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GLOW – Luta Livre com muito Glitter e Girl Power

As belíssimas meninas da luta livre estão de volta. Com a terceira temporada batendo na porta, Glow é uma série incrível sobre feminismo! Divertida e potente, os anos 1980 nunca foram tão atuais.

Glow é uma série genial subestimada. Ambientada nos anos 1980, ela aborda uma realidade pouco lembrada ou explorada no audiovisual: Wrestling, ou Luta Livre, febre na época. Com personagens complexas, discussões atuais e um humor ácido, sátiro e determinado, Glow é um acerto da Netflix! Com indicações ao Emmy nos anos anteriores, e sua nova temporada chegando amanhã (09/08), acho necessário discorrer sobre a importância da série – e expressar todo meu amor haha – sem spoilers, juro!

A história acompanha Ruth (Alison Brie), uma atriz desempregada e desesperada para arrumar emprego, visto que os boletos estão chegando e não sendo pagos. Depois de mais um fracasso na audição – e não conseguindo se encaixar nos papéis patéticos sem profundidade que lhes são ofertados, ela é chamada para um teste diferente e misterioso. Na ligação, a responsável diz que estão selecionando garotas “fora do padrão”, “não convencionais”. Quando chega, ela se depara com o projeto de GLOW: Gorgeous Ladies of Wrestling, ou seja, luta livre encenada!! Maravilhoso, não? Apesar de ser aceita nesse novo projeto, nem tudo são flores para Ruth, e, como nós, os dias difíceis nunca acabam.

Nesse meio de história, que ocupa apenas o primeiro episódio (não estou dando spoilers haha) conhecemos Debbie (Betty Gilpin), a melhor amiga de Ruth. E também descobrimos que nossa protagonista está dormindo com o marido de Debbie, com o qual acabou de ter um filho. Ou seja, a mocinha não é tão inocente assim, não é mesmo? Ruth é determinada, otimista e proativa até demais, mas não são essas características que lhe garante o papel em Glow, mas o barraco que Debbie arma durante a audição e encanta o diretor responsável! As duas ganham a posição de coestrelas, mas não estão se falando! Receita para dar tudo errado está pronta.

A série é inspirada no programa homônimo que foi ao ar entre 1986 e 1990, ou seja, Glow realmente existiu. Apesar de se tratar de uma ficção, os fatos históricos são verdadeiros, e Wrestling era, de fato, um fenômeno na época e esta é a iniciativa de colocar garotas como lutadoras. Na série, Glow é dirigido por Sam Sylvia (Marc Maron), um diretor de filmes de horror B em decadência que, assim como as 12 garotas que contrata, também não entende nada de Wrestling. Nós e os personagens vamos aprendendo juntos sobre esse universo, e eu adianto para vocês que é, sim, bizarro, mas impossível não se envolver. Eu to muito empolgada, perdão antecipado!

Parece muita coisa, desenvolver personagens complexas e contar o surgimento do programa de luta livre feminino, mas o roteiro é genial e entrega tudo com maestria. A história é linear, rápida (episódios de 30 minutos) e toda amarradinha – ele não se complica com tramas mirabolantes, mas foca no sentimento. A maior parte da primeira temporada é concentrada no hotel, o objetivo é entrosar as garotas e treinar as lutas, e, em termos do roteiro, fazer nós também as conhecermos melhor. Cada uma é super diferente da outra, tanto a aparência, quanto na personalidade – e o que começa com arquétipos prontos, com o tempo se desfaz e cria dimensão para cada uma. É muito fácil se afeiçoar as meninas.

GLOW girls

Com o cenário limitado, essa construção só é possível devido aos excelentes diálogos entre as personagens. Não são excessivamente expositivos, pelo contrário, a série consegue dizer muito, falando pouco. O discurso é forte, preciso e não tem tempo de palestrar e nem suavizar os acontecimentos, os momentos são crus, vida real. A linguagem da série é muito irônica e debochada, ela satiriza a si mesma e toda a indústria de hollywood, tecendo críticas amargas e sagazes. São uma sequência de alfinetadas bem dadas sem cerimônia.

A ambientação dos anos 1980 é impecável, mas não é o foco da série. Diferente de Stranger Things (confira crítica da 3 temporada), não existe uma glamourização e nostalgia excessiva da década, em Glow tudo é mais natural e orgânico, sem o efeito mágico. As roupas, os lugares, os costumes e objetos são específicos da época, incluindo um teste de gravidez bizarro haha. Essa atmosfera é ainda mais viva com a ajuda da trilha sonora! Marcada por hits do período, as músicas são precisamente selecionadas para conversarem com a cena, enriquecendo a mise en scene. Com todo esse capricho e preciosismo, é impossível não ser envolvido nesse universo. Não mencionei ainda os GLITTERS das fantasias, mas acredite, eles existem!

Glow é uma dramédia criada por duas mulheres: Liz Flahive e Carly Mensch – que fizeram parte da equipe de roteirista de Capitã Marvel! Além disso, a produtora chefe da série é Jenji Kohan, que exerceu a mesma função em Orange Is the New Black. Os bastidores de mulheres incríveis e experientes não acaba por aí, e temos um time de roteiristas e diretores majoritariamente feminino, incluindo no currículo episódios de Handmaid’s Tale. Ou seja, estamos falando de pessoas que sabem como falar sobre mulheres e dirigir personagens complexos e interessantes, além de contar uma boa história.

glow ruth and debbie

O nome da série não é por acaso, e ela vai trabalhar cada letra e seu significado em Glow.

Gourgeous – Bonita: A série se propõe a discutir padrões de beleza! Desde o primeiro episódio, quando vemos o convite para a audição de Ruth, percebemos como a série traz para o primeiro plano o conceito de beleza convencional. As 12 lutadoras selecionadas são as mais plurais possível, diferentes biotipos, etnias, cabelos, tudo. Essas meninas são segmentadas e estigmatizadas socialmente, se enquadrando em estereótipos rasos baseados na aparência de cada uma.

A série ainda discute o uso do corpo da mulher, sair do lugar de objetificação e entrar na posição de empoderamento. As lutas e os shows são feitos para o prazer dos outros, mas o que vemos em Glow são as meninas usando de seus corpos diversos para o próprio prazer. Com os golpes sexualmente explícitos e as fantasias por muitas vezes sensuais, elas estão se colocando naquela posição para se expressar, e saindo do local comum – como dançar, mais ou menos. Além disso, de forma complexa e sutil, Glow se empodera dos estereótipos. As mulheres, negra, descendente de nativos-americanos, oriental, entre outras se apropriam dos conceitos estigmatizados para fazerem piada, debocharem, e usar algo ofensivo ao seu favor. Nas lutas isso fica muito mais evidente.

Dessa forma, a série mostra como usar o seu corpo para seu prazer, assumir a sua identidade e não deixar que os outros te definam pela aparência é libertador. A discussão sobre corpo é muito forte para Debbie, a American Dream Girl e como após a gravidez ela não o sente mais como seu. O processo de retomada dessa autoestima é lindo e inspirador.

glow critica

Ladies – Senhoras: As verdadeiras protagonistas e foco da discussão toda! Nessa pluralidade, temos mulheres de diferentes idades, experiências, sonhos e backgrounds. A série aborda muito bem como os homens enxergam as mulheres e as caixinhas em que eles as colocam, mas também mostra os preconceitos das próprias mulheres para com as semelhantes. Se você acompanha o Geek Drama sabe que eu surto com história de amizades femininas bem-feitas, e esse é o ponto alto de Glow! É a coisa mais linda e preciosa a forma como essas garotas vão se relacionando. A construção é aos poucos, não vem fácil e nem é as mil maravilhas. Elas brigam, sabotam umas às outras, mas tudo isso para aprenderem a aceitar as diferenças, entender o ritmo e contexto de cada uma e construir um time unido!

A amizade de Ruth e Debbie ganha destaque e mais dimensão, por motivos óbvios, e a forma como as duas vão lidando com tudo chega num estopim na segunda temporada. Um dos episódios mais honestos de série que já vi, e fiquei 150% envolvida com o drama! A verdade é que Hollywood sempre lucrou muito com a inimizade entre mulheres e alimentou esse sentimento de competição. Em Glow não temos apenas conversas de homens, manicure e fofocas alheias, mas temos conversas reais, honestas! Mulheres falam sobre esses temas, mas não dá forma como costumam retratar, e não com uma bagagem tão rasa de assuntos haha.

glow wrestling

Wrestling – Luta: Colocar as meninas para lutar e fazer um programa sobre isso é uma grande metáfora para a posição da mulher na sociedade. Todas as personagens estão enfrentando uma batalha: seja o estereotipo que as definem, a posição em que são colocadas, os próprios demônios. O feminismo é a luta das mulheres pela igualdade, e esse é o tema central, protagonista e determinante de Glow, e nem tentam esconder. O projeto foi criado e é liderado por mulheres, com um elenco enorme de mulheres, falando a real sobre vários tabus: hollywood não aceita de boas esse tipo de coisa. Com certeza, todas as envolvidas tiveram que lutar com unhas e dentes para fazer a série acontecer, se provarem inúmeras vezes – e Glow é sobre isso, meninas dando o sangue para colocar o programa na TV nos anos 1980.

O cenário de três décadas atrás é desestimulante quando paramos para ver que, apesar das mudanças, poucas coisas mudaram. O que é dito, mostrado, e denunciado por Glow ainda acontece todos os dias. A luta das mulheres está longe de ter um fim, e a série evidencia isso. O programa faz parte dessa luta, e (atenção para o chavão) mostra que unidas, as mulheres são muito mais fortes – Rainhas do Crime que o digam. O inimigo não é a outra mulher, não é para nossa igual que temos que voltar nossas forças, mas para o patriarcado, para a indústria que não valoriza o trabalho de mulheres e lucra com a sua desunião.

glow sam sylvia

Fim do momento militância, a série não tem um vilão, pois os personagens são cinzas o suficiente para terem momentos que são legais, e são babacas. Porém, se tem alguém que eu ODEIO amar, esse alguém é Sam Sylvia (o diretor). O cara é um sexista extremo, arrogante, mas que sabe ser um bom amigo do seu jeito torto, entregando até uns momentos que é fofo (?). A relação dele com Ruth é impagável, os dois tem muita química juntos e desenvolvem uma dinâmica própria muito especial – não é romance, tá? Haha. De forma geral todo elenco é um amor, talentoso, e se enturmam muito bem dentro e fora do ringue.

Não dá para esconder o meu amor por Glow. A primeira temporada é incrível, e só melhora com a segunda – lançada na época do auge do #metoo, ela foca bastante nesse tema. Se você está procurando uma série divertida, mas que vai te dar bagagem para refletir: GLOW! Original Netflix, com 2 temporadas de 10 episódios de 30 minutos cada, fácil de maratonar e com o plus de ter a terceira temporada saindo do forno dia 09 de agosto! Série feita por mulheres sobre mulheres, com diversidade de todas as formas e feminista!

Pode ficar tranquilo que ela não é uma série palestrinha, pedante e enfurecida. Como enalteci anteriormente, o roteiro é sutil e ácido na medida certa para passar o recado com plenitude. Com uma linguagem debochada e irônica, eu acho difícil alguém não gostar e se encantar por Glow. Uma das minhas séries preferidas, de coração, e que eu queria muito ter com quem surtar sobre haha. E, caso esteja ai a dúvida de quem é a minha lutadora favorita, fico dividida entre Sheila, The Shewolf e Black Magic hahaha. Assistam, só isso!!

1 comentário em “GLOW – Luta Livre com muito Glitter e Girl Power

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