Jessica Jones – a dolorosa e necessária despedida!

Jessica Jones é um marco! A primeira protagonista mulher do universo Marvel consolidou a promessa da parceria do mundo dos quadrinhos com a gigante Netflix. Depois da excelente primeira temporada, Jessica Jones caiu na mesma armadilha que levou ao desgaste da promissora colaboração dos estúdios. Na despedida da nossa não heroína preferida e de todo esse legado cooperativo, a terceira temporada da série é o atestado de que já era hora de encerrarmos esse arco.

Esse post contém spoilers das temporadas anteriores

Depois do final chocante da segunda temporada, as relações de Trish (Rachel Taylor) e Jessica (Krysten Ritter) ficaram tensas. Sem falar com a irmã adotiva e o ex amigo Malcolm (Eka Darville), Jessica está sozinha seguindo firme com a sua empresa de investigação, Alias – com direito a nova secretária. Determinada a honrar a memória da falecida (de novo) mãe, ela decide assumir o posto de tentar ser uma heroína, e usar seus poderes para o bem. A jovem alcoólatra trabalha em parceria velada com o detetive Costa (John Ventimiglia) e tem, a sua maneira, uma relação esquisita e fria com a advogada doente, Hogarth (Carrie-Anne Moss). Porém, sua estável rotina é tirada quando descobre que a cirurgia para adquirir poderes de Trish deu certo, e ela está agindo como uma vigilante mascarada, e desaparecida. Somado a isso, Jessica conhece o misterioso Erik (Benjamin Walker), e acaba levando uma facada gratuita, não dele, mas que causa sérios danos a heroína!

Dizer que os 13 episódios de cerca de 50 minutos é um exagero é chover no molhado. Essa birra da Netflix e Marvel em teimar em manter o número de episódios que todos já falaram ser muito é incompreensível, mesmo. Inevitável que a história não segure tanto tempo, como já aconteceu em praticamente todas as outras temporadas de todas as séries, e acabe com uma enorme enrolação e um ritmo ruim. A barriga da série leva a episódios que não tem um cliffhanger definido e não motivam a continuar assistindo. A terceira temporada demora bastante para engrenar, e só vamos conhecer de fato o vilão perto da metade. De novo, 8 episódios teriam feito desta experiência bem mais prazerosa.

Uma das coisas que mais gostei na proposta das séries da Marvel foram as temáticas abordadas em cada temporada dos heróis, e como conseguiram fazer os diferentes núcleos seguirem a mesma linha. Nesta temporada, o grande conflito dos personagens é entender quem eles são, e quem eles querem ser. O vilão funciona como uma ferramenta de autoquestionamento, sendo que a verdadeira batalha é contra seus ideias, princípios e personalidades. No que tange essa discussão, eu acredito que a série fez um excelente trabalho, e os quatro personagens centrais – Jessica, Trish, Malcolm e Hogarth – tem um arco bem definido e um desenvolvimento bacana.

Ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão (Dent, Harvey)

jessica jones 3 temporada erik

Ingressando o time de novos personagens, temos Erik – motivo que me manteve fiel a série, pois, QUE HOMEM. Apesar de ter adorado a sua participação e ser grande chave para o desenrolar da história, tive a sensação que, em determinado ponto, o roteiro não sabia o que fazer com ele. A dualidade do personagem não é uma característica dele, mas da má construção do roteiro. Apesar de fazer a história andar e ser um elemento crucial em vários pontos, ele é usado como uma ferramenta, e pouco se trabalha a  sua personalidade além do necessário para seguir com narrativa. Logo, o mistério por trás é raso e fácil. Seus poderes são pouco explicados, atuando mais como uma conveniência do roteiro.

O mesmo acontece com Trish. Depois do coma e quase morte, a cirurgia mostra resultado e ela é quase uma Jessica Jones. Porém, não fica claro quais são realmente suas habilidades super-humanas além de enxergar no escuro. Vemos (logo no início) Patsy treinando golpes e movimentos, o que atesta a falta de conhecimento que temos dos seus poderes. Ela é extraordinária, ou sou alguém muito engajado em querer ser herói? Essa fragilidade do roteiro em ditar regras torna seus recursos fracos, abusando da conveniência de não definir os limites dos personagens. Isso não prejudica a mensagem e os questionamento propostos pela história, mas dificulta a imersão do expectador.

Jessica Jones and Trish Walker

Krysten Ritter é o grande destaque da série, e entrega uma Jessica Jones perfeitamente imperfeita. A personagem consegue nosso carisma sendo exatamente quem é, e a atriz dá o tom e a personalidade exata. Conhecemos Jessica como uma amiga próxima, e é impossível não se apegar a ela. De longe, a parte mais difícil da despedida da série é não ver mais Ritter como essa personagem que a caiu como uma luva. Zero críticas a tecer em relação a esse assunto além da falta real que sentirei dela.

Jessica Jones sempre foi destaque pelo cunho feminista e introspectivo, conseguindo trazer uma enorme carga dramática e ser mais do que heróis e vilões, mas sobre humanidade e seus relacionamentos. Nesse quesito, a terceira temporada entrega uma aula de nuances, onde se discute a moral acima de qualquer assunto. É um tema super atual, especialmente no nosso momento aqui no país, e coloca em perspectiva ideias como “Bandido bom é bandido morto”, ou seus limites pessoais e ambições. Isso é o que faz Jessica Jones se destacar, e é possível dado ao excelente time por trás de história, composto por muitas mulheres que sabem retratar essa realidade com a delicadeza e crueza necessária. A série é muito diferente dos quadrinhos, porém traz exatamente o tom e a mensagem que precisávamos, fazendo jus ao termo adaptação.

jessica jonas hogarth malcolm

Desde a primeira temporada sabemos que a série é sombria e finais felizes não existem, assim como na vida. A história de Jessica Jones é marcada por acontecimentos agridoces, sacrifícios e personagens excessivamente humanos. Para encerrar todos esses anos ao lado da heroína, seria ingenuidade achar que o ciclo terminaria bem, e o final é doloroso, porém sintonizado com toda a jornada da série. Com exceção da última cena, que ficou uma bosta, perdão. Torcer por Jessica Jones é uma tarefa constantemente frustrante, e isso que dita o tom da história. É uma das séries com decisões mais corajosas, que não tem medo de frustrar o expectador e nem de deixa-lo terrivelmente triste – sabendo construir esse percurso.

jessica jones sallinger

Um ponto que eu absolutamente odiei foi a breve aparição de Luke Cage (Mike Colter), bem pro final. O personagem é uma grande gratuidade dispensável, que está ali apenas e exclusivamente para tecer o link com todo o universo criado. A relação de Jessica e Luke ficou horrível, o modo como ele aparece e interage é destoante, e o que faz ali poderia ser feito por qualquer pessoa. A falta de química entre os atores é dolorosa e, com certeza, essa foi uma clássica cena exigida por produtores que não estão imersos no contexto fornecido. Só fez acender o ódio gerado por Defensores, a verdadeira ladeira abaixo da parceria Marvel e Netflix. Se era para aparecer alguém, que fosse Matt Murdock, sabe? Haha

Por fim, gostaria de falar brevemente sobre o vilão. Como disse acima, o verdadeiro inimigo dos personagens são seus sentimentos e ações, ou seja, eles mesmo. Nesse contexto, o vilão serve para atiçar os nervos e desbloquear características enterradas em cada um. Porém, isso não deixa de fazer com que ele seja fraco. O maior erro de Jessica Jones foi estrear com o perfeito Killgrave (David Tennant) – devíamos saber que o vilão seria insuperável, e é isso que acontece. Infelizmente, esse é um vilão que não desperta grande emoções no expectador, nem ódio, nem curiosidade, nem simpatia. Ele está ali, como Erik, para servir a história e fazer os personagens se descobrirem. É um elemento que tira a sutileza da mensagem, e escancara o que a série quer trabalhar, sendo um ponto onde o roteiro fica excessivamente expositivo e cansativo.

jessica jones fraud

Jessica Jones é uma série com decisões corajosas, e, para mim, a melhor do quarteto criado pela parceria das gigantes produtores. No balanço geral, manteve a qualidade de segunda temporada, mas não se equipara a primeira, e evidencia o desgaste e a exaustão das séries Marvel que, começaram com uma enorme promessa, mas não chegaram lá. Jessica Jones ainda conseguiu manter aspectos da sua originalidade como uma boa direção, uma fotografia excelente e atuações muito boas. Peca em querer manter os 13 episódios e enche linguiça em vários momentos, o que quebra bastante o ritmo. Existe, inclusive, uma tentativa de aprofundamento do Detetive Costa, que vai do nada para lugar nenhum, esquecido no churrasco. Os quatro personagens centrais, Malcolm, Hogarth, Trish e Jessica tem um arco coerente com o que foi nos apresentado desde o início, e concluem suas histórias de forma surpreendente e satisfatória. Além do feminismo, a história consegue inserir a temática LGBT de forma natural, o que é legal, mas ainda fica nas margens estreitas de tudo.

No entanto, a despedida do universo não chega a acontecer, e, na última cena, que eu odiei, existe uma tentativa de conclusão, que é frustrada – sério, aquilo ficou fora do tom. Jessica Jones entrega um final doído, mas que é exatamente o que a série sempre buscou. Ela conversa na medida certa com tudo que foi exposto anteriormente, ou seja, Jessica é isolada e não importa muito os outros machos do role haha. É uma boa conclusão para a série, que tinha um potencial gigante se não tivesse caído na rede dos Defensores e na cilada dos 13 episódios. Feliz que acabou a derrocada das séries Marvel, desgastas e presa a um modelo que não deu certo – estou livre, mas muito triste pois amava Jessica Jones, a melhor coisa que essa parceria nos entregou!

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