O Date Perfeito – O polêmico encontro com o crush atual | Crítica

Depois de viver alguns mocinhos destinados a ser o crush do expectador em filmes teens, Noah Centineo ganhou o seu próprio longa! A Netflix tem tido um papel fundamental na nova ascensão das amadas rom com (comédias românticas), e garantindo seu espaço nesse gênero, há alguns anos esquecido. Mas será que o recente queridinho astro teen estava pronto para o protagonismo?

Em O Date Perfeito vamos acompanhar Brooks Rattigan (Noah Centineo), um jovem ambicioso que tem o sonho de mudar o mundo, inspirado em seus ídolos como Steve Jobs, e, para isso, deseja ingressar na faculdade de Yale. Porém, como para quase todos nós, tem a questão do empecilho financeiro. Até que surge a oportunidade de ser um “acompanhante de aluguel”! A ideia veio da sua primeira cliente, Celia Lieberman (Laura Marano), um job que apareceu ao acaso. Com a ajuda do seu melhor amigo, Murph (Odiseas Georgiadis), os dois criam um aplicativo no qual pessoas podem contratar o serviço de Brooks para fingir ser um namorado, um acompanhante, ou o que você precisar para um momento especifico.

Baseado no romance The Stand-In, escrito por Steve Bloom, que também assina o roteiro, o longa segue à risca o checklist de clichê adolescente, não tendo um só momento espontâneo ou de surpresa. O roteiro é super engessado, e, apesar de saber onde quer chegar e a mensagem que quer passar, não consegue sair da superfície, e tudo isso acaba sendo raso. A história é fechadinha, mas pouco envolvente, e isso se dá pela falta de empatia que sentimos com os personagens, ou com a situação toda em si.

O filme começa com a professora de Brooks dizendo a ele que, embora seja o garoto perfeito para a universidade de seus sonhos, em sua aplicação falta personalidade, falta conhecer quem ele é de verdade, e isso vai acompanha-lo pelo filme inteiro. A partir daí era de se esperar que fossemos realmente conhecer o personagem, mergulhar em seu interior e na busca da sua identidade, mas não é o que acontece. A sensação ao final é que nem nós, nem o próprio Brooks sabe direito quem ele é. O seu arco é fraquíssimo, e a transformação não é convincente nem efetiva – principalmente porque a sensação é de que o personagem não entendeu nada sobre a sua jornada no filme, e tudo foi resolvido de uma maneira fácil, que não exigiu muito dele (cadê o drama?).

Noah Centineo in The Perfect Date (2019)

Noah Centineo faz o que sabe fazer de melhor: ser um galã teen simpático, divertido e incrivelmente charmoso. Sua atuação não se destaca em nenhum momento, e parece que está simplesmente sendo ele mesmo. Não culpo o ator pois, o roteiro é realmente ruim e dificílimo trabalhar com um personagem que tem tão pouco a ser desenvolvido e explorado. Tudo fica com pouca personalidade, o que complica o seu envolvimento com a trama e sua solidarização com os dilemas do rapaz.

Como o protagonista tem um desenvolvimento fraco, não era de se esperar que os demais fossem se safar dessa falha. Murph ilustra o que parece ser o novo clichê do gênero: o melhor amigo gay e negro. Isso torna inevitável a comparação com Eric Effoing (Ncuti Gatwa) de Sex Education. Mas ao contrário do ícone de personagem construído na série, com seu próprio arco e desenvolvimento, Murph não tem função prática na história a não ser servir o protagonista, algo que o próprio chega a contestar na história, mas jamais é devidamente trabalhado. Sua cor ou orientação sexual não chega a ser um tema ou uma questão, o que faz questionar a relevância dessa escolha fora dar um ar cool a Brooks e soar inclusivo – quando, na real, o mote ainda é heteronormativo e branco.

Existia mil oportunidades dessa diversificação carregada nas costas de Murph ser melhor explorada, mas parece que o personagem está ali apenas para cumprir “uma cota” de representatividade exigida pelo público atual. Todos os dates contratado de Brooks são garotas, brancas, heterossexuais, ou seja, em nenhum momento cogitou-se brincar mais com esse aplicativo e trazer vivencias diversificadas para a história e para o personagem. Além de toda essa questão, existe também a forma como as mulheres são retratadas no filme.

A premissa de mulheres contratarem um cara para acompanha-las a bailes de escola, fazer ciúmes no crush, chocar os pais e tal é algo ultrapassado e que traz a sensação de filmes dos anos 80 num sentido negativo – é uma visão muito masculina e estereotipada das meninas adolescentes. Celia é a típica menina rebelde que fala umas verdades na cara, mas sensível e delicada por dentro, divertida, que quer ser diferente “das outras garotas” mas acaba seguindo o mesmo padrão que elas (especialmente físico). A personagem está ali para desenvolver o protagonista e tentar contribuir para a mensagem do filme, o que torna tudo ainda mais irônico, visto que a sua composição contrapõe tudo o que o roteiro tenta pregar. Entretanto, Celia é um dos pontos altos do filme, e me pergunto se Laura Marano está recebendo a devida assistência depois de carregar o longa nas costas.

O filme procura se apoiar em diálogos divertidos e cheios de referência da cultura pop, o que torna a relação dos personagens mais dinâmicas, e, independentemente de eu ter acabado com a construção deles, a química entre os atores é muito legal fazendo a interação entre eles fluir bem. No entanto, a direção, direção de arte e trilha sonora contribuem para que o filme seja genérico e sem personalidade, como os personagens haha. Ambientado no universo de adolescentes ricos com as típicas “fancy house parties”, nada acrescenta muito a identidade do filme, que, também, se apoia bastante  em sucessos como The Man do The Killers, mas que fica genérico e destoante das demais  músicas – diferente de Para Todos Gatoros que tem uma rilha sonora fantástica, harmônica e que contribui com a construção da sua identidade.

De forma geral, O Date Perfeito é um amontoado de clichês típicos de filmes teens, que não consegue se destacar (e aprofundar) em nenhum aspecto, se tornando genérico e esquecível. O roteiro e a direção são muito fracos, e, de certo ponto, insensíveis com as demandas atuais do gênero. Representatividade não é só colocar personagens tido como minorias, mas sim explorá-los e dar arcos decentes a eles, assim como a construção de personagens femininas complexas e com personalidade que não funcionem apenas para levar o protagonista masculino do ponto A ao B. Isso, por sua vez, também não ocorre, já que terminamos o filme sem conhecer, ainda, quem realmente é Brooks Rattigan.

O longa busca discutir questões muito presentes na vida dos adolescentes, mas não consegue abordá-las de forma satisfatória, e, no final, pouco se foi dito a fim de gerar uma mensagem com o mínimo reflexão. As relações são todas superficiais, tanto de Brooks com os amigos, quanto com o pai, e isso evidencia a falta de evolução do personagem. São uma hora e meia que se tornam levemente cansativa e que pouco acontece. Com muita tristeza no coração digo que o filme aproveita muito mal os seus talentos, e aqui um destaque especial para Camila Mendes, personagem que destoa do filme e única que realmente apresenta um contraponto ao protagonista, mas, para novidade de ninguém, também é extremamente mal explorada. Sinto muito, pessoal, mas acho que esse filme vocês podem passar – um entretenimento nhe.

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