de repente, silencio e vemos Cecilia na banheira. O jeito como Sofia Coppola trabalha esses rompantes da realidade cortando o sonho permanece ao longo do filme e incomodam, deixam a gente triste e marcam a transição dessas duas fases. A complexidade de sentimentos nas entrelinhas, as escolhas da direção e o mistério das garotas transformam o suicídio em algo mais simbólico do que na série da netflix – sem falar que é tratado com mais responsabilidade e menos sensacionalismo.

Algo que pesa muito na história é a busca da identidade de cada irmã Lisbon. Não temos a oportunidade de conhece-las de fato, e, apesar de frustrante, isso serve para ilustrar como ninguém daquele universo realmente o fez. Sempre tratadas como as irmãs, um grupo, elas não tinham seu próprio quarto, seu próprio estilo de roupas, e a sua individualidade era minada. Cecília, vivida por Hanna Hall, vive uma síntese do filme inteiro no pouco que aparece antes de seu suicídio e, apesar de não conhece-la muito bem, consegui me relacionar com a personagem, que estabeleceu que as irmãs são indivíduos diferentes.

virgens suicidas meninos

Lux, Kirsten Dunst (paixão), era a típica cool girl – a mais popular das irmãs, gostava de rock, queria mostrar mais pele usando as roupas, ir aos bailes e namorar, o que entra em conflito direto com os princípios católicos rigorosos da mãe. O que vemos é uma menina que tem sua identidade arrancada de si, que não pode experimentar e descobrir quem é, ela é frustrada constantemente e, como Cecília, sintetiza, de outra perspectiva, a vontade de pegar sua vida de volta. O suicídio das meninas (tá no título, gente, não é spoilers haha), é um ato desesperado de ter controle sob suas próprias vidas, que, no catolicismo, pertence a Deus. Sofia Coppola pensou em cada um desses detalhes, uma mulher perfeita.

O final é tão atemporal quanto o resto do filme e mostra o abismo que existe entre os adolescentes e os adultos, principalmente no que tange os sentimentos. As Virgens Suicidas apresenta como o suicídio é um veneno (o ato influencia as pessoas ao redor) e evidencia como ninguém o trata com a seriedade necessária, ou respeito. O filme reforça ao longa da história o preconceito e descaso que, os adultos especialmente, tem em lidar com essa questão: diminuem os sentimentos dos jovens, fazem um show ao redor da tragédia e, passado um tempo, vira piada desdenhosa. A forma apática que Sofia Coppola optou por demonstrar é o incomodo necessário para fazer reconsiderar posições e pensamentos.

Procurei defeitos, mas realmente não achei! As Virgens Suicidas é um dos meus filmes favoritos: teen, mas maduro, que não subestima a audiência e agracia os espectadores do gênero com uma obra completa, com significado. Além da estética característica de Sofia Coppola (e que eu amo), o longa é atemporal em mostrar as nuances da adolescência, tirando o peso dos rótulos e julgamentos, mostrando o abismo entre os meninos e as meninas e a busca, de todo mundo, por identidade. Responsável em tratar uma adolescência menos estereotipada, mas extremamente mundana. Um debut perfeito de uma das maiores cineastas do seu tempo!

As Virgens Suicidas retrata uma juventude sonhadora e melancólica, e, para muitos, isso pode ser tedioso (atento), mas, na verdade é maduro em ilustrar o distanciamento emocional. O filme tem gatilhos, não recomendo ver se não está num momento good vibes (e, se tiver pensamentos suicidas, liga no CVV 188, ou acessa o chat deles, e, claro, procure ajuda profissional!).

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