Um final de semana nos anos 70 com serial killers … quê?

Passei o final de semana inteiro envolvida com histórias de serial killers. Sem qualquer comprometimento com o estudo de criminologia, dei por mim que minhas companhias foram macabras, mas divertidas, na medida do possível. Inevitável, no entanto, quando se tem duas aguardadas obras chegando juntas: a segunda temporada da excelente MindHunter e; Era Uma vez em … Hollywood!

Sim, eu já maratonei Mindhunter e havia quase me esquecido o tanto que essa série é genuinamente boa. Com a produção e direção de alguns episódios, David Fincher é o cara quando se quer criar histórias de assassinos com o tom de suspense e tensão. A série é o único resultado possível com o amadurecimento adquirido por ele com Zodíaco, Garota Exemplar, Millenium, Seven … O currículo de Fincher é extenso.

(Momento aleatório: ele é um renomado diretor de vídeo clipes icônicos e tem vários trabalhos com Madonna, que fez aniversário no último dia 16, parabéns a rainha!)

mindhunter 2 temporada critica

Voltando ao tópico serial killers, a série parte exatamente de onde nos deixou há longínquos dois anos, e introduz novos reconhecidos assassinos ao público – enquanto lidamos, também, com problemas pessoais dos nossos protagonistas e políticas. O que eu gosto na abordagem é todo esse estudo psicológico, e como isso é posto à prova nessa temporada, com novas teorias, entrevistas e categorizações. É uma série bem macabra e nerd pois, ela é densa, muito informativa, cheia de diálogos longos e técnicos, mas que consegue manter o público atento do começo ao fim – magia do Fincher.

É engraçado como, nesse sentido, a própria série “brinca” com esse fascínio que temos por assassinatos violentos, e esse sentimento misto de repulsa, horror e interesse, curiosidade. Quando Bill (Holt McCallany) e Holden (Jonathan Groff) contam o que fazem para as pessoas, a reação comum é elas ficarem intrigadas e fazerem várias perguntas, e a figura de Nancy (Stacey Roca) ilustra a perversidade desse interesse, como é esquisito. Eu sou a total a pessoa que pergunta e vai atrás dessas histórias terríveis. O que me fez criar certa expectativa com Charles Manson, e me faz sentir levemente estranha.

Já havia sido anunciado que ele iria aparecer nessa temporada, e logo no primeiro episódio nos deparamos com a vontade de Holden entrevista-lo. Esse momento chega e, é, apesar de ser apenas UMA CENA, ela é uma das melhores de todos os nove episódios. Ela funciona em várias camadas pois Manson, fictício, vivido por Damon Herriman, consegue nos cativar como, eu imagino, o verdadeiro fazia. O ator é impecável no papel, e o texto que colocam em sua boca mexeu comigo. A ideias que Manson apresenta, no começo, me fez revirar os olhos, e, ao final, eu estava repensando minhas próprias crenças. Além disso, narrativamente, o encontro do autor do livro Helter Skelter funciona para o desenvolvimento de Bill, e o conflito que o personagem vive nos deixa angustiados. É pesado, e isso faz ser muito bom.

era uma vez em hollywood familia manson

O que me leva a outra abordagem de Charles Manson, em Era Uma Vez em Hollywood. O filme, que gira em torno do crime cometido pelo serial killer que nunca matou ninguém, é a nona obra de Quentin Tarantino e tem um elenco de ouro. Um dos meus diretores favoritos, contou uma das histórias que mais tem minha atenção, mas que, no fim da sessão, não me despertou o sentimento esperado. O filme é excelente, não consigo enxergar um defeito, mas sabe quando tudo é perfeitinho demais que falta a emoção, o tcham? Então, foi isso.

Tanto Mindhunter quanto Era Uma Vez em Hollywood exigem uma lição de casa: conhecer o tal Charler Manson (aqui tem um resumão excelente da figura). E nesse ponto em que essas duas obras se cruzaram, fica evidente as diferentes formas de contar uma mesma história, de se enxergar e interpretar determinados acontecimentos. Damon Herriman também vive o assassino no longa de Tarantino, e, também, aparece bem pouco proporcionalmente. O que essas duas abordagens entenderam é que Manson é um mito.

As duas obras o tratam como alguém mitológico, inalcançável, pois essa é a forma que o próprio manipulou sua narrativa para ser retratado. O pessoal da Família Manson acreditava que ele era uma espécie de messias, e o cara criou a maior lorota do mundo: a música sobre o apocalipse da guerra racional escrita pelos Beatles. É uma história muito louca, que o maior manipulador conseguiu fazer diversas pessoas instruídas a acreditarem. Enquanto na série temos uma abordagem mais realista e sombria, no filme vemos os tempos áureos e a consequência devastadora que levaram Manson a prisão – com o revisionismo histórico de Tarantino.

era uma vez em hollywood

O diretor debocha de Manson e seus discípulos, mas retrata com bastante fidelidade a cronologia dos acontecimentos e os principais marcos históricos. Seguindo a fórmula de Bastardos Inglórios, Tarantino revisita toda sua obra durante o longa, com homenagens a Kill Bill no figurino de Sharon Tate, frases típicas, a cena icônica de Pulp Ficition, tudo está ali. A pessoa tem que ter a confiança para se autoreferenciar (não sei como escrever essa frase haha), mas né, ele tem haha. É um fanservice para os típicos tietes de Tarantino (eu inclusa) que faz dar aquele gritinho no cinema de “IIITI”. Mas, como sempre, Quentin também prestas suas homenagens aos seus ídolos: tem a Sharon Tate real no cinema, a pior representação do Bruce Lee (desculpa, mas ficou podre) e os Westerns Spaghetti que ele tanto ama. A homenagem ao cinema dos anos 1960 é muito legal, a atmosfera, os personagens chegaram até a me remeter a La La Land, juro haha. É um filme bem nerd.

(Eu sou bem nerd, fazer o quê). (e Leonardo Dicaprio numa das melhores atuações, como sempre).

Outro ponto em comum de Mindhunter e Era Uma Vez em Hollywood é o viés político. Falar sobre serial killers é trazer políticas à tona, é um reflexo social. O antagonista da série é culpado pela onda de assassinatos que deixou quase 30 crianças negras mortas em Atlanta nos anos 1970 (não é spoiler, tem no trailer e a série é baseada na realidade, gente, sorry haha). E Manson queria começar uma guerra racial. Apesar de Tarantino não entrar nesse debate, é emblemático que, no aniversário de 50 anos da tragédia, se traga essa temática de volta – e o diretor tem um histórico nessa discussão.

mindhunter 2 temporada holden

Mindhunter escolheu a dedo quem seria seu vilão, no entanto, ouso dizer que não foi apenas por uma questão narrativa, mas de posicionamento político. A cronologia dos serial killers apresentados na série não fazem muito sentido para mim, e acho que é até por isso que evitam falarem muito as datas haha. O leque de opções era, infelizmente, vasto, mas escolher um massacre infantil em uma das cidades sulistas mais racista dos EUA foi proposital. Na época em que temos pessoas flertando novamente com a KKK e passeatas absurdas, é preciso reviver o passado e entender que não existe espaço para essa palhaçada. Infiltrados na Klan, de Spike Lee, se passa na mesma época que Mindhunter, também baseado em fator reais, e pode enriquecer a sua experiência com a série e entender o problema que é a KKK, que não é aprofundado. Nesse âmbito da série, me incomodou o desenvolvimento do Holden – existe uma desconfiança minha de que ele esteja um pouco no espectro autista, mas acredito que ficou confuso os sentimentos dele com toda a situação. No geral, ele foi um personagem mal trabalhado nessa temporada, esqueceram no churrasco as crises de pânico, por exemplo.

No entanto, existe uma razão por eu ter enaltecido a forma como essas duas obras tão diferentes abordaram serial killers. Não existe só um meio de lidar com essa situação, e é uma fonte rica de criação, mas tem que rolar uma certa responsabilidade, coisa que o filme do Ted Bundy não teve – aha, mais um assassino pro meu fim de semana. Estrelado por Zac Efron, Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile tem um nome super pomposo para um filme que consegue romantizar um dos maiores assassinos dos Estados Unidos. O filme, erroneamente, foca no casamento de Bundy com Liz (Lily Collins) com um toque amor bandido – Mama, I’m in love with criminal. Não cria suspense, não é sombrio e nem obscuro, funciona como um drama, romance, tudo que um filme de serial killer não é.

Mindhunter mostra que não precisa de cenas pesadas de violência para se abordar o tema, assim como em Zodíaco elas também não existem. Tarantino economizou na violência, mas entregou ápice da carreira assassina de Manson. Quando se tem um vilão desse tamanho, é preciso mostrar o porquê da fama, do nome, da condenação. No filme de Bundy não temos o ato e nem vemos a faceta do lado obscuro do vilão. É tão mal feito que realmente chegamos a acreditar que o “coitado” não cometeu aqueles crimes, o que é impensável, pois sabemos quem ele é. É presumir a audiência de desinformada, é tentar emular como foi todo esse ocorrido na época e a manipulação dele e da mídia de forma não efetiva.

ted bundy filme

Eu assisti ao documentário do Ted Bundy (tem na netflix) e, sim, o Zac Efron está excelente no papel, mas o roteiro e a direção não souberam criar o clima da história. Foi um desperdício de filme de um dos acontecimentos mais perturbadores! Poderia ter seguido pelo lado sombrio, sério e apático, como também pelo lado macabro, debochado e crítico como em Psicopata Americano, com Christian Bale. Faltou referência para essa galera, e faltou assistir o documentário e fazer umas pesquisas, sabe? Por que, para quem se interessa por esse assunto e tipo de conteúdo, é uma experiência frustrante, que não agrega em nada, não discute tema algum, e humaniza de forma equivocada um psicopata.

Ao final do longa, eles exibem trechos reais no qual o filme buscou retratar fielmente. A caracterização está realmente maravilhosa, mas, e o contexto daquelas cenas? No documentário completo, existe um momento que Ted Bundy é inapropriado, sujo, e tem vocabulário terrível ao se referir as vítimas, que foi cortado do filme. A fuga dele e os dias que passou sozinho no mato mal trabalhados. O potencial de se iniciar qualquer debate psicológico, sobre abuso, bullying, misoginia, nada. Quando o filme erra o tom, não tem hit de sucesso ou caracterização fiel que salve.

ted bundy zac efron

Uma experiência intensa para o final de semana, e, provavelmente, um dos posts mais esquisitos que já fiz. Não sei como se diz que ama história de serial killer, mas esse é um assunto que muito me instiga e estou sempre ali assistindo alguma coisinha. Acredito que o audiovisual, de forma bem geral mesmo, nos permite criar diversas perspectivas sobre um acontecimento que é muito difícil para nós compreendermos e mistura esse medo e curiosidade pelo que é diferente. Porém, também vejo que essas histórias devem ser tratadas com responsabilidade, mesmo na ficção, e servem como instrumento de informação e político. Assassinatos em série é uma doença social, e temos muito a aprender com casos trágicos, e esperar que não precisem se repetir para curarmos as causas.

O audiovisual, seja por documentário, filme, série, e até mesmo os livros, nos ajudam a ter uma dimensão de tudo ao redor dos casos, do que apenas notícias sensacionalistas. As melhores obras não apresentam apenas o caso de forma banal, mas servem como instrumento de empatia pelas vítimas, ajuda a compreender os assassinos, e analisar criticamente todo o sistema, desde as escolas, até a polícia e a mídia. No mais, a segunda temporada de Mindhunter está incrível, mantendo a qualidade, a profundidade e já saudades da próxima; Era Uma Vez em Hollywood é um dos melhores filmes do ano, impecável, mas faltou ser mais debochado e se divertir mais na história, ele é muito sério para padrões Tarantino, mas o médio dele já é muito bom né? Haha; Ted Bundy – A Verdadeira Face do Mal consegue ter um título pior que em inglês e não é a toa que flopou no cinema, uma bomba!

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