Dor e Glória é a autoficção de Almodóvar

Muitos relacionam Pedro Almodóvar com a despretensão na qual o escritor e diretor aborda a temática da sexualidade, confrontando diretamente tabus. Eu, no entanto, enxergo muito mais a relação entre mãe e filho em suas obras, uma retratação digna das teorias Freudianas, pois a sexualidade de seus filmes, inevitavelmente, estão relacionadas a maternidade representada. Em Dor e Glória vemos isso de uma forma muito mais pessoal, esclarecendo para os fãs do artista as constantes retrações desse tema.

O lançamento de Almodóvar é a sua obra mais íntima, se tornando extremamente difícil separar a autobiografia da ficção. No filme acompanhamos Salvador Mallo (Antonio Banderas), um diretor em declínio que, ao participar da festa de 30 anos de sua principal obra, se confronta com o passado, desde a infância até suas decisões e carreira. O filme é sobre as principais primeiras vezes do personagem: seu primeiro amor, seu primeiro filme, seu primeiro desejo. Além disso, Salvador Mallo sofre de várias doenças, mas, sem dúvidas, a principal sendo depressão.

 

Eu sou a pessoa que fui assistir Dor e Glória exclusivamente por ser do Almodóvar – não sabia que prêmios tinha ganhado, que festivais havia participado, e nem o trailer assisti (mas deixei ali pra você ;). Sou fã do controverso diretor e roteirista, além de estar cada vez mais envolvida com o cinema europeu. Enquanto estava ansiosa para ver Penélope Cruz no cinema, minha mãe era só Antonio Banderas. Os dois entregam um trabalho excelente e choca zero pessoas. Logo no início do longa, Salvador Mallo critica muito o ator principal de Sabor, seu primeiro filme que irá ser homenageado, e logo nesse início vemos que essa a história de Almodóvar.

O cineasta é conhecido por ser uma profissional difícil e muito exigente. Quando olhamos seus trabalhos percebemos que o elenco é praticamente uma constante, um grupo da escola que sempre faz trabalhos juntos. Essa fama é abordada no filme com tom irônico, e, que ao mesmo tempo, aceita a observação, visto que é verdade, provavelmente haha. Afinidade criativa é real, e, quando vemos diretores e roteirista tão autorais, é inevitável notar a panelinha com a qual atuam.

Como Dor e Gloria dá inúmeras pistas de que Salvador é um retratado de Almodóvar (o filme é repleto de easter eggs da carreira e vida do diretor, para os fãs)  seria de esperar que o cineasta exigisse o melhor: Antonio Banderas. Alguém que o conhece profundamente, está ligado com Madrid e sua cultura, entende o universo no qual cresceu, e a identidade criativa que assumiu, conseguindo passar sua linguagem. E o filme é tudo isso, com a essência que o diretor construiu e assumiu no mercado audiovisual. No longa existe o momento da explicação de autoficção – e ali é quando Almodóvar nos conta que é justamente esse o caso da obra cinematográfica.

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Autoficção é quando contamos nossa história, mas com pitadas de ficção, a audiência enxerga que aquilo é pessoal, é sua experiência, mas não consegue definir com detalhes o que aconteceu e o que não aconteceu. O autor cria um personagem espelhado na própria vivência, mas acrescenta características um pouco diferentes, que o distanciam da autobiografia o suficiente para conseguir escrever uma narrativa que se encaixe no formado desejado. Inocência Roubada também é um filme (e originalmente uma peça) de autoficção, e vemos como está é uma tendência atual do cinema europeu.

O longa bate muito na tecla de como as obras dos artistas são pessoais, e acredito que isso é a verdadeira arte. Filmes, livros, fotografias, ilustrações, o que for são meios de transmitir uma verdade interior, de expressar pro mundo a forma como sente e enxerga a sua realidade. Em determinado ponto, Salvador Mallo fala como não gostaria que a obra a ser apresentada contivesse seu nome, pois ele não quer que as pessoas a relacionem com ele. E fazer uma boa arte é isto, se expor! Para passar verdade e sentimento, abrir suas feridas e se permitir ser vulnerável é fundamental, e incrivelmente difícil. Almodóvar teve a coragem de contar sua história, com todo o glamour, sucesso, e solidão.

 

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Dor e Gloria é como a música do Charlie Brown Jr diria: dias de lutas e dias de gloria. A dor física que o personagem constantemente sente é uma representação de como a sua alma dói, da depressão que ele sente, e de toda a dolorosa história que teve. Apesar do sucesso e de ser o diretor espanhol mais conhecido no mundo, isso veio com um alto preço. E abrir as feridas da sua trajetória é doloroso, mas produz obras fantásticas! Conseguimos nos conectar com o personagem de um jeito honesto e singular.

Assistindo a quarta temporada de Queer Eye (precisamos falar sobre isso né?), Karamo mostra em episódio atrás de episódio como construímos uma cultura em que não é permitido ser vulnerável, e como as pessoas tem medo de se abrir, medo de que alguém use sua fragilidade contra elas. Karamo também mostra como isso é danoso a longo prazo, e como se abrir faz bem, liberta um peso enorme dos ombros. Almodóvar aprendeu essa lição com Karamo, e produziu uma obra que expõe seus sentimentos, o permite estar em contato com a sua história e avaliar a trajetória, desde o sucesso até os perrengues. Ser vulnerável é difícil, mas quando entramos em contato com nossas emoções, aceitamos sentimentos bons e ruins, nossos acertos e erros, conseguimos encontrar paz em nós mesmo. Karamo encerra dizendo que ser vulnerável nos faz mais forte, e é exatamente isso – estar em paz consigo é poderoso, conhecer suas forças e fraquezas e identificar isso na sua trajetória impede que outras pessoas tenham esse poder sob você!

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Além disso, contar essas histórias permite se conectar com as pessoas – outros podem estar se sentimento sozinhos com esse sentimento e, a partir daquele conto, sentirem-se acolhidos, compreendidos ou entender o que está passando. Essa é uma sensação poderosa, e que ajuda, também, a transmitir empatia, a enxergarmos as complexidades dos outros e até a entender melhor as pessoas ao nosso redor que tem dificuldade em se expressar. O cinema serve para auxiliar a audiência a entrar em contato com suas emoções, dizer o que você sempre quis e não sabia como, olhar o outro e o mundo com um novo olhar. E eu vejo isso crescendo muito com a expansão da autoficção!

Dor e Glória é um típico filme de Almodóvar: incrivelmente pessoal, sem tabus, cru e com uma linguagem debochada repleta de cenas hilárias enquanto, no fundo, conta uma história simples sobre humanidade por trás de uma trama louca. O longa é repleto de flashbacks – ou flashforward? Hihi – atuações incríveis, e uma cenografia deslumbrante. Almodóvar sabe fazer cinema excelente e contar uma história autêntica. É um filme leve, divertido, e uma ótima oportunidade para se familiarizar com cinema diferente do mainstream americano. Um dos melhores trabalhos do diretor e um presente apreciar Antonio Banderas e Penélope Cruz na mesma sessão.

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