Deslize – Swiped é o filme sobre modernidade mais ultrapassado possível

Deslize (ou Swiped) entrou hoje no catálogo da Netflix e, como um filme adolescente contemporâneo é quase mandatório termos o nosso amado Noah Centieno. Apesar de ficar muito feliz com a ressurreição do gênero, tem vindo umas verdadeiras bombas nessa avalanche de lançamentos. São sentimentos mistos nessa história toda, não apenas pelo filme, mas na produção e ascensão dos romcoms que estávamos tão carentes. Era de se esperar que nessa boa maré de longas teens se abraçassem mais as pautas sociais atuais, mas ainda vemos que estamos engatinhando no assunto.

Em Deslize vamos acompanhar James (Kendall Ryan Sanders), um nerd clássico magro de óculos até que bonitinho, que está começando na faculdade de computação. Sem amigos, traquejo social, e apaixonado por tecnologia e programação, o mocinho divide o quarto com o popular, rico, bonito e pegador Lance (Noah Centineo). Os dois tem um começo difícil até que resolvem juntar suas habilidades para desenvolver um app de pegação, no qual você desliza a tela, dá match com a pessoa e apenas sai para um sexo casual “one time only”, sem saber nome nem nada. Nada de encontros, conversas, jantares, é direto nos finalmente. E, óbvio, que a coisa sai do controle e James, uma pessoa romântica, e Lance, um cabeça oca, tem conflitos morais e de interesse no processo. O filme é a A Rede Social do Tinder para jovens, ponto.

A história, apesar de já soar previsível e pouco original, poderia ser divertida e agregar algo para o público, porém ela opta por escolhas ruins e mina a própria tentativa de mensagem. Esse texto conterá alguns spoilers, mas eu vou “ixpô ele”! Talvez enviese sua visão quando for assistir, ou você discorde completamente e possamos mutuamente aprender com a experiência. O ponto é: não vale tanto a pena assistir sem spoilers quanto ouvir a minha versão do assunto – é previsível demais para o spoiler que eu vou dar fazer diferença, na real haha.

O cerne da crítica está em Ann Deborah Fishman: roteirista, diretora, produtora, e responsável pelo casting, ou seja, ela praticamente fez o filme exatamente como queria, dona absoluta do projeto. No The Geek Drama sempre criticamos personagens femininos mal escritos, estereótipos ofensivos e vazios, má representação das coisas e ausência de diversidade, e o filme preenche todos esses requisitos. Em contrapartida, sempre procuramos filmes feitos por mulheres para valorizar o trabalho das garotas, observar a vasta diferença de representação trazida sob esse olhar e tudo o mais, coisa que o filme não faz em momento algum! A dualidade está no filme teen feito por mulheres, o que amamos, com ele preenchendo requisitos que odiamos.

James é um mocinho encantador, mas estereotipadíssimo! Ele foi feito para nós, mulheres, nos apaixonarmos por ele e tomarmos partido do: iti que fofinho e desajeitado. O personagem pouco evolui ao longo da narrativa, que bate constantemente na tecla: você tem que sair do computador e conhecer gente nova de verdade. Ele não faz amigos, ele tem uma relação tóxica com os outros meninos para desenvolver o app. Nunca fica esclarecido o porquê ele desistiu de ir pro MIT no meio do filme. A relação dele com os pais recém divorciados é inexistente e acaba o filme sem entendermos o que está se passando com aquela família. Tudo é levado em tom de brincadeira, pouco explorado e o filme não tem um momento de drama, tudo fica na superfície.

deslize avos

É exposto que rola um problema de dinheiro com a família, porém quando vemos a casa de James e seus avós, tudo tem cara de riqueza. É, também, exposto que rola um problema com o divórcio, mas não dá para entender exatamente qual, já que a mãe é meio ridicularizada na história, e os dois estão tentando um divorcio amigável e pacífico. Ou seja, o roteiro não diz para a gente o que está acontecendo, e parece apenas conveniente que o menino esteja naquela faculdade mais barata, mas que, ao mesmo tempo, não tem importância nenhuma o local onde ele estuda, além de ser um artifício sem sentido para motivar o garoto a trabalhar com Lance. Esse rolê da grana é muito mal trabalhado, e daria para contar a mesma história em outras circunstâncias, já que a roteirista claramente não queria trabalhar isso.

Então temos Hannah (Shelby Wulfert), a crush de James, mocinha do filme: loirinha do olho claro, inteligente, tímida e que é mega padrão, mas não se encaixa na sociedade. Os primeiros 5 minutos do filme, quando os dois estão conversando sobre Jane Austen, ela solta “Gosto das personagens femininas fortes e complexas que ela cria”. O que o público espera? Que nesse filme Hannah será essa pessoa, ainda mais com uma roteirista mulher. Não acontece! Hannah é chata, forçada e tonta. Ela é contra aplicativos de relacionamento pois acredita que as pessoas tem que se conhecer cara-a-cara, ela é definida pelas outras garotas como “do século passado” – só porque não quer apenas transar com caras desconhecidos. Ela anda constantemente LENDO, literalmente. Sério, quem anda na rua lendo livros? A gente não conhece NADA da personalidade da garota, que fala que é tímida porque tem gagueira – coisa jamais mostrada (tem que mostrar, não falar). Depois, ela diz que JAMAIS perdoaria mentira pelo motivo que fosse, para dali duas cenas estar perdoando em segundos o James – really??

deslize hannah

A personagem destaque do filme é um grande estereotipo abobalhado de garotas inteligentes tímidas sem reação, sem empoderamento, sem personalidade. Não era de se surpreender que todas as outras garotas do longa seguissem daí para pior, né? Nenhuma das outras tem personalidade, opinião, e, com sorte, ganharam um nome, apenas. As meninas são facilmente manipuladas pelos garotos, fazem suas vontades e correm atrás deles sem estarem, de fato, com vontade disso, apenas para transarem. Porém, esse poder das mulheres de transar sem relacionamento é tirado delas quando evidencia que não é isso que elas procuram, mas é o “único jeito” de sair com os rapazes da faculdade. Meninas, vocês podem fazer o que quiser, mas não é essa a mensagem que o filme está passando.

Os meninos falam que essas garotas são “promiscuas”, até James, quando está fazendo pesquisa sobre relacionamentos com pessoas mais velhas fala que transar no primeiro encontro não era muito frequente antigamente, e é dos tempos moderno esse comportamento “promiscuo” das meninas. Poxa, Ann Deborah, sério? E os meninos? Lance é praticamente um Deus desejado pelas fêmeas. Em nenhum momento do filme seu comportamento babaca e mesquinho é questionado ou julgado – assim, o personagem tido meio como “vilão” também não cresce. O menino jamais vê onde está o problema em objetificar as mulheres e as tratarem como um ser para se fazer sexo – ele não sabe fazer um elogio de verdade e isso é motivado de piada, e não te crescimento. Ele não se preocupa com elas, e isso nunca é cobrado dele, mas o filme cria uma narrativa que culpabiliza as garotas por se sujeitarem a essas coisas. E depois do cara ser um otário, elas ainda vão atrás deles, caem em seus pés, são burras e perdoam, sem ele pedir perdão (porque nem está arrependido, né?)

deslize noah centieno lance

No meio dessa confusão toda, James, que criou o app que as meninas começam a odiar, sai de salvador. Prontos para o pior? O homem, hétero, branco, gênio da computação e que nunca esteve num relacionamento, ensina as mulheres como elas devem se empoderar. James é a pessoa que vai lá nas garotas falarem para elas assumirem seu poder, e que, na real, elas que controlam as coisas. Ann Deborah Fishman, além de querer dar uma lição de moral machista, ainda coloca um homem para ensinar feminismo para mulheres? Palhaçada que não é sutil no filme, mas que qualquer um pode perceber, pois o roteiro ainda faz o favor de ser bem explicito, com umas falas que, sinceramente, WTF? O homem salva as meninas indefesas que se colocaram numa situação de objetificação sozinhas. Ah, e ele percebe tudo isso porque não quer que a mãe divorciada use o app e saia com outros homens para recuperar sua vida! O filme grita “mulheres, se deem ao respeito”, com Hannah sendo a bela, recatada e do lar vista como correta, e as outras que saem com garotos, querem transar e tiram fotos de lingerie como erradas – give me a break!!

Todos os personagens do filme estudam no mesmo curso e fazem a aula básica de programação. Além do local parecer mais um ensino médio do que uma faculdade, é de se esperar que todos tenham um conhecimento nivelado, com exceção de James, o gênio. Porém só ele sabe tudo, todos os outros, meninos e meninas, são umas toupeiras. Porque não colocou uma garota para desenvolver um app que combate o dos meninos? É uma solução tão simples e alinhada a uma proposta mais Girl Power. Se Hannah é muito inteligente, também, por que nunca vemos isso nas aulas? Por que ela tem gagueira? Me poupe, né, existem N maneiras de mostrar isso, e não apenas falar.

deslize james

Além desses problemas graves de representação feminina, temos também a heteronormatividade absurda, na qual James tem que toda hora revelar que não é gay, e chocar a todos. A diversidade sexual é usada como alivio cômico, e é inexistente. Além disso, todas as pessoas são padrão e estereotipadas: James, Hannah, Lance e seus amigos: brancos heterossexuais. Existe uma personagem negra que não consigo nem me lembrar o nome, e que nem tem personalidade. Ah, e todas magras! Óbvio que, no final, Lance se diz apaixonado pela loira – momento jamais construído, os dois nunca conversaram, ele nunca deu uma pista de que poderia gostar de outro ser humano. Além de Lance ser o líder do trio, e os outros dois meninos serem referenciados como Debie e Lóide, até quando?

Nesse filme eu nem vou culpar Noah Centineo pela bomba, apesar de estar mais uma vez fazendo seu papel clássico igual aos outros filmes – o roteiro é horrível e não tem como ninguém estar bem nesse filme. A direção é básica, e tem umas cenas que tenta ser diferente e não funciona, como quando os três mosqueteiros do mal estão propagando o app e a câmera roda tanto que da vertigem. A catástrofe que foi esse longa não é culpa de orçamento, de produtores, de nada a não ser de Ann Deborah Fishman, responsável completa por essa catástrofe que diz muito sobre o porquê é um telefilme anônimo.

deslize noah centineo

Eu fico feliz que tenhamos mais produções de mulheres, contando nossas histórias, e me empolgo toda vez que vou assistir algo, nutrida da esperança que finalmente teremos uma representação complexa e diversa. Quando isso não é entregue é uma decepção dupla, pois Ann Deborah chegou lá, conseguiu fazer um filme com uma boa estrutura, mas optou por protagonista homem, ensinando feminismo às mulheres, com lição de moral, sim, do século passado, e prestando um desserviço para todas as garotas. James chega a chantagear a irmã em espalhar fake news sobre a vida sexual dela – não é engraçado, é ruim, sabe? Eu amo filmes teens, mas temos que encarar que em 2019 nossos padrões deram uma elevada e a gente não aceita qualquer coisa. Esse filme é um retrocesso do gênero e coloca ideias erradas na cabeça de todo mundo que existe – até no que tange os próprios aplicativos.

O que mais me machucou nessa experiência toda foi ver uma visão tão machista sendo passada por uma mulher. No começo ela parece entender o que nós queremos – Jane Austen moderna, personagens femininos complexos, sim – mas que apenas não entrega – parece que nunca leu Jane Austen!! Eu não recomendo esse filme, não foi um caso “é ruim, mas é divertido”, e sim um caso “meu deus 2019 e isso?”. Tem muitos filmes teens atuais, e antigos, que são divertidos, tem seus problemas, mas que dá para relevar e tirar um bom entretenimento do que este. Mesmo porque, eu acredito que cinema não é só entretenimento, e ver um filme tão mal desenvolvido evidencia que a luta ainda está engatinhando, e tem muita mente pela frente para ser transformada. Deslize estreou hoje na Netflix, mas não é original do streaming – dessa  bomba você se livrou, miga hehe. O Noah nem é o protagonista, sabe? Não procure esse estresse para a sua segunda, nem para a vida!

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