Watchmen é a melhor série do ano?

Watchmen estreou em outubro na HBO e era um dos lançamentos mais aguardados e temidos. Baseada na icônica HQ escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, ela é tida como um dos melhores quadrinhos de todos os tempos – uma pequena pressão na série. Chegando ao final de 2019 posso, com tranquilidade, dizer que esse é um dos melhores lançamentos do ano, e uma série memorável que, talvez, já seja uma das minhas favoritas.

Ambientada em 2019, a série se passa após os acontecimentos dos quadrinhos, que datam final da década de 1980. Nela acompanhamos Angela Abar (Regina King), uma policial que, quando no trabalho, assume a identidade secreta de Sister Night. O primeiro episódio no mostra que os EUA vivem um ressurgimento da supremacia branca, com ataques violentos e um clima de tensão que molda a forma de atuação da polícia. O grupo a ser combatido é a Sétima Kavalaria (KKK wannabe), e a partir desse cenário a nova história desse universo se constrói.

Não me venha com mais uma série de super-herói … sem tempo, irmão.

Watchmen nunca obedeceu ao padrão de histórias de super-herói e não é agora que começaria a fazê-lo. A série se distancia de tudo que vimos do gênero pois, esse é o seu cerne. Nela não existem super-heróis, mas vigilantes mascarados (humanos comuns) que vão dar uma de herói, mas comentem excessos, mau-julgamentos e nem são inteiramente bons. A série é sombria, pesada, e trata pessoas com máscara como ameaça a vida civil.

Essencialmente, o que Watchmen tem se mostrado é uma fantástica narrativa sobre racismo. Sem medo de nos deixar desconfortáveis, a série toca na ferida da KKK, discute herança genética – uma linha de pesquisa que diz que pessoas descendentes de escravos e semelhantes herdam a dor e os traumas de seus antepassados, fica enraizado no subconsciente – e explora a nuance do bem e mal, o limite que alguns transpassam alegando um bem maior. O roteiro de Watchmen é muito rico, denso, bem pensado.

watchmen looking glass
Sem herói então?

O único ser com poderes é Dr. Manhattan, ele é um homem azul que pode fazer tudo, mesmo, mas, no final da HQ ele foge para Marte, então, por enquanto, sem heróis.

Watchmen dosa muito vem a ação esperada do gênero com discussões raciais atuais. A parte superficial da história transita nos justiceiros mascarados, crimes e tal, mas a série é tão mais profunda que isso que você acaba se esquecendo de que está diante de uma adaptação de quadrinho. Todos assuntos que ela procura abordar se cruzam naturalmente, e a cada episódio as camadas ficam mais espessas e as respostas nunca são suficientes.
Precisa ter lido os quadrinhos?

Sim e não. Se você não leu (como eu) pode seguir por dois caminhos:

  1. Simplesmente assistir a série (mais fácil rs). Dá, sim, para entender o que está acontecendo, acompanhar as discussões principais, se engajar na trama. Vai perder muita referência, muitas pistas, boiar nas teorias, mas nada que faça a série deixar de ter sentido. Se você é do perfil “não fico engajado com programas”, só assiste.
  2. Pesquisar tudo até parecer que você leu os quadrinhos (o que eu fiz). Já havia assistido ao filme do Zack Snyder (Watchmen) – descobri que o final dele é diferente dos quadrinhos e a série segue a publicação original, MAS os 20 primeiros minutos do filme, mais ou menos, é um SUPER resumão da trama dos minutemen, quem são, o que fazem, quem comem (ops) e o que aconteceu – assista que ajuda. Existe também esse vídeo da Carol Moreira (rainha salvadora dos nerd posers) que conta toda a HQ (spoiler né, pessoal). Chegar com essa base fará a série ficar mais complexa, mais incrível e você basicamente viver para ela. Eu também acompanho aos vídeos semanais da Mikannn e do Série Maníacos, onde eles falam sobre o episódio da semana, dos easter eggs, ajudam a interpretar e expandir o além tela. O PH Santos também faz vídeos de Watchmen semanal e ajuda a ter uma visão mais expandida da série e os caminhos que ela está indo.

watchmen dr manhattan
Menina, olha o trabalho que essa série dá, parei.

NÃO, VEM COMIGO. É evidente que tudo isso é opcional e que a série funciona muito bem sem todo esse conteúdo complementar, mas, eu garanto, no momento que a série te pegar, você vai respirar Watchmen (como eu agora). E, nada melhor do que quando estamos obcecados com uma coisa, que tenham conteúdos que nos supram durante a semana (episódios semanais). E, além desse feito por fãs, HBO perfeita rainha da transmidia fez alguns presentes para os expectadores de Watchmen:

  • Podcast (inglês) com o Craig Mazin (produtor de Chernobyl) discutindo a série com o seu criador, Damon Lindelof. Sai a cada três episódios e eles falam sobre o rumo da narrativa, easter eggs, relação com a HQ e a temática atual (racismo).
  • Podcast (português) episódio a episódios liberado pela HBO Latin-America, com cerca de 40 minutos discutindo o episódio (sim, eles são complexos e catárticos de um jeito que faz você querer falar sobre eles a semana inteira).
  • Peteypedia é um local onde concentra textos escritos pelo Petey que dizem respeito com o universo da série. Ele é um policial que trabalha para o FBI e sabe tudo sobre os minutemen (é fã hehe). Na série é mencionado que ele possui essa página e ela, de fato, existe. Ótima fonte para os babados do momento (na série).

Ninguém vai te deixar desamparado nessa jornada sem volta de devoção a Watchmen.

Um homem branco com uma máscara é um justiceiro, um homem negro usando uma máscara é perigoso.

É boa assim, então?

SIM! Lembra quando aquele seu amigo nerd dizia para você assistir Game of Thrones e você não ouviu por anos, até que cedeu e sua alma passou a habitar Westeros? Pois então. Watchmen foi criada para televisão por Damon Lindelof, que tem se mostrado mais do que um super fã dos quadrinhos, trazendo críticas sociais, narrativas complexas, atuais e que respeitem o legado do universo idealizado por Alan Moore. Lindelof já esteve à frente de projetos e roteiros como Lost, Prometheus (perdão), Star Trek Além da Escuridão (amo), Guerra Mundial Z, The Leftovers (série aclamada da HBO), entre outros. Um cara nerdão, fã de ficção cientifica e que tem aprimorado seu trabalho haha.

Enquanto escrevo este texto foram exibidos 7 episódios, faltando 2 para o final (meu coração dói). Até aqui, Lindelof não modificou nada dos quadrinhos, apenas ampliou o universo e usou brechas deixadas por Alan Moore para criar a sua história. Nela, temos muito flashbacks, Ozymandias, Laurie e colegas justiceiros aparecem ou são comentados. É brilhante a forma como Lindelof criou a história da série, conseguindo falar sobre racismo e mostrar narrativas perigosas criadas pelos próprios minutemen na época de ouro deles (anos 1930). Não fazer retcon (anular acontecimento anteriores do quadrinho/contradizer) é um trunfo do criador e um respeito ao legado dessa obra-prima.

watchmen 7 kavalaria
Mas por que ficarei tão fascinado assim por Watchmen?

A primeira cena é a reprodução do massacre de Tulsa de 1921. Conhecido como “o pior incidente de violência racial dos Estados Unidos”, a cidade do estado de Oklahoma foi palco de um genocídio tenebroso e que, sim, aconteceu mesmo. Essa cena mexe muito, e, aos poucos, ela vai se conectando com Angela, no ano de 2019. Já começa a série com forte emoções e sem pudor algum.

A forma como isso, e várias outras conexões e revelações bombásticas vão se apresentando para nós é de uma frieza ímpar. A série não se apoia num mistério fraco que se arrasta para ser resolvido, todo episódio ela nos joga revelações como se não fossem nada, não nos dando tempo de ficar impactados por que, no fundo, aquilo se mostra um detalhe de um problema maior. Identidade são desmascaradas sem alarde ou espetáculo, pois ela pressupõe maturidade da audiência, e não subestima a sua capacidade de traçar as conexões. Às vezes ela pode ser um pouco explicativa demais, mas é para alinhar todos expectadores para a próxima avalanche de emoções e loucura.

Outro ponto muito intrigante é o roteiro extremamente preciso. Watchmen não oferece alívio para o expectador, todo dialogo importa, toda manchete de canto de jornal importa, nada está na tela por acaso. As sacadas que o roteirista usou para fazer os flashbacks e desenvolver os personagens são geniais. É um truque de roteiro, mas não é óbvio, não é batido. A série é criativa, adota saídas criativas e uma narrativa que tenta fugir do previsível. Para o expectador menos atento e imerso na série (por meio dos mil conteúdos extras), as surpresas dos plots são insanas – mas muito bem plantadas, pois quem está atento a tudo consegue perceber o bicho vindo, e cria as teorias mais empolgadas.

watchmen sistes night

O episódio 6, meus leitores, eu não estava pronta. Watchmen é uma linha crescente, e quando você acredita que não tem como o próximo episódio ser melhor, ele simplesmente é (o que me preocupa para a segunda temporada, mas vamos viver o momento). O tal episódio seis é de uma cinematografia que, sinceramente, deixa muito filme de hollywood parecendo TCC. Watchmen é maravilhoso pelas camadas que constrói não só no nível do roteiro, mas visual também. É de uma delicadeza e potencial que eu aposto, um ano antes, que vai levar um Emmy. A série é muito caprichada, e amantes da sétima arte, Watchmen é um deleite visual, com preciosismo na montagem, na fotografia que está em falta no próprio cinema.

Quem é fã de séries da HBO está moscando em não assistir Watchmen. A produção se iguala aos gigantes Game of Thrones e Westworld, trazendo discussões importantes e amarrando nosso coração ao desespero. Regina King, outra futura ganhadora do Emmy pela obra, é uma deusa que devemos valorizar todos os dias, assim como todo o elenco, com destaque para Jeremy Irons, que, nossa, segura o núcleo sozinho. Quanto mais eu penso sobre a série, mais eu gosto dela. É daqueles casos que, ao re-assistir, descobre coisas novas, detalhes que passaram despercebidos – eu estou só esperando acabar para maratonar de uma vez. O tom de Watchmen é tão preciso que ele consegue passar o absurdo dos supremacistas brancos com deboche e real preocupação com o rumo que o mundo está tomando, a série é de um cinismo inteligente e sagaz que o entretenimento carecia – assim como a coragem em tomar certas narrativas.

Em tempo, é importante ressaltar alguns detalhes sobre o universo de Watchmen: Ele é uma realidade alternativa a nossa, na qual os Estados Unidos venceram a guerra do Vietnã e este passou a ser um estado norte-americano (discute colonialismo, aaa). Eles venceram a guerra graças ao Dr. Manhattan, o ser mega poderoso que foi criado por meio de um acidente de laboratório. Nessa realidade alternativa, a relação com a tecnologia é diferente, algumas coisas tomaram outro rumo. A cidade de Nova York foi atacada por uma lula gigante que veio de outra dimensão, acontece um atentado psíquico, e milhares de pessoas morrem – quem provocou isso foi Ozymandias, em segredo, pois acreditava que assim acabaria com a guerra fria. O sistema presidencial e tudo é diferente, mas eles explicam um pouco na série. E tudo isso se relaciona a temática racista. Como alguém pode não querer ver uma coisa dessas?

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