Boy Erased denuncia o mal da opressão religiosa para com homossexuais

Boy Erased é a crueldade da realidade levada ao absurdo. Com delicadeza e sensibilidade, o filme retrata o conflito do jovem de família religiosa diante de sua homossexualidade e o impensável externato de cura gay. Apesar de uma mensagem forte e verdadeira, o longa escorrega no ritmo e não cumpre as promessas dramáticas feitas.

Jared Eamons (Lucas Hedges) é filho do pastor da cidade, Marshall (Russell Crowe) com a doce, mas submissa, Nancy (Nicole Kidman). Ele é um menino de ouro e fonte de muito orgulho dos pais: namora uma bela garota, trabalha na concessionária da família, faz parte do time da escola e está indo para a faculdade. O que o garoto não imaginava é que essa mudança seria o empurrão que faltava para seu autoconhecimento. Ao contar para família sobre suas dúvidas em relação a sexualidade, os pais junto a outros líderes da igreja oferecem a alternativa do tratamento a homossexualidade que, num primeiro momento, o garoto aceita. E lá testemunhamos o horror a que essas pessoas são submetidas na tentativa de “curar” algo que não é uma doença.

A religião é um constante no longa, que procura nas entrelinhas debater o que realmente é ser cristão. Constantemente, as pessoas na posição de poder definem quem Jesus ama, quem não. Baseadas em regras opressoras, a tal instituição Love in Action (ela realmente existe) instiga o ódio, autodepreciação, exclusão social, repressão de sentimentos, desejos e ausência de diálogo. Acredito que um dos pontos altos de Boy Erased é justamente a junção da narrativa religiosa como forma de controle social e manipulação psicológica.

Vemos que Marshall é tanto o opressor quanto o também oprimido nesse ambiente de regras restritas, o pai de Jared está em constante conflito com seu coração. Assim como Nancy, que se considera uma mulher muito religiosa, mas isso não a impede de refletir sobre a realidade que acomete seu filho. Os dois pais escolhem caminhos diferentes de lidar com a homossexualidade de Jared, e acredito que está é outra abordagem acertada do filme. A comunidade LGBT+ sempre foi vista como doente, oprimida socialmente e marginalizada, e na mente dos pais dessas pessoas, em sua maioria, é extremamente difícil aceitar o filho pois, sempre lhes foi dito que Deus não aceita, é coisa de Satanás, é errado, um pecado terrível. Isso está enraizado no inconsciente coletivo, e mudar essa mentalidade leva tempo, e cada um tem o seu.

boy erased parentes

Porém, é nessa animosidade que o filme perde o ritmo. Preso na narrativa religiosa e no processo de conversão, o longa não desenvolve seus personagens, e estes acabam por não terem personalidade. Nas quase 2 horas não chego a conhecer quem é Jared, não sei quais são seus gostos, suas principais características, como ele se relaciona ao redor, nada. Quando o garoto está na faculdade, não sabemos nem o que está cursando. Apesar de vermos suas diversas atividades, não sei o que ele realmente gosta. E se a intenção é dizer “nem ele se permitiu se conhecer” o longa deveria ter explorado melhor essa descoberta. As informações ficam soltas e não se conectam com a história. No momento pós-externato, conseguimos ver quem é Jared, mas não enxergamos como ele chegou lá.

O roteiro também peca nos flashbacks intercalados com vivência no Love in Action. A cronologia dos eventos fica confusa, e o impacto delas no Jared poderia, também, ter sido melhor explorado. Os flashbacks funcionam como justificativas de determinadas atitudes e consequências, mas esta não é a melhor forma de usar o recurso, pois empobrece o enredo e não cria tensão e mistério para o expectador. Os conflitos nunca atingem o potencial que teriam, e o drama fica um pouco soft demais. O grande clímax é abaixo das expectativas, e não consegue envolver o expectador da forma que poderia.

boy erased victor syked

Falando de coisa boa, o filme é tecnicamente muito bem-feitinho. A fotografia é linda, e usa da baixa saturação para refletir o interior de Jared, que é triste, sem brilho e cores. Isso muda quando avançamos no futuro e a fotografia explora melhor as cores e a saturação. A direção é competente, mas não tem um grande destaque no filme e não consegue criar momentos de tensão, por mais que a trilha sonora dê uma mãozinha. Quem dirige é Joel Edgerton, que também interpreta o detestável Victor Sykes, responsável pela clínica de conversão. O ator assina seu quinto filme, e eu acho fofo quando a pessoa explora novas possibilidades de carreira haha.

Sei que falei mal do roteiro, mas queria destacar que ele faz uma metáfora da história muito interessante com as cenas no carro, nas quais Jared gosta de por a mãozinha para fora. No geral, a história é boa, o roteiro é competente em contá-la, mas subaproveita seu potencial e seus talentos. O filme tem no núcleo central três excelentes atores que não tem espaço de desenvolver suas atuações como poderiam. Nicole Kidman brilha nas poucas cenas em que aparece, e ela sempre entrega mães diferentes, multidimensionais, reais! Porém, tanto Kidman quanto Crowe têm apenas uma cena de impacto.

Lucas Hedges é um fofíssimo e talentoso ator em ascensão em Hollywood, porém também senti que faltou explorá-lo. Ele está bem diferente dos personagens anteriores, mas a falta de dimensão de Jared, de personalidade mesmo, faz com não criemos um laço genuíno. Pela premissa, acreditei que ia me envolver muito mais com o filme, mas não chega o momento de aperto máximo no coração, ou aquela cena icônica que seria muito bem-vinda.

boy erased love

Claramente o filme não atingiu minhas expectativas, e, se no começo do ano eu fiquei super chateada de não o ver concorrendo ao Oscar, hoje eu entendo os motivos. Para quem não se lembra, ou não sabe, Boy Erased era para ter estreado em janeiro/2019 por aqui, mas aconteceu coisas obscuras e o estúdio responsável decidiu que não era mais “vantajoso” lançar o filme no Brasil. Um horror, eu sei! Agora ele está disponível nos serviços do Telecine, onde assisti.

No geral é um filme doloroso, que mostra a capacidade ilimitada da sociedade em ferir os outros e fazerem as pessoas se sentirem inadequadas, erradas, pecaminosas. O longa é baseado no livro homônimo, escrito pelo Garrard Conley, o Jared da vida real! Conley acompanhou as gravações e ajudou Joel Edgerton a adaptar sua obra para as telas. Apesar de ter me frustrado com o filme, eu quero muito ler o livro, que foi super elogiado e a história é excelente e real. Sem dúvidas, vale a pena assistir Boy Erased se você está a fim de ficar pistola com alguma coisa, buscar uma realidade cruel fora da bolha, despertar empatia para com pessoas marginalizadas por apenas serem quem são. Minha leve decepção não tira em nada a importância da história, e ele continua sendo um ótimo filme.

 

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