Meistre Vibes

Horror, nos apaixonamos

Crônica sobre a minha relação com o gênero de horror. Do medo surreal na infância, até o recente gosto pelo macabro. Halloween chegou no The Geek Drama!

Medrosa, via em cada formato um monstro, alguém me espreitando. Porém, as distorções do quarto por causa da pouca luz ainda eram melhores que a escuridão.

Quando sem sono, odiava fechar os olhos para adormecer, e odiava mais ainda a inquietação que me fazia abri-los. Vai que tem alguém me encarando? Ou eu acordo em outro lugar?

Sempre fui uma pessoa do dia, da luz. Gosto dos raios de sol iluminando meu quarto, meu caderno, minhas fotos. Do calor aconchegante e do brilho das cores vibrantes e saturadas. Nas maiores aventuras, quero saber qual é o meu caminho, preciso dos neons iluminando o trajeto. O meu medo mora na casa do desconhecido.

Nas montanhas-russas, meus olhos estão abertos, selvagens. Prefiro deixar o pânico inundar a minha alma, a não saber quando se dera a próxima queda. Na minha cama, à noite, eu quero saber quem entra no meu quarto. O abajur fica aceso. Os ouvidos atentos. E a posição, claro, fetal. Eu sempre soube, dentro de mim, que a noite é escura e cheia de horrores.

Até que, de repente, não era mais. O horror virou magia.

O desconhecido se tornou meu refúgio. Fiquei amiga da escuridão no instante em que a deixei entrar. Ela se libertou, aos poucos, das grades dos meus pesadelos, e me apresentou novos tons, sombrios. Então percebi que as cores e brilhos que tanto gostava não eram meus, eram dos outros. Antes da escuridão, eu era reflexo, mas agora, absorvi azul, rosa, verde, amarelo, lilás, vermelho, me tornei eu, me colori.

Se hoje tudo posso pintar com minhas cores, é porque deixei o obscuro abrir minha paleta de tons. Talvez, o que mais me assustava naquela época era reconhecer a mim dentro de cada monstro. Vejo, agora, que o encanto está em nos vestirmos de nós e aceitarmos os tons que carregamos no coração – o meu não é totalmente puro, é uma mistura de vermelho vivo e vinho, mas é uma combinação própria.

A minha amizade com o terror aconteceu como as melhores amizades acontecem: sem a gente perceber. Éramos estranhos, trocávamos olhares, vezes amistosos, vezes implicantes, até que começamos a nos cumprimentar e, de repente, estávamos trocando segredos e dançando juntos. O estranho, tal do desconhecido, se tornou uma companhia agradável e divertida.

Precisávamos desarmar nossas defesas e mostrar o melhor que tínhamos a oferecer. Ele tentou primeiro, quando me mostrou “O Orfanato”, mas eu tinha apenas 13 anos e uma coragem que cabia num post-it. O resultado do nosso primeiro encontro foi catastrófico. No próximo, ele levou “O Grito” de pirraça, já me conhecia e tinha certeza que aquilo me arrancaria preciosas noite de sono. Acertou. Cortei relações.

Passamos anos sem nos encontrarmos, evitando um ao outro. Acenávamos com a cabeça em eventos oferecidos por Tim Burton, no qual nós dois ficávamos à vontade, mas longe. Eu via em seus olhos que me chamava, tentando achar dentro de si algo em comum comigo. Porém, nossos encontros eram sempre forçados, com várias pessoas nos arrastando para o cinema, escancarando o pior de nós dois: seus filmes ruins, meus chiliques recheados de pânico.

Quando sozinhos, nos entendíamos, flertávamos. Você me mostrou as bruxas, mulheres incríveis subjugadas pela sociedade, perseguidas por quebrarem padrões e expectativas do patriarcado – me revelou feminista. Aos poucos nos conhecemos, você se abrindo para mim, um mundo além de possessões gráficas e gratuitas.

Ainda acho que estamos nos apaixonando, eufóricos com as possibilidades inexploradas do nosso relacionamento. Tenho muitas coisas sobre o horror para conhecer e, quanto mais o conheço, mais o admiro. Assim, decidi o deixar entrar de vez. O amor ao desconhecido dominando meu mês de outubro, enfeitiçando a primavera de outono, possuindo os livros e filmes que, e com devoção, dedico a ele.

Meu medo é metamorfo, agora se transformou em outra coisa. Hoje, quando abro o armário, quem se apresenta para mim sou eu mesma, numa versão futura, fracassada e amarga, não mais um capiroto ou seus representantes. Por enquanto, ainda congelo, não consigo enxerga-lo de forma ridícula. Gostaria de fazer as pazes com meu futuro, como fiz com a escuridão. Acho que ainda precisamos nos conhecer melhor.

1 comentário em “Horror, nos apaixonamos

  1. Pingback: Criaturas Estranhas – Reagindo ao livro de LORE, o podcast de terror! – The Geek Drama

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