Aves de Rapina e a emancipação das mulheres no cinema de herois

Vivemos a era da ascensão de super-heroínas no cinema, finalmente. Aves de Rapina é o primeiro grupo composto por mulheres a ganhar espaço nas telonas e isso é histórico – assim como foi Vingadores há 10 anos. Não só Arlequina tem sua emancipação, como todas as meninas que há anos esperam o momento de se verem protagonistas, e, mais, poderem escrever e dirigir esse momento. Aves de Rapina tem roteiro e direção, também, de mulheres, e isso faz parte do porquê esse filme é tão icônico.

Harley Quinn e o Coringa terminaram, e isso tem consequências. Enquanto lida com seu coração partido, Arlequina também precisa encarar o fato de que não tem mais a proteção que namorar o cara mais perigoso de Gotham provinha – e os desafetos tem carta branca para ataca-la. Perseguida e odiada, Harley se envolve numa missão a fim de salvar sua própria vida, e, no caminho, cruza com Canário Negro, Caçadora, Policial Montoya e Cassandra Cass. Todas envolvidas na loucura que o vilão, Máscara Negra, está promovendo na cidade. Aves de Rapina é uma aventura simples, mas extremamente divertida e envolvente, na qual prioriza as personagens, especialmente a estrela, Arlequina.

Esqueça Esquadrão Suicida e desvista todo o receio que veio diante de tal atrocidade ao cinema. O roteiro de Christina Hodsun e a direção de Cathy Yan aprenderam com os erros dos outros e melhoraram as poucas boas ideias que a aventura anterior de Harley Quinn havia apresentado. Só que elas foram a além e olharam para um público negligenciado pelo universo cinematográfico de heróis: as mulheres. Aves de Rapina é, apenas, o terceiro filme dessa geração de heróis que traz mulheres como protagonistas e evidencia que nossas narrativas são diferentes.

Como falei, a história geral do filme é bem simples e ele cai nos lugares comum do gênero: vilões rasos e muahaha, conclusões simples e tal, mas o objetivo dele não era contar uma história complexa ou inovadora, mas representativa, e nisso ele acerta. Christina Hodsun apresenta uma personagem que sempre se viu como coadjuvante e estava em busca constante de validação do parceiro, e, quando se vê sozinha, precisa encontrar sua própria voz. A sensibilidade e autenticidade com que Hodsun conta essa nova fase da Harley Quinn é incrível e muito especial – e mostram que a roteirista conhecia a personagem e criou uma história com sua personalidade e alinhada com as demandas atuais de girl power.

Arlequina é a protagonista, e essa é a sua história. A personagem quebra a quarta parede de forma original e sentimos que estamos num bar conversando com ela. Toda a narrativa é construída como se estivéssemos na mente de Harley e, mesmo que tenha muitos flashbacks e vai-e-vem temporal, faz sentido dentro da proposta. O filme é repleto de monólogos da personagem que busca entender seus sentimentos, e por isso não fica esquizofrênico ou “novela da globo”, mas autentico. São descritivos? Sim, mas não óbvios e dentro do filme que busca tratar sua emancipação, necessários. Christina Hodsun acerta nos detalhes, na construção da independência da Harley, no sentimento de união e empatia que surge entre as meninas, na quebra da rivalidade. São as pequenas cenas que fazem Aves de Rapina uma representação incrível da diversidade feminina e sua sororidade, o faz com que a história geral simples seja perdoada.

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Arlequina não é heroína, e o filme não tenta tirar a vilania dela. A personagem flerta com os dois lados, ela comete crimes, mas tem seus princípios e a narrativa mostra toda essa humanidade. Assim como as demais personagens. Apesar do pouco tempo de tela, Harley Quinn faz questão de apresenta-las, dar um pouco de contexto, e o filme se encarrega de conferir personalidade a elas, distintas e não caricatas. O nome do filme não é o ideal, o longa é uma espécie de origem das Aves de Rapina sob o ponto de vista da Arlequina e isso dão leveza e dinâmica muito interessantes. Ele não se prende nas cansativas histórias de origem e na burocracia típica da união de heróis, mas sim da necessidade de trabalho em equipe. Harley Quinn nos conta sua origem muito rapidamente de um jeito engraçado, leve e bem dela, em forma de animação, e ele serve de background para entendermos como ela funciona, pensa e o que a separação do Coringa representa na vida dela – é o máximo haha.

Todo o roteiro é valorizado pela direção de Cathy Yan. Esquadrão Suicida teve boas ideias, só que muito mal executadas, e diretora percebeu isso. Adicionando a identidade da Arlequina, ela transformou o filme numa espécie de diário da personagem, as fichas de apresentações, tão criticadas e enfadonhas, se transformaram em observações hilárias e funcionais. A trilha sonora é repleta de hits potentes, só que o filme é preciso em utilizar cada canção: a letra e melodia conversam com as cenas, e a escolha é política, só tem música cantada por mulheres. Percebe como o filme é cheio de identidade nos detalhes?

As cenas de luta são excelentes e violentas. Cathy Yan saiu do estereotipo e criou confrontos bem coreografados e visuais, com sangue, fraturas e muita pancadaria (nunca achei que utilizaria essa palavra na vida haha). A personalidade de cada uma é refletida no estilo de luta e nas estratégias, que são diferentes e bem pensadas. O filme faz o checklist completo de filmes de ação: confrontos muito exagerados, perseguição em carro, explosão de casa, gente pulando de um carro pro outro, enfim, tudo que se tem direito. O ponto crucial é que nunca vimos meninas protagonizando tais momentos, e, por isso, o clichê se transforma em representatividade.

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As escolhas criativas de Cathy Yan transformam Aves de Rapina numa divertida aventura girl power. Dos tiros de Arlequina saem confetes, as roupas das meninas são confortáveis e cheias de personalidades, e ele conta com cenas icônicas como: referência a Moulin Rouge com Ewan McGregor e Harley Quinn emprestando um elástico de cabelo para Canário Negro no meio da briga.

Falando nele, Ewan McGregor está excelente como Roman Sionis, ou Máscara Negra, mas fica ofuscado pelo brilho das meninas e um roteiro que não se importa com ele. Acho político o modo como Christina Hodsun lida com as figuras masculinas no filme. Coringa nunca aparece (por motivos de: Jared Leto foi aposentado das funções, ainda bem). A ausência dele funciona como uma metáfora, já que Harley Quinn o está tirando de sua vida, mesmo. Roman Sionis apenas a respeitava por causa do ex, e isso é muito representativo no universo das meninas, assim como caras querendo se aproveitar dela quando está vulnerável. Arlequina carreira solo é subestimada constantemente, e o roteiro e a direção trabalham muito bem esse momento em que ela sai da sombra do homem e mostra todo seu poder.

É falho, sim, a abordagem rasa de Roman Sionis e poderiam ter explorado mais um ator maravilhoso como Ewan McGregor, mas quantos filmes de heróis não vimos um vilão tão raso quanto? Quantos filmes de heróis não vimos garotas servindo apenas como ferramenta narrativa? É claro que não queremos narrativas simplórias e bidimensionais e podemos, sim, elevar essa régua, mas desqualificar Aves de Rapina pelos seus clichês e lugares comum é injusto, já que ele escolhe outra abordagem e entrega o que promete: um grupo de garotas e a emancipação da Arlequina. Aves de Rapina é uma alegoria, e Harley Quinn e as outras simbolizam as mulheres no mundo e no universo dos heróis.

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Escolher produzir Aves de Rapina é ousado, e esse é um crédito todo da DCEU. Apesar dos inúmeros erros e polêmicas do universo estendido da DC nos cinemas, uma coisa pode-se afirmar: eles experimentam. O projeto da Mulher Maravilha foi uma revolução no gênero de heróis no cinema, bancaram uma direção feminina e um filme com protagonista mulher, quando o concorrente (Marvel rs) ignorava os pedidos pelo filme solo da única mulher até então presente. Mulher Maravilha abriu portas para que Capitã Marvel pudesse sair do papel, e para que Aves de Rapina fosse produzido. Este último ainda ousando mais e criando um grupo composto apenas por mulheres, mostrando, de novo, o pioneirismo da DC – e como ela está aberta a ouvir diferentes linhas criativas, já que este é completamente diferente de Mulher Maravilha. A DC vacila, mas entre trancos e barrancos, é ela que está fazendo mais pela representação feminina no universo de heróis – e, cá entre nós, sempre as melhores produções haha.

O melhor para o final: Margot Robbie. Dona da Arlequina, a atriz é perfeita no papel e, de longe, o ponto alto do filme, óbvio. É evidente a diferença que a abordagem da personagem teve em comparação com esquadrão suicida. Ela saiu de bibelô de macho para protagonista com sentimentos, personalidade e opinião própria. Livre, Margot Robbie teve a oportunidade de criar sua própria Harley Quinn, e, se mesmo com todo aquele machismo impregnado ela já carregava o filme nas costas, agora ela rouba a cena e se transforma num ícone muito maior, uma referência e atuação que ficarão marcados. Margot Robbie se diverte no papel, traz nuances e consegue passar o conflito da Arlequina com maestria. Ela não é um doidinha sensual, ela tem doutorado, sentimentos e personalidade, é independente do Coringa, e mostra isso com o filme.

As outras meninas tem um tempo de tela pequeno na verdade, mas espero que tenham a oportunidade de continuarem com seus papeis, pois muito potencial. Rosie Perez é a Policial Montoya, esgotada em não ser reconhecida como excelente profissional que é, vendo homens pegando seus créditos e sendo ouvidos – quem nunca? Mary Elizabeth Winstead é Caçadora, misteriosa, traumatizada, perfeita e impiedosa, que tem problema em controlar a raiva, às vezes rs. Jurnee Smollett-Bell é Canário Negro, única que tem poderes mesmo, mas que sinceramente não importa, ela é incrível independente. O elenco é muito bom, quero muito vê-las de novo.

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Aves de Rapina é extraordinário dentro do simples. Um filme cheio de personalidade e que trata suas mulheres com verdade e delicadeza, ao mesmo tempo que traz uma violência crua e divertida. O brilho de Aves de Rapina está nos detalhes, no sentimento e sororidade que ele trabalha: as pequenas cenas se tornam grandiosas para as meninas que, a vida inteira, buscaram por essa representação poderosa, diversa e honesta. Christina Hodsun e Cathy Yan revolucionaram o cinema de heróis e é triste que poucos percebam a grandiosidade dessa filme dentro do gênero, o quanto ele é fiel as mulheres e feito com coração. Já é um dos meus favoritos e me fez feliz como há muito os heróis no cinema não faziam.

Assistam Aves de Rapina, apoiem o cinema feito por mulheres! Vale seu ingresso, e precisamos dessa diversidade e representatividade nas telas – o fracasso de bilheteria se reflete na ausência desses filmes e na perpetuação de padrões que já estamos cansados (homem branco cis hetero numa aventura heroica genérica) – saiam da zona de conforto e forcem os studios a trazerem coisas novas.

PS: Um dos vilões é Victor Szasz, mercenário que faz uma marca no corpo a cada assassinato, e eu amo que ele é tratado como um grande “ata” haha. Claro que foi um potencial desperdiçado, mas esse desinteresse em icônicos personagens masculinos que, no fundo, são um tédio de prepotência foi incrível. Quem é esse macho perto da Caçadora, sabe? haha

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