Riverdale: porque esta foi a pior temporada!

Estou ciente que mexer com fandom de Riverdale é como cutucar um vespeiro, porém the Geek Drama existe para aprimorar nosso senso crítico, debater e não simplesmente bater palma para tudo. Parte do processo de gostar de uma série, ou o que for, envolve reconhecer quando seu potencial não foi atingido e a produção tomou decisões questionáveis. Feito esse chato, porém necessário disclaimer, vamos falar sobre a terceira temporada de Riverdale e o caminho que nos trouxe até esse ponto. O texto a seguir contém spoilers – se não terminou a série, não recomendo.

Antes de entrar nas polêmicas e críticas, vamos falar das coisas que deram certo. A série continua com uma excelente fotografia e direção de arte, criando uma atmosfera sombria e bem característica. A direção é bem experimental e ousada em alguns episódios, apesar de seguir um padrão na maioria. As referências que Roberto Aguirre-Sacasa traz são sempre muito legais e bem contextualizadas e, nessa temporada que focou bastante no horror, as escolhas de filmes homenageados foi bem interessante e divertida. Tivemos excelentes episódios como o musical de Heathers e o flashback, além de narrativas muito legais como o episódio noir, e a fuga da prisão. De modo geral, nos aspectos técnico, inventivos e criativos, a série é excelente, e manteve o seu nível de qualidade. Diria, inclusive, que com o tema dessa temporada, eles puderam lapidar e explorar mais referências do universo do horror que o showrunner tanto gosta.

A minha crítica é justamente para com o roteiro. A série já apresentava indícios de que estava meio perdida, mas, essa temporada, evidenciou o problema de não saber lidar com os 22 episódios. A dizer pela primeira temporada, que é redondinha, constrói um excelente mistério, plausível e alinhado com expectativas de jovens adolescentes xeretas, com 13 episódios quase sem barriga, a série não soube exatamente onde queria chegar depois disso. Com seu crescimento, exigência e, possivelmente intervenção dos produtores de TV, eles tiraram Riverdale das mãos criativas e livres de Roberto Aguirre-Sacasa e começaram a querer dar uma de novela da Globo, cheio de palpites baseados em estatísticas de audiência, choque, e polêmica – deixando de lado a coesão.

riverdale archie fighting

O personagem que mais sofreu na mão dessa nova fase de Riverdale, que começou com a segunda temporada e desandou completamente na mais recente, foi Archie Andrews. A trama do elegível a protagonismo se tornou insuportável, desconexa e inverossímil, dificultando qualquer relação afetiva da audiência para com ele. O jovem inocente e ingênuo, que queria ser músico, mas tinha medo de decepcionar o pai, se tornou um cara impulsivo, inconsequente, que toma as piores decisões e não aprende com os erros. Esse último fator é o que gera a maior revolta e falta de empatia com o personagem. Archie não se envolve em situações complicadas e perigosas por azar, coincidência infeliz ou coisa no gênero, o personagem ativamente toma decisões estupidas sequencialmente. E não são decisões que se mostraram ruim com o tempo, são obviamente ruins e nem deveriam ser uma opção.

A sensação ao final da terceira temporada é que o personagem não evoluiu, mas regrediu. Perdeu sua essência doce, delicada, de querer fazer justiça e ser músico e se transformou no que mais temia e não queria. Para piorar, apesar da precoce e devastadora morte de Luke Perry, Fred Andrews já estava esquecido no churrasco a muito tempo! Se compararmos a relação dele com Archie desde a primeira temporada, vemos uma queda vertiginosa inexplicável. Nessa última ele foi descaracterizado e apagado e o culpado disso foi o roteiro, que priorizou situações insanas mirabolantes ao aprofundamento dos laços afetivos.

riverdale betty cooper

Outra evidência desse ponto na narrativa é Betty Cooper. A menina acabou de descobrir que pai era um serial killer, a irmã se juntou a uma seita com seus dois sobrinhos e está perdendo a mãe para o mesmo grupo. A mãe toma decisões malucas, que levam a filha a procurar o pai para ajudá-la e aconselha-la – a que ponto chegamos. Ao invés de aprofundar no isolamento emocional de Betty, a colocam sozinha numa obcecada busca por desvendar os mistérios da tal Fazenda e recuperar a mãe e a irmã. A menina chega a não ter onde morar, a mãe a negligencia completamente, e isso não é trabalhado no roteiro, que a joga de casa em casa sem uma conversa apropriada, sem um adulto tentando dar suporte (conselho tutelar que ela contata toda hora, alô?).

O encontro dela com a sogra traficante, mãe do Jughead é anticlimático e não acrescenta em nada a narrativa da personagem. Ela ainda se mostra uma péssima amiga com tudo que aconteceu com Kevin, e o roteiro é construído tal qual a afasta de seu parceiro detetive e namorado, nos privando de momentos Bughead (maior shipp, motivo que assistimos, né?), e a transforma numa grande interesseira que só procura as pessoas para jogá-las em enrascadas. Isso não é algo que a Betty faria, e mais um ponto de descaracterização de personagem em prol de uma narrativa que já não vinha funcionando. A menina está sozinha e não tem um momento de situação emocional, de conversa com Verônica, sua melhor amiga com quem teve quatro cenas juntas na temporada, nada. Além de se provar a pior pessoa para se infiltrar em qualquer lugar ever – o que era um saco, também.

Betty chega a ser internada num convento laboratório de drogas, foge com várias garotas órfãs, bota fogo na própria casa, fica sem teto e sem dinheiro, mas nada é abordado efetivamente. A jovem é quase assassinada pelo próprio pai, se interna numa seita maluca, quase tem os órgãos roubados, é comprada pela tia para, no final disso tudo, descobrir que na real, a mãe não estava louca, mas trabalhando infiltrada para o FBI com o apoio do filho até então morto, seu meio irmão – e do seu namorado. Vocês percebem a sequência de forçação de barra que aconteceu? Que mãe no mundo ia deixar a filha passar por tudo isso sozinha? Como a Alice, que nas temporadas anteriores foi conhecida como bocuda, escondeu tudo isso da filha e deixou a menina correr tantos perigos? É inverossímil, e bem ruim, na verdade. Betty é uma excelente detetive, marcada pela parceria com Jughead, que se preocupa com os amigos, e não essa pessoa mesquinha, tonta e descuidada que a transformaram.

riverdale hiram devil

Seguindo essa linha de situações impossíveis, temos o tráfico de drogas em Riverdale. Eu acuso Hiram Lodge de não só ter estragado a cidade, como também a própria série. Desde que o personagem apareceu, tudo começou a dar errado, não só para os personagens, mas como para o roteiro que não sabia o que estava fazendo. Hiram nos é vendido como chefe mafioso perigoso poderoso podre de rico e cheio de influências, mas que dedica sua vida a perseguir um adolescente chamado Archie Andrews. É ridículo o quanto ele foca seus esforços para acabar com um adolescente que, no fundo, só queria dar uns beijos na sua filha. O vilão é excessivamente maquiavélico, caricato e desproporcional. A série parece não se decidir se ele ama ou não sua família, especialmente Verônica, e está sempre flertando com ele a ajudando e a sabotando – não de um jeito com nuances, mas com instabilidade mesmo.

Essa indecisão do caráter do personagem prejudica toda a sua veracidade e quebra o medo que o expectador deveria ter dele. Um cara, chefe do tráfico, que se dispõe a sair na mão com um adolescente por aposta é no mínimo patético; ou que instaura um jogo de RPG com líderes da cadeia e tudo o mais cuja missão é matar esse mesmo adolescente que ele fez questão de prender, é bem desproporcional. Além disso, a onipotência de Hiram é exaustiva, estando sempre por trás de tudo de errado que acontece, desde lutas clandestinas numa cadeia corrupta, até laboratório de drogas, tentativas de assassinato, tudo tem o dedo do sujeito, que por ser rico consegue o que quer com facilidade.

Esse tráfico de drogas que assolou Riverdale foi outra ideia mirabolante que não souberam dar o famoso limite e coerência. Na primeira temporada havia sido apresentado as drogas fabricadas pelos Blossom e a forma como ela foi introduzida e contextualizada fez sentido e foi boa, até a conexão com o Hiram eu diria ok. Nessa temporada existiam cerca de três novas drogas inventadas, cada hora aparecia uma diferente com efeitos que desconhecíamos, e era perseguição para conseguir encontrar quem as estava produzindo e vendendo – sendo constantemente alterado de mão em mão. As drogas iam do convento de falsas freiras até os corredores da escola e poucas pessoas estavam de fato preocupadas com isso, sendo elas todas adolescentes – adultos o que tenho a ver? Era irritante a falta de linearidade da narrativa das drogas, culminando num final mal explicado. Fora o fato que a série não deveria ser sobre tráfico de drogas malucas feito por adolescentes mascarados e domínio da boca de Riverdale!

riverdale jones family

Isso nos leva a família Jones. Nessa temporada finalmente conhecemos Gladys e Jellybean, e a introdução das duas foi bem legal e empolgante. Esse é o núcleo que tenho menos críticas, porém o foco delas é o mesmo dos demais: falta de correspondência dos personagens. FP Jones era o rei serpente, um grupo muito valorizado pela série, que se metia em encrencas, mas evitava ficar longe de crimes pesados. O cara teve ali um histórico complicado, mas estava buscando a sobriedade e ter uma relação bacana com o filho, Jughead. Porém, ele é o líder de uma gangue que se tornou um molenga da noite para o dia, não uma boa pessoa, uma pessoa estúpida. Estragaram um dos melhores personagens, meu FP.

A relação dele com Alice foi ignorada, a mulher se meteu num culto maluco e ele nem atrás de perguntas foi. Teve que dar cobertura para o filho que se assumiu rei serpente sem a competência necessária e acabou com a gangue que ele liderou por anos. Ele vira xerife como margem de manobra, se mete numas ciladas desnecessárias e, para coroar, não percebe que a mulher está chefiando o tráfico de drogas na cidade. O relacionamento de FP e Gladys ninguém até hoje entendeu o que aconteceu, nem se eles se gostam realmente. A filha novinha apresenta resistência com o pai que não via a uma cara, mas depois isso é ignorado. FP foi de líder serpente para xerife figurante em questão de episódios. Essa doeu.

riverdale serpents

Agora, os Serpentes, nossa gangue que está morta. Jughead foi o pior líder possível, permitindo que o grupo se dissipasse e morresse. A gangue que colocava medo em Riverdale e era composta por adultos e adolescente marginalizados, os adultos misteriosamente sumiram, ficando só meia dúzia de jovens. Dentro desses jovens, o Jug os manipulava para se meter numas roubadas que ele achava que estava certo. Não contente, ele expulsou a Tony (antiga e importante membro que dedicou a vida àquilo e salvou a vida dele) e a Cheryl por um motivo que não cabia no momento – visto que passou a mão na cabeça do Fangs, seu amigo. Jug usou o grupo como uma espécie de força policial fracassada para ir atrás dos traficantes de drogas ou fazer a segurança da boate da Verônica. Nenhuma das opções é legal. O grupo morreu.

Pegando a deixa do Fangs, vamos falar da forma misteriosa que ele apareceu na Fazenda. O personagem um dia era Serpente, no outro, da Fazenda, sendo que ele nunca conversou com ninguém a respeito – Sweet Pea ficou tão desnorteado com tudo que fugiu da série. A namorada do Jug estava investigando o local, ele sabia que era uma coisa estranha, mas não se deu ao trabalho de perguntar para o cara, que o desobedeceu e nem devia ser mais Serpente, na real. Além da figuração do Fangs nos grupos, ele é surpreendemente gay e estava lá com o Kevin. Surpreende, pois, a cena dos dois, e o repentino casal é um dos maiores queerbaiting de Riverdale, que, infelizmente, tem muito.

riverdale kevin keller

Kevin fica desolado ao perder o namorado secreto, Moose, e, nesse desamparo e sem a ajuda de qualquer amigo, pois Betty estava ocupada demais com sua obsessão e o roteiro resolveu cagar para essa fabulosa amizade perfeita, ele se junta a Fazenda. O único problema é que Kevin tem um pai, Tom, que não parece nada preocupada com o fato aparente do filho não morar mais em casa (?) e ter mudado de roupas e amigos do dia para a noite. Esse é um ponto mal trabalhado e confuso na série: as pessoas moram na Fazenda, ou vão para casa? Não fica claro, e fica absurdo que Kevin não tenha conversado com seu pai a respeito, que, parece, estava muito ocupado treinando Archie, o boxeador, para notar a ausência do filho.

Os dois tinham um relacionamento super bacana no começo, era difícil para o pai se aproximar do filho gay, mas ele se esforçar, e tinha toda a ausência da mãe, enfim, um personagem profundo. Porém, toda a trama da família Keller é superficial, desde o casamento do pai até a filiação do filho na Fazenda é mal trabalhada e não fica clara para o expectador, que não se envolve com a história pois tem perguntas básicas demais não respondidas. E não é à toa que bato na tecla dos pais, mas porque isso foi introduzido na primeira temporada, aprofundado na segunda e começado na terceira com o episódio de flashback – se a relação das gerações é tão importante, porque ignorá-la?

riverdale prom

Para concluir o post mais pistola que já fiz, os episódios finais foram a cova que eu vi sendo cavada. Primeira palhaçada: Jason Blossom! O menino morreu na primeira temporada, e começam a levantar essa bandeira de “será mesmo?”, ruim, desnecessário, recurso narrativo pobre – queria chocar a audiência e nos fazer de palhaços, ofensivo. Depois a Penélope revela todo seu plano maligno, dá para entender o sentimento da doida vilã de Scooby Doo, mas Hal Cooper e Chic foi abusar da boa vontade. Um serial killer manipulado que quer matar a própria filha? Além de que os motivos usados para o persuadi são conflitantes com a real motivação dele apresentada na temporada passada – de novo, a polêmica pela polêmica. Por fim, Chic, que pintou o cabelo de laranja e virou Jason, não se dando nem ao trabalho de abrir a boca no episódio e protagonizando cenas patéticas de luta.

Foi dito e insinuado durante a trajetória que as temporadas estavam conectadas, e de fato tudo isso foi apresentado na abominável cena do jantar, porém não é porque isso aconteceu que significa que o roteiro e os fatos foram inteligentes. Eles mesmo perceberam que chegaram no absurdo quando colocaram o Jug para explicar toda a relação e tudo que estava acontecendo, escancarando um roteiro que não teve a capacidade de construir adequadamente aquele cenário – o personagem expor as coisas é fraco. Num roteiro bom, os fãs seriam capazes de prever isso chegando com consistência, fatos expostos e não com fotos de ator em set de gravação, e não precisariam de explicação detalhada e um dos piores diálogos da TV! Eu acho, sim, que faz sentido ter sido a Penélope desde o começo com essa ideia, porém o envolvimento com as drogas é mal explicado e o mal desenvolvimento da sua personalidade comprometem a experiência e o envolvimento.

riverdale edgar evernever

Agora, a Fazenda já é outro nível de cagada. Tráfico de órgãos? Jura mesmo? Se isso não foi feito para chocar a audiência com uma coisa macabra e pesada, eu não sei o que foi. Saímos de bebês voando na fogueira (sem explicação), para pessoas usando branco hipnotizadas, para operações e venda ilegal de órgãos de pessoas que não sabem estarem sendo operadas. Tudo isso liderado por Edgar Evernever, a maior promessa não cumprida da temporada. Colocar tráfico de órgãos numa série que era só adolescentes xeretas querendo desvendar crimes da cidade é apenas horrível. Pior de tudo isso é que isso vai ser arrastado para a próxima temporada, que promete isso mais a trama horrorosa do Hiram contra adolescentes e filha. Não vejo com bons olhos o futuro do que, um dia, foi minha amada e idolatrada Riverdale.

A série termina com inúmeras pontas soltas, o que não é legal visto que houveram 22 episódios e, com essa conclusão, poderiam ser apenas 8, dado o baixo nível de evolução de que a história e os personagens tiveram. A série se perdeu na quantidade de coisas que foi introduzindo e não sabia como resolver: bebês flutuando no primeiro episódio; água intoxicadas que só causa convulsão nas meninas; o diretor da escola faz parte da Fazenda e está ausente; amante do Hiram que apareceu em um episódio e puft; Ethel que é uma adolescente que se teletransporta para o local onde é necessária; os Serpentes e as Pretty Poisons que ninguém sabe a que pé estão; enfim, uma imensidade de questões que não são ganchos para a próxima temporada (já confirmada), são apenas mal resolvidas.

riverdale friendshipe

É claro que a temporada teve bons momentos, coisas legais e tal, mas, quando olhamos de forma geral, não foi boa. Os roteiristas estavam dopados de fizzle rocks quando escreveram essa história que, simplesmente, não funciona. As expectativas eram imensas para todo esse lance de Rei Gárgula e RPG do mal, mas tudo se transformou numa grande ferramenta de tráfico de drogas nada sombria. As referências, números musicais e tudo foram incríveis, mas mal aproveitados, imersos em constantes críticas de queerbaiting (melhorada com Choni decente) e de uma narrativa que seguia um caminho incongruente com o originalmente proposto e descaracterizava seus personagens. Para criar uma história que chocasse a audiência, com revelações bombásticas e situações impossíveis, eles sacrificaram sua essência, dividiram os quatro amigos principais que amamos juntos. Riverdale, vamos fingir que essa temporada não aconteceu, e você promete que vai repensar para a próxima? Dá tempo!

PS: não me xinguem nem me odeiem! Quero trazer mais conteúdo de Riverdale (não falando mal, prometo).

2 comentários

  1. Parabéns pela crítica. De fato, fiquei bem descontente com a mudança evidente das emoções e característica dos personagens, como por exemplo a relação dos pais com os filhos ficou algo superficial… foi uma temporada muito intensa, não tínhamos tempo pra processar os acontecimentos que já surgia outro. E esse rei gárgula, ao meu vê nem era pra existir, pois ja que sabiam que era apenas uma pessoa usando um figurino, por que não o prenderam, e acabava de vez com essa palhaçada?! No mais, me diverti em algumas cenas, agora vou maratonar a 4º temporada,

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