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Onde Vivem os Monstro é a infância indie e Freudiana

Clássico infanto-juvenil, Onde Vivem os Monstros ganhou as telas em 2009 por Spike Jonze. O diretor traz sua estética e autoria para uma história infantil linda, mas será que ela se comunica com o público?

As histórias infantis mais cativantes são aquelas que conversam com qualquer idade. Onde Vivem os Monstros é um filme meio indie, muito diferente do que esperamos das fórmulas do gênero, tanto na construção narrativa quanto na maneira como é filmado. Dirigido por Spike Jonze e adaptado do livro homônimo de Maurice Sendak, o clássico infanto-juvenil de 1963 é repleto de discussões profundas pertinentes a infância.

Max (Max Records) é uma criança de cerca de 10 anos e hiperativa, vive com sua fantasia/pijama de animal correndo e gritando pela casa. No inverno, ele constrói um “iglu” e clama para sua irmã mais velha e adolescente ir brincar com ele, mas ela não vai, claro. Na tentativa de fugir da sua própria imaginação, ele puxa uma guerra de bola de neve com os amigos da irmã, que resulta na destruição do seu iglu. Ao decorrer de episódios como esse vemos que Max é uma criança difícil e extremamente carente de atenção, mas tem seus momentos doces no meio de tanto surtos. Porém, quando a mãe (Catherine Keener) leva o novo namorado (Mark Ruffalo – 30 segundos de tela) para a casa, o menino dá um piti, briga com a matriarca e foge, indo parar numa ilha habitada por monstros (fofíssimos e violentos, como ele). Vivendo com eles, Max coloca em perspectiva a sua realidade e atitudes.

Logo nos primeiros dez minutos de filme já somos confrontados com o ciúme de Max em relação às mulheres de sua vida. Sem a figura paterna em casa, o menino claramente tem dificuldade em dividir a atenção da irmã e da mãe, principalmente com as figuras masculinas: ele sempre reage de forma muito agressiva e espera que as mulheres venham consolá-lo, o que não acontece. É nessa idade que a criança aprende que a vida das outras pessoas vai além delas, principalmente os meninos, e como Max não teve esse referencial paterno, ele encara todos os homens como seus rivais. Muito desse conceito inicial vem de Freud, conhecido como Complexo de Édipo.

Calma, eu não vou fazer uma mega psicanalise do filme – mesmo porque quem sou eu né? Porém queria apresentar esse viés cheio de teoria psicológicas que, podem ou não, terem sido propositalmente pensadas na execução do filme (e do livro, visto que na década de 1960 a psicologia e suas vertentes estavam em alta). Muitos desses conceitos a gente percebe, talvez não conseguimos explicar com palavras e racionalmente com termos e teorias, mas, durante a história, sentimos as coisas.

Max é um protagonista chato, daquelas crianças que a gente quer distância. Porém, quando chega na ilha dos monstros, ele prova do próprio veneno, digamos. A primeira cena que vê é Carol, um monstro enfurecido destruindo tudo que vê pela frente, e a quem Max rapidamente se junta no impulso de fúria. Conhecendo Carol vemos que ele representa as emoções agressivas de Max, ele é ciumento, tem uma dificuldade imensa em lidar com frustrações de qualquer natureza e é bem carente, um monstro que demanda muito – como a criança.

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Assim como Carol, os outros monstros também representam emoções de Max e evidenciam para ele os traços da sua personalidade, ajudando ao menino entender seu mundo interior e amadurecer. Logo que chega a ilha e é intimidado pelos seus habitantes, Max se proclama rei, alguém muito poderosos de outras terras. Esse é outro aspecto da sua personalidade e comum no desenvolvimento da criança: narcisismo. É nesse momento que o ID (teoria do Freud) controla o garoto e ele assume a identidade que acredita ter no mundo e, também, quando toda essa construção começa a ruir dentro dele, e perceber que, na real, ele é apenas um garoto comum.

A minha monstrinha preferida foi KW, talvez por ser justamente a única que expressa sentimentos exteriores a Max, o materno, e aquela mais responsável por incutir no menino novas perspectivas.

Os monstros são muito fofos, enormes e toscos – às vezes parece uma coisa Vila Sésamo encontra o CGI. Jonze parece abraçar isso pois, segundo as ilustrações do livro feito pelo próprio Sendak, essa era a ideia. A fotografia sépia dá a vibe indie (não é, mega produções Warner Bros) e fantasiosa da trama, e os movimentos de câmera são muito típicas do diretor – fãs de Jonze, o filme tem muito a carinha dele.

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Mas, verdade seja dita: na adaptação do roteiro feita, também, por Spike Jonze, a mão da exposição pesa. Lembra quando disse que os aspectos psicológicos ficam bem evidentes e não precisa conhecer a teoria para entender? Então, às vezes rola um excesso de explicação, o roteiro perde a sutileza e, consequentemente, um pouco da magia de mergulhar e interpretar aquilo sozinho. Não posso falar em termos de adaptação já que não li o livro (mas já adianto que está gritando urgência na wishlist), mas, pelo que vi, realmente acontece de Jonze destrinchar muito o texto sutil e poético da obra. Existem muito elementos para passar a mesma coisa, sobrecarrega.

Parte desse problema esbarra, também, na exigência do estúdio em Jonze focar no público a que a obra se destina, infantil. Isso cria dois problemas: não conversa exatamente com as crianças, mas fica muito explícito para adultos. A atmosfera indie, apesar de combinar demais, afasta os mini expectadores, junto com a trilha sonora excelente de Karen O (Yeah Yeah Yeahs <3) mais agressiva e adulta. A história é infantil, mas o filme que Jonze fez não é, e na tentativa de remendar acabou não funcionando para o público definido.

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Eu adorei todos os aspectos técnicos, a direção, fotografia, trilha sonora, efeitos especiais … mas é fato que eles criam uma atmosfera indie que não atinge as grandes massas. Muito da mensagem linda e forte que a história quer passar pode ser perdida pelas crianças que se distraem, se assustam, e não entendem toda a psicologia que ele quis trazer. A arte de fazer dois filmes em um – para adultos e crianças – é difícil, sutil e um trunfo que explica o sucesso de filmes da Pixar como Divertidamente e Coco.

Onde Vivem os Monstros é, talvez, um dos meus filmes preferidos do ano – eu realmente me apaixonei por cada detalhezinho dele, mas eu não recomendaria para todo mundo. É cult, apesar do selo Warner (as letrinhas iniciais são todas estilizadas, muito amorzinho) e a história é lenta, ela respeita a jornada do herói e os clímax normais, só que num ritmo e grau de acontecimentos mais estáveis. É estranho falar que amei e lotar de ressalvas, mas se você tem um gosto parecido com o meu, a paixão é garantida! Delicado e macabrozinho na medida certa, acredito que é perfeito para as crianças adultas e hipsters que querem, de alguma forma, se conectar com a infância de uma maneira diferente e além dos clássicos.

Afinal, existe um monstro em cada um de nós, não é mesmo? É melhor encarar isso o quanto antes.

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