História de um Casamento é uma ficção autobiográfica do cineasta ícone do mumblecore … quê?

O divórcio se tornou um processo quase natural da vida romântica contemporânea. História de um Casamento é sobre esse período da vida, mas contado por Noah Baumbach – o que deixa tudo mais profundo e especial. O autor e diretor do longa original da Netflix utiliza de sua bagagem pessoal e profissional para contar uma história sobre amadurecimento: o seu e o do gênero que marcou sua carreira – Mumblecore.

Charlie e Nicole estão se separando. O casal vivido por Adam Driver e Scarlett Johansson enfrentam diferenças irreconciliáveis: apesar de ainda se amarem, a relação não sobreviveu a cegueira de Charlie em relação a Nicole, e a insatisfação pessoal e profissional dela, que não leva a vida que sempre sonhou e está longe de casa. O que era para ser um divórcio amigável sem advogados se complica quando a guarda do filho fica dividida entre Los Angeles e Nova York.

Esse é o meu momento fangirl: Eu adoro o trabalho do Noah Baumbach e da sua influência no movimento mumblecore – e, por saber que a maioria das pessoas não tem ideia do que estou falando, vou contextualizá-las. História de um Casamento é um filme incrível, daqueles que a gente assiste e sofre junto com os personagens – eu amo que é o drama sem vilões, no qual expõe com profundidade as nuances do ser humano, que são incríveis e escrotos ao mesmo tempo, em diferentes âmbitos da vida. Essa é uma ficção autobiográfica.

Já falei em outros momentos sobre essa tendência no cinema aqui no blog, e esse é mais um caso. Noah Baumbach, roteirista e diretor de História de um Casamento, se inspirou na sua própria relação com Jennifer Jason Leigh, ex-esposa. Casados por quase dez anos, a atriz de Atypical morava em LA e se mudou para Nova York por conta do marido, Baumbach. Os dois tiveram um filho, Rohmer (que nome, né, gente?), e são do meio artístico. Ao olhar a carreira de Jennifer percebemos que, no período em que esteve casada e morando em NY, seus trabalhos minguaram, pois estava longe da cena de Hollywood, onde tinha uma carreira consolidada. Após o divórcio, em 2013, voltou a atuar com frequência, conseguindo papeis em Os Oito Odiados, inclusive. As personalidades de Jennifer e Noah combinam com as representadas em Charlie e Nicole, o ambiente que vivem, tudo – menos a diferença de idade que é irrelevante quando, num relacionamento, o que conta é a maturidade de cada um, e isso fica evidente no longa.

Noah Baumbach é um artista com tendências autobiográficas, suas obras são quase uma terapia para analisar seu passado e sentimentos. Conhecendo um pouco sobre esse episódio, o filme fica incrivelmente mais pessoal, honesto e verdadeiro – é quase uma lavação de roupa suja, mas muito bonita e fofa. Escrever obras tão realistas como História de um Casamento é uma das principais características do gênero Mumblecore, que ele ajudou a difundir.  Então, antes de falar do auge da carreira de Baumbach, vamos entender o que é Mumblecore – é legal, prometo.

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Mumblecore surgiu em meados de 2005 no festival South by Southwest (SXSW), no Texas (sempre quis ir). Ele é um movimento do cinema independente americano e a nomenclatura se tornou oficial durante entrevista de um dos principiantes na revista Indie Wire – muito indie real. Porém, foi em 2012, com Frances Ha (a.k.a. um dos meus filmes favoritos) que o movimento viveu seu boom e ganhou fôlego. Frances Ha foi escrito e dirigido por Noah Baumbach, e, por isso, ele se tornou uma das pessoas mais influentes do movimento. O longa é estrelado por Greta Gerwig que ficou conhecida no meio cinematográfico como a rainha do Mumblecore (e do meu coração). Os dois, hoje, são um casal e, ao que tudo aponta, o relacionamento começou quando ele ainda estava com Jennifer Jason Leigh – eu sei, bem chato.

Mumblecore é um gênero de comédia dramática (dramédia) normalmente feita por norte-americanos entre seus vinte e trinta anos. Os filmes surgem como um contraponto aos blockbusters hollywoodianos, com uma pegada faça-você-mesmo (DIY), produções independentes e que reflitam aspectos da vida cotidiana do estilo desse pessoal. Mumblecore é um estilo “classe média branca sofre” – e, apesar de toda a problematização que existe em torno da temática, seria hipocrisia dizer que não me relaciono e adoro esses filmes, assim como muitas pessoas rs.

As pessoas que aderiram a esse estilo são, em sua maioria, os millennials que cresceram amando e assistindo a vários filmes mas que, em certo ponto, cansaram dos clichês de Hollywood. Os personagens são pessoas de classe-média, brancas e “preguiçosas” (eu diria, perdidas), que estão lutando contra os obstáculos da vida cotidiana adulta como pagar boletos, e lidando com família e amigos. Esse perfil de protagonista normalmente não se leva muito a sério, assim como seus papeis na vida. São pessoas sem foco definido, e superqualificados (over-educated é difícil de se traduzir), sem muita certeza do que significa crescer/amadurecer, e nem se realmente almejam fazer isso. Os protagonistas de mumblecore se declaram “mente-aberta” (mas difícil ver histórias diversificadas com personagens negros, LGBT+ etc, ou seja, nem tanto, galera), e que assumem um tom gentilmente cínico em relação aos valores e convenções tradicionais, mas, que acabam vivendo uma vida homogenia.

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Por ter essa pegada DIY, low-profile (quase uma farialimer) e autobiográfica, os filmes do gênero mumblecore são produzidos por equipe enxutas, custando uma fração em relação aos filmes dos grandes estúdios. Eles utilizam cenários, figurinos e objetos da própria equipe e elenco, assim como elementos da história. É um gênero que se aproveita muito do improviso e da sintonia dos atores para com a história – que é viva e mutável. Isso porque o diálogo é um dos elementos mais importantes da narrativa no mumblecore – um gênero essencialmente naturalista. Por isso, percebemos conversas longas, que se interrompem, que falam com referências, e diálogos tão naturais que causam estranhamento.

Entender a história de Noah Baumbach e seu estilo e referências cinematográficas transformam a experiência de assistir a História de um Casamento. É evidente que, para entender o filme, não precisa saber dessas coisas, mas para conseguir analisa-lo e percebe-lo no circuito de premiações, é essencial. Noah Baumbach não está mais nos seus vinte e pouco, tão logo nos trinta, mas ele é um ícone do movimento e o futuro das dramédias no cinema. Ele é responsável por levar o gênero a outra patamar, e, mesmo que este seja um projeto caro, ainda está super alinhado com as características principais do MumblecoreHistória de um Casamento é um filme indie, estreou nos grandes festivais e, depois, direto na Netflix – não percorre o trajeto tradicional hollywoodiano, mas isso não significa que ele não seja maravilhoso. Significa que, apesar de grande, ainda é extremamente autentico.

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História de um Casamento é sobre amadurecimento, tanto de Charlie e Nicole, como na própria filmografia de Baumbach. O cineasta já trabalhou muito com Adam Driver, e, por isso, o ator é a escolha óbvia para interpretar praticamente o próprio diretor no longa – isso é panelinha, mas, também, afinidade artística haha. Adam Driver está em Frances Ha, Enquanto Somos Jovens (amo, assistam!) e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, ou seja, a parceria dos dois é intensa. Adam Driver, apesar de estar fazendo sua poupança em Star Wars, é um ator essencialmente nativo do mumblecore, principalmente pelo papel em Girls. Eu poderia escrever um texto exaltando Adam Driver, que, inclusive já trabalhou com diretores consagrados como Spike Lee, Martin Scorsese, Rian Johnson e Clint Eastwood, enfim, tudo.

O filme tem praticamente dois atores, e a segunda é Scarlett Johanson. Confesso que vivo um momento bode dela, mas isso não me impede de reconhecer que, finalmente, ela foi valorizada como atriz. Scarlett é uma excelente atriz que, em sua maioria, é subjulgada e posta em papeis pequenos que usufruem muito mais dos seus aspectos físicos do que artísticos. Ela é uma estrelinha indie e isso, por si só, já seria um bom motivo para ela estar no filme mainstream dos indies, mas não. Mumblecore bebe muito da fonte de Woody Allen e Mike Nichols, se configurando como a nova era da dramádia. Scarlett Johanson já protagonizou algumas obras de Allen como Match Point (bleh) e Vicky Christina Barcelona (perfeito) e Scoop (ok), além de Encontros e Desencontros e Ela, que são filmes perfeitos e que conversam muito com mumblecore.

História de um Casamento é um filme preciso, certeiro. Ele se encaixa perfeitamente na linha cinematográfica de Noah Baumbach e dos atores protagonistas. É um filme autoral, honesto, e que consolida o trio no gênero do mumblecore e marca o futuro da dramédia. A ficção autobiográfica é um estilo que deu certo dado ao grau de empatia que ele insere na audiência. História de um Casamento faz isso com maestria e não conseguimos em momento algum não nos sensibilizarmos com o divórcio, entender e xingar os dois que tomam atitudes erradas, tentando acertar. O filme retrata de forma crua o ser humano magoado, sofrendo, e a realidade de sentimentos tão palpáveis é o que dá vida a história.

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A direção é linda e valoriza os talentos que tem na tela. Laura Dern está incrível em todas as cenas que participa, ela brilha no pouco espaço. É uma história pequena, relacionável, que valoriza o cotidiano e a vida mundana. Ele não tem nada de extraordinário, e isso que o torna tão bonito. Eu garanto muitos nós na garganta e lágrimas querendo sair. A direção de Baumbach intensifica as emoções, os espaços, e dá fluidez e dinamismo para um roteiro pautado no dialogo, impedindo que o filme fique arrastado ou desinteressante. O timing de comédia dele é muito bom, e a sensação “rindo e chorando” é inevitável e uma das melhores emoções do cinema. É uma direção sensível, que complementa o roteiro e com uma paleta e estilo fotográfico todo indie, hipster de Nova York que ele é haha.

Gosto, também, como a maturidade de Noah Baumbach é refletida nas questões contemporâneas dos relacionamentos, como o feminismo se encaixa nos casais millennials, até que ponto devemos abrir mão, e o que é ser egoísta. É um dos melhores filmes de Noah Baumbach e do ano, que você pode assistir em casa, na Netflix, mil vezes – assim como muitas das recomendações desse post, que o streaming vermelhinho maravilhoso tem em seu catálogo.

História de um Casamento coleciona prêmios e indicações. Adam e Scarlett estão concorrendo como melhor atuação em filme de drama no Globo de Ouro, e Laura Dern como melhor atriz coadjuvante. No Globo de Ouro o filme ainda concorre com Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Original. Noah Baumbach concorre ao Leão de Ouro, e como melhor direção e roteiro original no Satellite Award. Já no Critics Choice Awards o filme tem indicações mil, com melhor atriz, melhor atriz coadjuvante, melhor elenco, melhor ator, melhor compositor, melhor roteiro original, melhor direção e, claro, depois de tudo, melhor filme. Ou seja, História de um Casamento, com certeza, deve dar as caras no Oscar e está ai, na sua tv de casa, disponível na Netflix – não perca um dos melhores filmes do ano!

PS: Thais, não sou cult, vou gostar? Eu acho que sim! Os filmes do Noah Baumbach não pegam tanto no que temos a ideia de ser filme cult, são divertidos e dinâmico – você vai sentir a vibe, mas eles são bem legais e democráticos. Só não vai curtir muito quem não gosta de dramédia, classe-média sofre mesmo.

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