She Ra é pura militância desde 1980

O problema do Brasil é falta de She-Ra e eu posso provar! A icônica animação dos anos oitenta teve um começo questionável, entretanto, logo mostrou sua importância não apenas na cultura pop, mas nas mensagens colocadas no imaginário das crianças da época. A Princesa do Poder abordar discussões mais profundas do que sugere a primeira impressão.

A história de She-Ra começa com seu gêmeo, He-man. A heroína, aos moldes do irmão, foi criada apenas para vender bonecos, uma vez que o protetor de Grayskull foi idealizado como um Conan genérico, sendo a animação um acessório para incrementar o faturamento. A Princesa do Poder, inicialmente, existia para suprir uma demanda das garotas por uma personagem feminina no universo de He-Man e pela contínua queda nas vendas da colega de empresa, Barbie. No entanto, com um orçamento maior do que o irmão, a animação de She-Ra foi melhor desenvolvida, se desprende de He-Man conquistando sua trama própria, e apresenta uma história política que conversa com todos.

Adora, a irmã raptada de Adam quando ainda bebê, cresce no planeta de Etéria, no QG da Horda. A menina desde criança recebe treinamento militar e é criada com a intenção de ser o braço direito de Hordak, o líder do grupo. Destaque da equipe, Adora acredita fielmente nos ensinamentos da Horda, que diz estar libertando Etéria e construindo uma civilização mais justa, desenvolvida, e tudo mais. Quando conhece Adam (seu irmão) e recebe a espada mágica que a transforma em She-Ra, Adora é exposta a uma outra verdade: a Horda é maligna, está explorando os recursos naturais de Etéria, escravizando e oprimindo a população, e matando os líderes que ali residiam para adquirir a fonte de poder deles.

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Logo no filme de apresentação da personagem já somos introduzidos nesse discurso político que mostra os males da doutrinação e manipulação por um grupo de pessoas que deseja colonizar e dominar os povos originários dos lugares. E, claro, na história da animação rola toda uma feitiçaria por arte de Sombria para conseguir inibir os pensamentos de Adora, mas isso só ilustra como pessoas ingênuas e desavisadas correm o risco de cair num papinho de opressor, adormecer o senso crítico e questionador das coisas, e realizar ações das quais não sabem realmente as verdadeiras motivações e consequências. She-Ra é uma trama sobre ditadura, regimes totalitários, opressores e dominadores, colocando, dessa forma, o mal em perspectiva e ilustrando como narrativas distorcidas podem envolver até as melhores pessoas.

Com o senso crítico ativado e tendo conhecido o outro lado da história, Adora passa a questionar e ver tudo o que acreditou a vida inteira com outros olhos. Os seus, até então, inimigos tornam-se amigos e apresentam um movimento de resistência contra os ataques da Horda. Os Rebeldes da Floresta do Sussurro introduzem Adora a uma Etéria que a personagem desconhecia, mostrando que ali existiam Rainhas e Princesas protetoras do reino, poderosas, e que eram fundamentais para o funcionamento do ecossistema local. Inevitavelmente, a heroína se junta a esse grupo e cria uma história onde os bonzinhos são um grupo clandestino, perseguido, que tenta expulsar os colonizadores vilões do seu planeta. A narrativa, ainda que seja o clichê de bem versus mal mega polarizado, é contada em um contexto diferente, onde o bem é uma minoria resistente num mundo dominado por exploradores impiedosos.

Eu amo que She-Ra mostra para as crianças a importância de ser rebelde, de fugir das amarras do sistema, de olhar para os locais com empatia e absorver a riqueza natural e cultural de cada lugar. Abrindo um enorme parêntesis, é impossível não relacionar essa origem da heroína com as influências de Guillermo Del Toro: um defensor assíduo da rebeldia, do questionamento, do confronto de ideias de opressão militarizada. Contrariando o atual presidente do país, She-Ra é uma animação que cria, sim, militantes e mostra a importância de se estar nessa posição, de colocar em cheque os status quo e olhar para fora da bolha que foi construída ao seu redor.

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Após o filme de origem e de Adora já ser integrante dos Rebeldes, os episódios, apesar de seguir um fórmula pronta (e previsível), procuram quase sempre trazer mensagens muito importantes relacionadas a diversos temas. Vários capítulos têm esse viés político, abordando assunto como a liberdade de expressão e os males da ganancia, mas temos também tópicos advertindo sobre bullying, assédio sexual, amizade, entre outros. Embora o desenho trabalhe com roteiro bem explícito, de forma que os diálogos fiquem até truncados, o valor que os criadores dão para os ensinamentos de She-Ra é tanto que, ao final de cada episódio, a heroína faz questão de destrinchar a mensagem e falar de forma clara e incisiva o que quis passar com aquela aventura (vamos ignorar a hipótese de preencher o tempo mínimo do capítulo para exibição na TV haha).

A existência política de She-Ra vai além e traz a frente uma das primeiras animações protagonizadas por uma heroína poderosíssima! O alter ego de Adora já é representativo por si só, e as vendas de suas bonecas mostram o quanto as garotas ansiavam por se enxergarem como uma heroína forte, justa e plena. Porém She-Ra é mais do que isso. A Princesa do Poder não se apresenta como uma entidade superior e busca salvar pessoas pontualmente em suas missões, ela precisa da ajuda de todos que puder. Além de ser colaborativa e inteligente (pois faz muitos bons planos), ela incentiva os meros mortais oprimidos pela Horda a lutarem, a se colocarem, a não abaixarem a cabeça – She-Ra ajuda a comunidade e a empodera também, mostra que existe um caminho na resistência! A heroína sabe que a força não está apenas nos seus braços, mas, principalmente, no coletivo – não age sozinha como é o padrão de heróis masculinos, mas em conjunto!

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Outro ponto muito legal do desenho é a existência de outras princesas poderosas. No reboot de She-Ra lançado ano passado na Netflix isso é melhor explorado, porém Etéria era governada por mulheres mágicas incríveis antes da dominação da Horda. No maior estilo “homens o que tenho a ver”, as garotas são fortes, destemidas, põe a mão na massa e resolvem a situação – ou não, no caso de Sombria, Scorpia e Felina, mas elas tomam as rédeas da situação anyway haha. Essa massiva presença feminina cria um brilho ainda maior ao redor da animação que veio para quebrar padrões real. Os homens, além de serem a esmagadora minoria, são diferentes – Arqueiro, best de Adora, é o mais fraco do role, normalmente precisa ser salvo, é sensível e o alívio cômico, por exemplo. She-Ra é um desenho que introduz o feminismo a meninas de forma enfática – ela não utiliza de palavras vazias, mas mostra em cada ação o poder da união das garotas e suas capacidades.

Para o final guardei o melhor. O que faz She-Ha ser incrível não é o fato de ser uma mulher enorme, feminista, inteligente, dos cabelos compridos e sedosos, com uma espada mágica que faz literalmente tudo e tem o clássico poder da super força, mas …. seu UNICÓRNIO. Isso mesmo, o brigadeiro do bolo (porque não gosto de cereja) é Ventania que, assim, não é “só um unicórnio”, mas um que voa, fala e joga raios do seu chifre – ou seja, perfeito. A Princesa do Poder tem toda uma relação com os animais que prova que a equipe sabe do que seu público-alvo gosta, amarrando tudo isso com o unicórnio que cria uma magnitude!

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Além todo esse esplendor, She-Ra é uma animação muito anos oitenta, desde a abertura que remete a música de vídeo-game na pegada Atari, até as transições toscas, os personagens inexpressivos e iguais e as mil cenas repetidas a exaustão da transformação de Adora. Mas o mais legal é, sem dúvidas, as cores e glitters. She-Ra é extremamente colorido, cheio de arco-íris, flores e tudo que se tem direito, e isso é colocado em contraste com os domínios da Horda, que são escuros, com cores sóbrias e com muito preto e cinza. A animação sintetiza toda sua mensagem contra o mal por meio das cores, porque o caminho certo é sempre o colorido, e todos devem se vestir de cores mil! É muita cultura LGBT visualmente, e fica claro que os símbolos atuais desse grupo beberam bastante da fonte mágica da Princesa – apenas maravilhoso.

She-Ra é uma animação perfeita? Longe disso! O desenho conta com algumas ideias antiquadas e machistas, zero representatividade fora do padrão branco, magro, heterossexual – incluindo uns romances bleh. É uma evolução bacana dado o contexto de 1985, mas ainda muito aquém de suas possibilidades. Somado a isso, tem toda a questão técnica também que deixa muito a desejar, porém, nos 90 episódios produzidos em 2 anos, é uma série que tem sua luz e que busca romper com padrões. AND, é com muita alegria que digo que o reboot de 2018 é incrível, muda o que precisava, atualizando muito a série sem perder sua essência – She-Ra e as Princesas do Poder (no plural agora) é zero defeitos e terá sua segunda temporada lançada agora, no dia 26/04/19 – e já me encontro prontíssima para assistir, comenta aqui se vocês querem review!

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E o que o Brasil tem a ver com a She-Ra, você pode estar até agora se perguntando. Bom, com o momento atual de intolerância, culto a ignorância, abraçando a própria bolha e assumindo uma única verdade como absoluta, eu diria que tudo a ver! Em tempos de opressão, diminuição da cultura e história alheia, ideias machistas, conservadoras e individualista, She-Ra mostra a importância de se unir, de militar, de questionar o sistema em que se está inserido. A super heroína mostra a riqueza da natureza, a importância de viver em harmonia com ela e com as diversas comunidades que enxergam o mundo de uma forma diferente.

Se as pessoas tivessem assistido mais a She-Ra e se inspirado na história de Adora, prestando atenção no que a série tinha a oferecer, estaríamos num lugar mais tolerante e justo! Mas nunca é tarde para isso, não é mesmo? Então espalhe a palavra de She-Ra: monte no seu unicórnio e empodere os oprimidos, se rebele contra a dominação e injustiças, olhe com empatia para as dificuldades dos próximos e assume que a luta de uma minoria por melhores condições é a sua também! Questione sempre – e, mulheres, We Run the World! (e você pode assistir e indicar a nova versão que está na Netflix).

PS: Escrevi o texto inteiro como She-Ha para descobrir que, na verdade, é com R e não H – sigo muito confusa.

2 comentários

  1. Não tenho palavras para descrever o quanto estou extasiada por este texto! Trabalho empoderando mulheres e hoje, decidi que She-Ra será a minha musa inspiradora! Ao procurar mais sobre a história dela na internet, encontrei seu texto. Obrigada! Obrigada! Obrigada!

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