Inacreditável desmitifica tema tabu de forma responsável e honesta

Inacreditável, não existe nome mais representativo para a abordagem dessa série original Netflix. A história baseada em fatos reais traz a luz um dos maiores tabus da sociedade, estupro, com honestidade e sensibilidade. Uma das obras que melhor conseguiu transmitir os medos e consequências que envolvem a temática, Inacreditável ilustra como as pessoas tem diversas formas de lidar com estupro, direta e indiretamente.

Marie Adler foi vítima de abuso sexual em sua própria residência. Sozinha, amarrada e vendada, a jovem foi abusada por horas. Mesmo sob ameaça de ter suas fotos divulgadas pelo estuprador, ela denunciou o crime: fez exame de corpo delito, prestou quinhentas vezes depoimento (o que é uma forma de agressão – fazer a vítima reviver o trauma de novo e de novo) e, no final, foi praticamente coagida a dizer que tinha inventado toda a história, pois a polícia não tinha provas, evidências o suficiente para ter um suspeito. Anos depois, um caso extremamente semelhante acontece em outra cidade e a detetive Duvall assume o compromisso de identificar o criminoso, mesmo sem pistas, quase sem provas e num caso desafiador.

Similar a Olhos que Condenam, ter a dimensão de que aquilo realmente aconteceu é de embrulhar o estomago e deixar qualquer um quicando de raiva no sofá. Esse efeito no expectador só é possível pois os criadores da série trabalham com maestria a transmissão de emoções na tela. Sem ser sensacionalista, a série critica contundentemente posturas equivocadas, mostra a diferença de tratamento que o crime recebe por policiais mulheres e homens, como o estupro afeta emocionalmente a vida das vítimas e daqueles que fazem parte do seu convívio. Ser abusada sexualmente é o maior medo das mulheres, é um trauma indescritível, uma violação que mexe com todos os aspectos da vida da vítima e Inacreditável sabe como passar isso.

Marie Adler é órfã e já passou por alguns lares adotivos e famílias de apoio, e agora busca sua independência morando sozinha numa residência de apoio a jovens nessa situação. A sua vida muda completamente quando ela é abusada sexualmente, ela vive o trauma sozinha, e reage de forma inesperada por parte dos conhecidos. Se a vida da garota mudou com o trauma, ao se declarar culpada por mentir para polícia, sua vida vira um inferno. A forma como a série mostra as consequências de quem mente ao denunciar abuso sexual é completa, impiedosa e empática. Ao longo dos episódios vemos a vida de uma menina desmoronar, e pior, a facilidade com que ela é desacreditada perante a todos, especialmente a polícia. É mais fácil acreditar que a menina inventou tudo do que um cara tenha armado o crime com precisão e deixado poucos vestígios – nossa, ódio. Existia essa ideia de que estupradores não são inteligentes e não arquitetaram tão bem suas ações.

Como a própria personagem diz: as pessoas querem a verdade, mas quando ela é inconveniente escolhem não acreditar nela. O estupro é algo inconveniente, deixa a todos desconfortáveis, mas a reação de uma mulher e de um homem diante do caso são extremamente diferentes, e aí entram as detetives Duvall e Rasmussen. Por coincidência, as duas acabam descobrindo que estão diante do mesmo abusador e juntam forças e esforços para pegar o cara. As evidências dos crimes são ainda mais escassas do que na época de Marie, mas as duas não sossegam enquanto não descobrirem quem é o criminoso a solta.

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Alguns anos se passaram e o estuprador em série cometeu vários crimes depois de Marie, por isso as detetives tinham mais testemunhas, vítimas e material para trabalhar – ainda que fossem mínimos e estavam tirando leite de pedra. O ponto principal é a determinação em pegar o cara, coisa que não vemos os policiais homens fazendo nos casos similares que chegaram as mãos deles. Ao decorrer dos episódios somos expostos a lapsos, descasos e falta de compromisso deles para com a resolução do caso. A forma como os crimes são cometidos: dentro da casa da vítima, sem arrombamento, na cama delas, utilizando objetos de suas casas, sendo fotografadas enquanto vulneráveis, é desesperador e quem, sujeitada a essa situação, conseguiria voltar à normalidade da rotina? Voltar a morar sozinha, dormir tranquila e tudo? Ninguém, simplesmente não dá! E quem deveria oferecer amparo e segurança não dá a devida atenção e dedicação à situação.

Acredito que a série tenha, claro, puxado bastante para esse lado de “ser um lance das mulheres”, mas a negligência e falta de compromisso são fatos, aconteceram, e fizeram com que as duas voltassem a realizar as investigações já concluídas. Mulheres tem dificuldade em denunciar abuso sexual, especialmente quando se deparam com policiais homens para colher seu depoimento e todo o procedimento. É frequente a culpabilização da vítima, a falta de tato em tratar o assunto, as piadinhas e olhares – uma situação que expõe demais uma pessoa já no auge da sua vulnerabilidade. A série consegue transmitir bem essa sensação, a diferença de abordagem dado pelas policiais mulheres, e como a denúncia pode ser algo que corrobora o trauma, ao invés de suavizá-lo.

Um acerto da roteirização da série foi criar perfis diferentes para as mulheres. As duas detetives tem formas diversas de lidar com a vida, com os casos e de reagir a investigação – elas representam uma união feminina muito especial e decisiva, são determinadas, incisivas e dedicadas, mas cada uma a sua maneira. O mesmo com as vítimas, são mulheres plurais de todos as idades e etnias, sem um padrão físico específico – pois qualquer uma pode estar sujeita ao abuso. Marie lida com o estupro de uma forma diferente da esperada pelas suas mães adotivas, e isso gera conflito – mas não existe tal coisa como fórmula de lidar com essa situação, cada uma reage ao trauma de uma forma. Essa representação na série enriquece a proposta.

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A abordagem da série diante do tema tão delicado é o que a faz saltar do genérico e cria esse enlace sentimental com o expectador, o envolve na história de forma profunda. Diferente do que acontece no recente lançamento, O Escândalo. Como falei na crítica, o filme carece muito desse lado da história, o que abuso sexual representa nas vítimas. Mesmo sendo crimes diferentes, as consequências que deixam são enormes e diversas: cada um lida de uma forma, mas isso não determina se uma mulher é forte ou não pois, só de sobreviver a tais situações a gente já tem essa resposta. A série consegue trazer o trauma sob diferentes perspectivas, mostrar como é a cabeça da vítima e desmentir os estereótipos que ditam como a pessoa deve ou não lidar com isso.

As atuações estão incríveis. Sou muito fã do trabalho da Toni Collette e o desempenho dela como Detetive Rasmussen é excelente, a dinâmica dela com Merritt Wever, Detetive Duvall, funciona e as duas trazem nuances muito bem definidas das personagens, sem exagerar nas qualidades e defeitos. E, de novo voltando em O Escândalo, aqui conhecemos muito pouco do passado e da vida pessoal das duas, mas elas conseguem transmitir sentimento, mostrar por que aquilo importa e o que significa para elas – coisa que o longa em momento algum consegue transmitir. É sobre como se constrói a narrativa, o espaço que dá para criar personagens do que efetivamente tempo de tela, entende? Aqui a história foi criada e contada basicamente por mulheres, e a diferença é evidente.

Principalmente quando pegamos Marie Adler, vivida pela fofíssima e talentosa Kaitlyn Dever. O trauma, a fúria, o desolamento que a personagem sente é percebido em cada olhar da atriz. Apesar de vermos de forma nebulosa como o abuso ocorreu, a forma como a atriz deixa isso reverberar na personagem é excelente. Ela protagoniza os momentos que nosso coração é despedaçado, e ela não precisa de cenas caricatas e exageradas para isso, é natural nos colocarmos na situação dela. Danielle Macdonald (Dumplin) também está no elenco e ela é o contraponto a Kaitlyn, pois as duas tem reações diferentes diante do ocorrido e, mesmo assim, ela consegue passar a confusão escondida e a bagunça que está a cabeça da personagem.

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A direção dos episódios é boa, eles se conversam e o roteiro faz com que fluam muito bem, com cliffhangers no final e tudo isso. A fotografia é sóbria, escura, sem felicidade alguma pois, ninguém tá feliz ali, e, obviamente, quando tudo se conclui ela mostra o Sol. Não é original, longe disso, mas passa a mensagem e dita bem o tom. As cenas de abuso são rápidas, pontuais, como uma memória nebulosa e funciona na série e, principalmente, transmite a verdade sobre o caso: não importa o que a vítima passou, basta saber que foi HORRÍVEL. Não criar uma narrativa sensacionalista e visualmente impactante foi a melhor escolha.

Inacreditável presta um serviço social e poderia falar das outras várias nuances que a série apresenta. Ela é instrutiva de forma natural e a escolha do roteiro em criar personagens reais, honestos e que representam coisas diferentes mostra que ela não veio apenas para contar uma história terrível (como O Escândalo), mas para mostrar e enfatizar alguns aspectos do tema tão polêmico. A série didaticamente mostra como abordar uma vitima de estupro, o tato e a delicadeza em falar sobre o tema; que não existe um checklist de como deve esperar que a pessoa reaja; com dados estatísticos, evidencia o problema de violência doméstica e semelhantes dentro da própria força policial; ironiza o acesso a informações que criminosos tem a fim de conseguirem cobrirem seus traços; e, principalmente, que nem vítima e nem criminoso tem tatuado na testa esses dois status.

É realmente devastador, inacreditável, que Marie Adler tenha passado por tudo aquilo. E, também, é inacreditável a dedicação que as duas detetives colocaram no caso. É uma minissérie original netflix necessária, que todos deveriam assistir, irrestritamente. Ela possui alguns gatilhos, então cuidado se você é sensível ao tema. Inacreditável é uma série responsável, que soube abordar o tema com verdade e sensibilidade. Ao final, pouco importa o grau de fidelidade com os fatos, pois ela é uma verdadeira aula dramática de algo que precisa ser desmitificado e combatido na sociedade. Fiquei mal depois de assistir, pesada, mas, pela primeira vez, sem o peso da impotência nos ombros. O Escândalo termina de forma desmotivadora, mas Inacreditável dá uma dose de esperança, e fala muito sobre girl power, sororidade, união e essa conversa toda, ou seja, é difícil, mas maravilhosa.

2 comentários

  1. Assisti tanto a “Inacreditável” quanto a “Olhos que Condenam” no ano passado e achei incrível o modo como essas séries são capazes de abordar temáticas tão prementes. Esse tipo de produção é, com certeza, essencial para compreendermos os male da nossa sociedade!

    P.S.: Ótima resenha! 🙂

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