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Americanah é o olhar nigeriano sob a emigração para o sonhado (ou não) Estados Unidos

Chimamanda Adichie apresenta os Estados Unidos sob olhar de imigrante nigeriana. Um livro que aborda raça, origem e o amor de forma carinhosa e determinada, uma narrativa fluida entre romance e crítica social.

O quão diverso é o seu consumo literário? Por ler mais livros ou quadrinhos escritos por mulheres, sempre me vi como alguém que diversifica as narrativas. Gosto de histórias plurais, que me tirem da bolha, mostrem uma realidade que não é a minha – ler é conhecer outras culturas, outros backgrounds, outras interpretações do mundo, e estou sempre em busca disso. Mas, quando olhei para o meu consumo literário, notei que a diversidade era incompleta, me faltava narrativas de pessoas negras. Eu sempre quis ler alguma obra da Chamamanda Adichie, e, ao pegar Americanah nas mãos eu percebi que precisava dessa história.

A autora nigeriana ficou famosa no Brasil pelo seu discurso no Ted Talks Sejamos Todos Feministas, traduzido para um livro publicado pela Companhia das Letras. Ele veio junto com o boom do feminismo nessa década, aproximando o movimento e até introduzindo para as pessoas que, como ela mesmo se refere na palestra, encaravam a palavra feminista com um sentido pejorativo. Eu me incluo nessa leva de pessoas que conheceram, aderiram e estudam o movimento a partir das decididas e divertidas palavras de Chimamanda. Porém, me faltava o contato com Adichie escritora, além da estudiosa e ativista, e a primeira obra que li, Americanah, já é uma das mais lindas da vida, me transformou para sempre.

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Nela vamos acompanhar Ifemelu que, após poucos mais de dez anos morando nos Estados Unidos, decide que chegou a hora de retornar para a Nigéria. Enquanto tranças seus cabelos no salão quente sem ar condicionado e se prepara para o retorno definitivo, conhecemos o passado da protagonista, sua história de amor com Obinze e como ela saiu de Lagos e foi parar nos EUA. O livro é mais do que um romance, é a história daqueles que resolvem emigrar com a promessa de uma vida melhor. A história se passa na Nigéria, nos EUA e em Londres, onde Obinze vive por um período, e ao mesmo tempo que difere muito do tipo de literatura que estava habituada, se assemelha com a realidade que vemos no Brasil.

O primeiro ponto dessa experiência foi o contato com a Nigéria. No auge da visão estereotipada, rasa e preconceituosa, o livro apresentou para mim uma realidade africana que desconhecia completamente. Pelos olhos de Ifemelu e Obinze, conheci Lagos e seus habitantes, que viveram um período transitório no país entre a ditadura militar e a democracia corrupta. Essa é uma realidade muito parecida com a nossa brasileira, e página a página, eu conhecia as sutilezas e mentalidades de um povo que nunca tinha ouvido a voz.

A minha diversidade estava condicionada ao eixo EUA – Reino Unido, ou seja, uma narrativa eurocêntrica, branca, uniforme. Me faltava a noção das histórias negras e, mais do que isso, daquelas longe desses países, da pluralidade de experiências, e foi isso que encontrei em Americanah. As tramas de personagens que enxergam o estrangeiro como a única saída para melhorar, que tudo lá é superior, sempre tem um conhecido que mora fora etc nunca me apareceu em livros de forma tão sociológica quanto na narrativa de Adichie. E essa é uma realidade latente, também, no Brasil. Nosso país tem mais paralelismo com a África do que com as histórias norte-americanas que massivamente consumimos.

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Perceber o quanto somos semelhantes me foi um choque, e um tapa na cara merecido. Americanah não tem papas nas línguas, diz o que precisa ser dito, mas de forma orgânica e sem momento palestrinha. O olhar de Chimamanda me despertou para problemas e dilemas internos, me extraiu do entorpecimento da cultura norte-americana e me fez enxergar a minha, e conhecer a dela. Ifemelu é divertida e afiada, a maneira como sabe ponderar o que gosta em cada local e como debocha tanto da sua cultura quanto dos americanos dão leveza e noção de realidade e aproximação da história. Consegui me identificar com ela, sentir empatia, entender seus anseios e apreensões.

Além do soco no estomago da realidade que somos frutos de uma cultura baseada na exploração colonial, glamourizamos as elites, temos um caráter servil e síndrome de vira-lata, Adichie me apresentou o universo da negritude. Durante o livro me deparei com nuances que vão além do tom da pele e mexem com a origem e a noção de identidade desses povos. O medo de Ifemelu em perder o seu sotaque nigeriano, a mudança de gostos estéticos dada a vivência nos EUA, o novo olhar sob a sua cultura com o retorno a Nigéria, e a diferenças entre ela e o namorado afro-americano. Esses detalhes enriquecem demais a trama que, não foca apenas em contar uma história de amor e retorno para a casa, mas em dar visibilidade a realidade das pessoas que emigram, nas mudanças e choques culturais. E isso na voz de alguém com propriedade para falar sobre.

Eu não sabia o quanto precisava desse ponto de vista e como estava afogada em narrativas uniformes. Quando digo isso não quero dizer que saí da minha zona de conforto pois, Americanah é, surpreendentemente, um dos livros que adoro ler: aventura jovem-adulta com um romance fofo que faz revirar as tripas. O que Chimamanda me apresentou foi o passo além na literatura que tanto consumo – o gênero e estilo do livro não limitam seu potencial de ser profundo, sociológico, crítico e divertido. Americanah foi, para mim, um amadurecimento e emancipação literária, um novo caminho dentro dos meus amados YA.

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Quando está nos EUA, Ifemelu cria um blog no qual compartilha suas impressões como uma negra não americana no país. Mais para o final da leitura temos a oportunidade de ler alguns dos posts que publica e são simplesmente incríveis e enriquecedores. O blog da personagem cresce, ela ganha dinheiro com ele e dá palestras sobre o tema pelo país e, por ser blogueira engajada, eu me identifiquei demais. O The Geek Drama não tem uma missão social tão contundente quanto o blog de Ifemelu (ele existe e é incrível), mas parte de princípios semelhantes e, o principal, me permitiu reconectar com esse espaço e entender porque insisto no formato. Apesar do livro ser de 2013 e, quando escrito, os blogs ainda eram um lance (hoje estão mais low profile) eu ainda acredito nesse espaço, no anseio do que compartilho. Ifemelu compartilhava suas experiências, e, como nesse post, eu compartilho as minhas, com aprendizados e críticas.

Americanah não é perfeito e as 500 páginas são um pouco de exagero. Me imergi e envolvi com a história, mas não posso deixar de considerar a barriga que ele tem. As digressões do narrador com o passado e a súbita retomada do presente no salão são confusas, passamos capítulos conhecendo a adolescência de Ifemelu para, de repente, ela estar de volta ao presente trançando os cabelos. Além desses detalhes implicantes, a leitura é fácil, fluída e nada rebuscada, descritiva ou cheia de firulas como imaginava. A escrita de Chimamanda é poética, bonita e engraçada, e me peguei admirando as metáforas criadas e a fluidez como ela transita entre o cotidiano banal e uma crítica bem pensada.

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De forma inesperada, essa leitura me permitiu reconectar comigo e com minhas origens. Chimamanda Adichie me apresentou uma Nigéria que desconhecia, e entre muitas visitas ao Google Imagens, pude ver de verdade Lagos e ter uma pincelada de como é o continente do outro lado do atlântico. Americanah evidenciou um déficit que eu tinha, me abriu os olhos para uma diversidade ainda maior e me ensinou sobre negritude sob um olhar que não havia tido contato. O livro não tem medo de ser político, não consegui esconder os arrepios quando falavam sobre Obama, e nem conter a ansiedade com a história dramática de Ifemelu na América. Quando uma leitura teletransporta a gente acredito que cumpriu sua missão, mas quando essa viagem nos transforma e educada, ela fica guardada para sempre no coração e na mente. Conhecer Adichie como escritora me fez admirá-la ainda mais, e, claro, querer consumir vorazmente suas outras obras. Um livro consciente, que busca um olhar holístico na questão racial e feminina e que, com certeza, merece cada segundo dedicado a ele, leiam!

PS: Os direitos de adaptação estão com Lupita Nyong’oDanai Gurira (aaaa) e será uma minissérie da HBO MAX com 10 episódios. Lupita viverá Ifemelu e Danai é roteirista e showrunner. O último update desse projeto que já considero tudo está aqui (em inglês).

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