Inocência Roubada traz luz a um dos maiores tabus da sociedade

Inocência Roubada é um filme muito difícil, mas extremamente necessário. Derivado da peça francesa homônima, Andrea Bescond leva para as telas sua própria experiência de abuso sexual infantil. Com uma linguagem única, a narrativa desperta vários sentimentos no expectador, evita o drama característico do tema, e conta uma história de coragem e reconciliação consigo mesma. O longa francês vem sendo elogiado, premiado e, principalmente, disposto a levantar uma discussão importante que ainda é um grande tabu.

Les Chatouilles (título original) acompanha a história de Odette (Andréa Bescond), contada pela própria em uma consulta com a psicóloga. O filme se passa em dois tempos: o tratamento psicológico da protagonista, e flashbacks narrados por ela. Quando criança, Odette sofreu abuso sexual do melhor amigo da família, Gilbert (Pierre Deladonchamps), e esse trauma tem graves reflexos em como, quando adulta, ela lida com relacionamentos de qualquer natureza. Odette sempre teve o sonho de ser bailarina, o que muito cedo levou a menina a sair da casa dos pais e perseguir seu objetivo na capital, Paris. Os pais sempre proveram tudo para ela, mas às custas de muito sacrifício, também. Odette era de uma família classe média com seus altos e baixos, e, apesar do pai ser gentil e carinhoso, a relação com a mãe era bem conturbada.

O grande destaque do filme, para mim, é a forma como ele é contado. A escolha de vivermos as lembranças de Odette é genial, e elas acontecem fragmentadas, sem uma linha cronológica exata, e com momentos marcantes e decisivos para a garota – como é na realidade. A medida que ela conta tudo para a psicóloga, nos colocamos no lugar da profissional, e analisamos e sentimos as dores da protagonista. A profissional é o nosso guia na história e nas emoções, e quando ela mesma fica desolada, Odette a consola, assim como a nós, audiência. Além disso, o fato de vivermos na cabeça de Odette colocava tudo sob um olhar subjetivo da personagem, criando um vínculo muito forte com a audiência e uma empatia de partir o coração.

Essa escolha narrativa, também, permite momentos lúdicos e muito simbólicos no filme. É palpável a dor da personagem e as dificuldades que o trauma gerou na sua sociabilidade e relacionamento interpessoal. Devido as consequências do abuso, Odette se envolve com bebidas, drogas, relações sexuais tóxicas, falta de amor e solidão. Outra válvula de escape e meio de expressão da personagem é a dança. Odette é uma excelente dançarina, e em suas performances ela conta toda a dor que sente, jamais tendo sido hábil de colocar em palavras e procurar ajuda, até então.

inocencia roubada dança

Andrea Bescond é a autora e protagonista da peça, e, para a adaptação cinematográfica, foi demandado que ela fosse a roteirista, diretora e protagonista – três funções inéditas e que desempenha muito sabiamente. Por ser sua história adaptada para a ficção, Andrea é a peça que faz o filme funcionar e ter o tom que procuravam: não é clínico, palestrinha, nem melodramático demais, ele é um filme cru, da realidade de uma pessoa que conseguiu ajeitar a sua vida depois do trauma. Odette claramente tem depressão e sérios problemas, mas vemos como nunca desistiu da dança, como ela busca se reconectar consigo mesma, superar o passado, e, o principal, vemos momentos felizes de sua vida, com altos e baixos.

É importante bater na tecla da coragem que Andrea, e Odette, tiveram em falar sobre o assunto e sair da solidão de viver sozinha essa dor. No filme vemos reações diversas ao que aconteceu, a própria personagem tentando entender o que aconteceu, e como as pessoas lidam com isso de forma diferente. No final, temos uma personagem que traz um contraponto a Odette, que mostra que as pessoas vítimas de abuso na infância nem sempre enfrentam a situação da mesma forma, o que gera a consequências diferentes em cada um. E, mais um acerto do filme, foi em como construir a família de Odette.

Os pais da personagem são de classe média, casados, e com problemas normais. Mesmo com a vida confortável que provém a filha, o pai tem uma jornada de trabalho exaustiva, e a mãe é frustrada com a vida atual. Nesse cenário entra Gilbert, um cara rico, bem-apessoado, amigo da família, pai de família, casado, e um modelo para Fabrice (Clovis Cornillac) – pai de Odette. Ele não tem um aspecto “típico” de pedófilo, mas é um. Alguém que jamais se suspeitariam, pois não existe uma cara para esse tipo de pessoa! Os sinais dizem muito, mas, infelizmente, só enxergamos aquilo que queremos ver. O que leva ao alerta principal: isso pode acontecer com qualquer família, e pode ser qualquer um próximo, que nunca desconfiaríamos.

inocencia roubada odette

As cenas de pedofilia são emocionalmente pesadas, mas nada explicitas. Houve uma preocupação genuína da produção em proteger a menor que interpreta Odette criança, mas passar a mensagem. O filme tem vários gatilhos para pessoas sensíveis ao tema, então eu não recomendo para quem acredita não ter estruturas de encarar o assunto no momento. É uma experiência dolorosa, mas que acredito ser essencial para abrir discussão sobre uma realidade sombria e devastadora que ocorre aos montes, infelizmente. Os dados de abuso sexual infantil são alarmantes, e evitar o assunto e se fazer de cego não vai proteger as crianças desse mal.

Uma coisa que eu adoro sobre filmes franceses é a naturalidade que conseguem retratar o cotidiano. Odette em nada se assemelha a uma personagem feminina típica, ela tem uma personalidade própria, uma linguagem verbal e física única, e consegue passar a realidade atual do mundo com naturalidade. O senso de humor da personagem é ótimo e esquisito, sendo ela quem traz o alívio cômico no próprio drama. O filme é muito contemporâneo nos pequenos detalhes, e não tem medo de mostrar o pior de cada personagem com realismo cru, sem enfeitar ou vilanizar aspecto algum. Não tomam partido, e criam um ambiente onde nem a audiência consegue obter itens o suficiente para tecer um julgamento. Conhecemos apenas a visão de Odette de tudo.

O filme é co-dirigido por Andrea Bescond e seu marido, Eric Métayer, e os dois tem uma sintonia incrível para criar as cenas, é tudo delicado e minucioso. A forma como filmam cada momento da vida de Odette é riquíssimo, com a memória sendo uma câmera na mão imprecisa, e as consultas com a terapeuta uma câmera estática, refletindo a realidade. As cenas de danças são poderosas, e o modo como são usadas para despertar a emoção na audiência é muito precioso. Até as cores da roupa de Odette dizem muito sobre a evolução da personagem, principalmente da infância para a fase adulta.

inocencia roubada

A mãe de Odette é brilhantemente vivida por Karin Viard e esta é a coadjuvante mais rica do filme. Não quero entrar no assunto para não estragar esse elemento essencial da experiência, mas a química das duas atrizes é imediata, e a história delas é cheia de efeitos colaterais. Vítimas de abuso vivem em um isolamento emocional criado por elas mesmas, pela dificuldade em falar durante e depois o que vivenciaram, e acredito que este filme é uma libertação para quem tem esse background. É uma enorme consulta com o terapeuta, na pegada de Rocketman, e com um viés levíssimo de As Vantagens de Ser Invisível, que poderia ter desenvolvido melhor o tema né, pessoal?

Inocência Roubada estreia dia 11/07 nos cinemas, é um filme francês, diferente do que estamos habituados a assistir nos cinemas, mas muito necessário – e realmente bom. Acho importante dar voz não só ao tema do abuso sexual infantil, mas a histórias corajosas como essa, pois não é fácil levantar e contar algo tão pessoal dessa forma. Saí do cinema absolutamente abalada, naqueles momentos que não sabe nem como reagir a tudo aquilo – e acho que isso que precisamos, às vezes, ser confrontado com o desconforto de muitos. Um dos melhores filmes que assisti esse ano, dê uma chance ao cinema francês haha (eu adoro).

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