Minha carta a Michelle Obama – Mulher inspiradora, engajada e capricorniana

Querida Michelle Obama,

Meu nome é Thais, escrevo do Brasil e fico feliz em começar essa carta dizendo que sua influência chegou até aqui. Sempre fui sua fã, assim como de toda sua família. Compartilhei a vitória de vocês nas eleições como um combustível de esperança, e me desolei com a descontinuidade brutal de um legado maravilhoso de oito anos. Mesmo longe, a liderança de vocês me formou politicamente e ajudou a enxergar que tipo de governo e economia eu acredito. Porém, nessa jornada, muita coisa eu não sabia colocar em palavras, eu via, sentia, só não conseguia externar. Sua biografia me ajudou a organizar tudo dentro de mim, e me deu uma mulher incrível a quem admirar.

O meu espanto maior durante a leitura foi com nossas semelhanças, e não diferenças. Ao me deparar com sua trajetória, não pude deixar de enxergar minha própria mãe em cada fase da sua vida. Nascidas quase no mesmo ano e ambas capricornianas, pelas suas palavras eu me conectei com minha mãe na forma de pensar e encarar o mundo. Também consegui enxergar os diferentes privilégios de cada uma, e perceber como sua complexidade vai além do que olhos veem, não é uma hierarquia e, muito menos, preto no branco – universo dos privilégios vai desde a cor da pele até possuir uma família estruturada. Sua história me ajudou a perceber a pluralidade das demais.

Por isso gostaria de enumerar as cinco principais lições que aprendi com seu livro:

  1. “Os jovens dão mais de si quando sentem que recebem mais”

Em tempos sombrios e de desesperança, ser jovem é lidar todos os dias com expectativas exacerbadas e uma realidade cada vez mais dura e competitiva. Crescer em cenários tão hostis é difícil, especialmente se você não possuir uma família que incentive, acolha e valorize você. O carinho e a fé que você demonstra para com a juventude é inspirador e necessário, pois eles são o futuro e, atualmente, esse futuro é quase natimorto. Enxergar em cada jovem a suas potencialidades é o maior presente que você pode dar para ele, e usar mentorias, autoconhecimento e incentivo à educação é o caminho para recuperar a esperança no amanhã. A depressão é uma epidemia nessa geração, fruto de uma educação que não olha para a humanidade da pessoa, que foca numa produtividade inatingível e qualidades demais e específicas, destruindo o psicológico. Quando você acredita de verdade nele, mostra o caminho e as possibilidades para aqueles que não tem isso em casa ou por qualquer motivo, você está amadurecendo as emoções dessa pessoa, criando um ser humano mais confiante, engajado e otimista. Mais assistência, compreensão e suporte e menos metas predefinidas e impessoais.

  1. Sucesso é muito relativo

Talvez essa seja a lição da década, mas você me mostrou na prática o que é estar em sintonia com sua essência. Seguindo o passo-a-passo da lista de realizações para ser bem-sucedida, você se formou com louvor em duas faculdades de elite e ingressou num dos maiores escritórios de advocacia de Chicago. Muitos diriam que você chegou lá, com uma carreira e um futuro estável e confortável, mas lá não era onde você queria estar. Ser boa em algo não faz com que você goste de exercer aquilo, e nem com que você assine um compromisso vitalício em seguir aquele caminho. Os caminhos são plurais e o que nos guia por eles é o tal propósito, não o salário ou a noção alheia de sucesso. A sua criatividade e determinação ao reconfigurar suas coordenadas me inspiraram e mostraram como estar em sintonia com o que amamos nos faz brilhar, exalta o melhor que temos a oferecer. A motivação vem dessa crença de estar fazendo aquilo que acredita.

  1. Uma relação é feita de amizade e admiração mútua

Você e Barack são mais que um casal, são uma dupla, um time! Ler sobre a história de vocês e o impacto que um tem sobre o outro é uma lição sobre como relacionamentos amorosos devem funcionar (e todos os outros tipos de relacionamentos também). Barack desperta o melhor em você, conseguimos ver claramente em cada passagem que escreve, assim como a inesgotável admiração que tem por ele. Vocês são cúmplices e nunca anulam ou ofuscam um ao outro, mas despertam, iluminam as qualidades de cada um. Barack sempre te apoiou nas decisões mais ousadas e, essas mudanças só ocorreram porque ele foi canal para seu próprio autoconhecimento, te apresentando um novo ponto de vista. Relações que agregam são permeadas de somas, de abundâncias. Assim como você foi responsável pela trajetória de Barack, sempre incentivando a perseguir o propósito dele, mesmo que isso esbarrasse nos seus planos. O casamento de vocês é uma verdadeira história de amor, não aquele romance hollywoodiano, mas o romance da vida real, feito de sacrifícios, compreensão, acordos, sonhos, suporte. Tudo isso é o amor verdadeiro, não é egoísta, é generoso.

  1. Ocupe os lugares

Como primeira mulher negra a ser primeira-dama, os scripts anteriores não eram de muita utilidade. Você e Barack fizeram história em agregar um pouco de cor e diversidade dentro da Casa (tão) Branca, e levaram isso com vocês pelos oito anos em que nela residiram. Você deixou um trabalho incrível para trás, assim como a cidade em que nasceu e que amava para seguir Barack, mas não podia deixar quem é em Chicago também. Você sempre fez questão de ocupar todos os lugares com propósito, e sei que nem sempre foi fácil. Os Estados Unidos ainda são racistas, assim como Brasil, e conseguem ainda serem bem misóginos, mas, ao chegar numa posição de visibilidade, você e Barack focaram em levantar os demais, e não virar as costas. Suas iniciativas são inspiradoras pois, não apenas mostram consciência de seus privilégios, mas buscam, também, usá-los em prol de mudar algumas coisas. Você assumiu a posição de mulher negra, fez discursos, programas de mentoria, participações em eventos, buscando levar a luz uma parcela da população oprimida e marginalizada. Você usou todas as ferramentas ao seu dispor para elevar as pessoas e conscientizá-las, todos detalhes calculados, pois sabia que não podia errar. Você ocupou a Casa Branca com a Horta e seu legado, ocupou faculdades de elite, ocupou, inclusive, o Carpool Karaoke – fazendo o melhor marketing de conteúdo EVER. Você sempre manteve a razão, o discernimento e a luta por igualdade na frente, e quero todos os dias me espelhar nisso. Me lembrar de você e sua família na marcha em Selma, e da casa branca comemorando o casamento LGBT+.

  1. Será que sou boa o suficiente? Sim, você é!

Seja pela falta de privilégios, preconceitos sociais e estereótipos, somos sempre confrontados com essa pergunta. Ela pode vir de diversas formas, desde nossas próprias inseguranças como aquelas ocultadas em frases como “não acho que lá seja seu lugar”. Olhando para a mulher extraordinária que você é, e vendo como essa perguntar a persegue como um fantasma, eu vejo que ela pode ser combustível. Você sempre soube do seu valor, sempre soube que precisaria fazer o dobro para ser reconhecida pela metade do homem branco médio, mas isso nunca a freou por um instante sequer. Você ocupou espaços inimagináveis, superou obstáculos e dificuldades pessoais. Provou para você mesma, a única pessoa que realmente importa, que poderia chegar a onde quisesse. E esse exemplo abriu portas para que as minorias, pessoas cuja autoestima é roubada todos os dias, pudessem dizer sim para elas mesmas, se permitirem sonhar e realizar o que quer que fosse.

Michelle, sua história me encheu de inspiração e esperança. A cada página me sentia mais conectada com você, comigo e com a comunidade. Quero que essas lições e inúmeras outras que aprendi com você permaneçam comigo e sejam faísca para propagar as mudanças que sonhamos juntas. Eu acredito na igualdade, na vida com dignidade, ética e compaixão, e você me mostrou a diferença que podemos fazer levando nossos valores para o mundo.

Gostaria de estarmos em um cenário que eu não entendesse com tanto afinco o seu desespero diante de uma direita extremista que valida preconceitos, opressões, e desigualdade, mas, apesar de distantes, nossas realidades se refletem. E eu também não sei como nos encontramos em tal posição. Mas se levo uma lição do conflito que permeia sua rotina, é que devemos ser otimistas, acreditar no melhor das pessoas e não nos entregarmos a desesperança.

A lição bônus que gostaria de acrescentar e que, talvez, tenha mais mexido comigo é o valor da cultura. Você sabe a importância de estar envolvida em um ambiente cultural, e enfatiza sempre a influência que isso tem na trajetória de qualquer um. Cercada por canções de Stevie Wonder, ou afogada nos livros de filosofia de Barack, um ambiente cultural nos liberta, agrega para a percepção da realidade e expressão e você enxerga o valor disso. A arte fala, a arte é simbólica, a arte é universal, e você faz questão de levá-la a todos, usando a voz inerte dela para falar de representatividade e respeito.

“O tempo é um presente que se dá aos outros” e eu agradeço muito por ter me dado o seu, compartilhando suas memórias – e suas frases tão bonitas e fortes ao decorrer das 440 páginas. Obrigada por me ajudar a entender muita coisa aqui dentro de mim, por ser essa mulher generosa que engaja a luta de todo mundo por uma sociedade mais igualitária, saudável e carinhosa. Obrigada pela oportunidade de entender melhor minha mãe, uma capricornia que em muito pensa como você, até nos aspectos advocatícios que compartilham. Obrigada por inspirar milhares de mulheres ao redor do mundo mostrando que você não precisa abrir mão da sua identidade e carreira pelo parceiro romântico ou pela maternidade, é possível conciliar tudo. Obrigada por acreditar tanto nos jovens, em especial, em nós, mulheres!

 

Com amor,

Thais Teixeira

 

PS (não para Michelle, mas para você mesmo): Em inglês, o título é “Becoming” e eu achei tão mais PAH, forte e representativo para o que é o livro e a sua linguagem. Minha História não é errado, mas é só genérico e impessoal. Drama, pessoal, olha o blog que você está haha.

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