[Crítica] – Carmen Sandiego: cuidado! A maior ladra voltou, e pode levar algo muito precioso

Estamos vivendo a fase dos remakes, em tempo nos pegamos perguntando: será que é mesmo necessário recontar essa história? No caso de Carmen Sandiego posso afirmar que sim! A ladra que viaja o mundo comentando os mais loucos roubos voltou mais atual do que nunca, e agora com maior profundidade e magnitude.

Minha história com Carmen começa nas aulas de informática do ensino fundamental I. Naquela longínqua época não existia internet nas aulas (e praticamente na vida haha) e os alunos usavam o computador enorme e lento em duplas. Alguns desses computadores tinha instalado o jogo “Onde no mundo está Carmen Sandiego?” e era o favorito da maioria. Nele, nós éramos detetives que tínhamos que encontrar a ladra que viajava pelo mundo, e durante essa perseguição, as pistas eram quizzes de geografia. Era fantástico e guardo com carinho esse universo desde então, mesmo a lembrança do jogo ser meu turva. E com essa bagagem e motivação fui assistir ao lançamento da Netflix.

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Os jogos foram a origem da ladra, tendo o primeiro lançamento em 1985. Os responsáveis pela concepção da personagem foram Gene Portwood e Lauren Elliott – ex funcionários da Disney que queriam criar um jogo educativo de geografia para crianças. Em 1985 foi lançada a animação, mantendo o título Where in the World is Carmen Sandiego?, que, depois de inconstâncias na produção, encerrou em 1999. Eu nunca assisti a animação antiga (não que me lembre) então não posso comparar, só fiz uma pequena pesquisa para entender e contextualizar.

Vinte anos depois do fim, temos o remake. Nele vamos acompanhar a jovem adulta Carmen Sandiego. A menina órfã foi encontrada em Buenos Aires pela agência de vilões V.I.L.E. e criada por eles isolada do mundo na ilha sede da empresa. Ao espionar os por menores da agência e descobrir os planos de seus amigos, a garota decide abandonar o único lugar que conhece e se dedicar a sabotar a corporação. No entanto, a animação é bem mais que uma corrida de gato e rato com insertes educativos sobre história e geografia! Ela atinge todos os públicos, com uma história surpreendente e pautas atuais.

Duane Capizzi, o idealizador do remake não teve medo em mexer na história antiga e aprimorá-la. O foco da nova animação não é desvendar os casos, mas a personagem que dá nome a série. Dessa forma, Carmen é muito bem trabalhada e desenvolvida. Nos dois primeiros episódios acompanhamos um flashback da vida dela sob a sua própria perspectiva. E ao longo de todas as aventuras sempre conhecemos Carmen melhor, algum aspecto da sua personalidade. Ela é jovem adulta órfã que fugiu de casa, então tem muitos assuntos mal resolvidos com seu passado. Além disso, Capizzi transforma Carmen em uma espécie de Robin Hood que rouba dos vilões e devolve o dinheiro ou objetos preciosos de volta ao seu lugar. Nas mãos dos roteiristas, a personagem ganha uma dimensão maravilhosa, você a entende e se envolve!

Aqui gostaria de acrescenta um PS fora de hora: apesar de ter amado o flashback da Carmen, que além de introduzir muito bem a personagem, contextualiza toda a trama e a V.I.L.E., eu teria optador em diluí-lo nos episódios. Começar uma série de detetive sem investigação, com dois episódios relativamente longos sobre o passado de uma personagem que mal conhecemos é meio puxado e pode dar a impressão errada ao expectador. Então eu já aviso que o modelo de narrativa desse começo é bem diferente do restante da série, que mistura aventura pontuais, introdução de personagens e pitadas de uma história maior.

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Apesar do grande foco ser a Carmen, os demais personagens são tão interessantes quanto. Não existe o trabalho de construção e profundidade como a protagonista, mas todos funcionam muito bem e cumprem sua função. Acredito que isso se dá pela série ser contada do ponto de vista de Carmen, e a ausência de background dos demais personagens não prejudica a narrativa. A V.I.L.E. é outro elemento muito bem desenvolvido, tem uma premissa “agente secretos super vilões” muito interessante que é impossível não se divertir! Além disso, temos vários gadget divertidos e extremos, coisas cientificas impossíveis e todo o checklist de um bom desenho e história de espionagem!

A animação ainda não hesita em levantar a sua bandeira feminista. Praticamente todo personagem masculino é usado como alívio cômico, atrapalhado e confuso, enquanto quem realmente tem posição de poder são as mulheres. Carmen é a melhor ladra do mundo, dos cinco líderes da V.I.L.E., três são mulheres, a melhor aluna da escolha e arquinimiga da protagonista é a Tigresa e, por fim, a Chefe da ACME (agência ultrassecreta de detetives) é uma mulher negra!

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A mensagem fica ainda mais clara na dupla policial Agente Devineaux e Julia Argent. Ele é a imagem de um machismo prepotente que se recusa a dar ouvido a sua parceira, e o resultado disso são fracassos e humilhações. Enquanto assiste aos erros e arrogâncias de seu superior, a moça consegue descobrir os paradeiros de Carmen e traçar um perfil correto da moça! Os dois protagonizam um dos plot mais divertidos e nada sutis.

Outro ponto muito legal que a série trabalha é a noção de amizade. Carmen não trabalha sozinha, ela está sempre sincronizada com sua equipe composta por Player, um adolescente hacker, e por Ivy e Zack, dois irmãos que a auxiliam em campo. O relacionamento dos quatros é uma fofura, e, durante a missão todos tem a sua função e importância estabelecida – é uma aula sobre trabalho em grupo e aproveitar a habilidade de cada um! Nessa conta ainda temos Carmen e Gray, que desenvolvem uma parceria bacana nos tempos de escola. E podemos ainda associar a relação de Devineaux e Argent como consequências da falta de respeito para com seus coworkers, resultando em fracasso e atrapalhadas.

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Por fim, queria destacar outro tema delicado e sutil que a animação toca: a criação de uma criança. Carmen foi criada pelos maiores vilões do planeta, mas, como criança, as noções de certo e errado ficaram nebulosas em sua cabeça. A menina não via roubar como algo errado, pois era incentivada a isso e fazia parte do seu cotidiano, era um jogo. Fora isso, temos também uma menina adotada que não conhece seu passado e tem uma relação conflituosa com as pessoas que a criaram. Tudo isso é obviamente muito delicado, e assim é abordado na série, que sabe trazer essas questões à tona sem julgamentos ou condenações!

Eu assisti a maioria dos episódios em inglês, pois conta com a voz da Gina Rodriguez (Jane, The Virgin) como Carmen, e do Finn Wolfhard (Mike, Strange Things) como Player – as outras vozes eram muito legais também, e a maioria dos dubladores correspondem aos seus personagens, achei significativo. Porém, a dublagem brasileira é incrível e não deve em nada a original, indiferente o idioma que escolher.

Deixei o melhor para o final, a arte da animação: perfeita zero defeitos. Ela é linda, dinâmica, os personagens são expressivos, consegue passar a atmosfera de cada canto do mundo, é colorida e diferente. É uma linha fora da curva em animações, o traço, as movimentações e cenários, o que dá todo um charme a série. Impecável, confere originalidade, identidade e é mais um motivo para você não perder essa obra de arte.

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Carmen Sandiego é uma animação espetacular, e não é a toa que recebeu 100% de aprovação da crítica no rotten tomatoes. Conta com um roteiro bem pensado, história complexa, mas fácil e leve de se acompanhar. A protagonista é latina, nossa vizinha, e é evidente a preocupação da série em ser inclusiva! Uma animação visualmente fantástica com uma dublagem divertida e eficiente! Ainda temos as inserções de curiosidade de cada canto do mundo que a Carmen conhece, as aulas de história e geografia continuam presentes haha. É um remake sensacional, que eu amei assistir e eu recomendo para pessoas de qualquer idade. Eu sou suspeita pois amo animações, mas você que não tem esse hábito: para de preconceito e dá uma chance para Carmen roubar seu coração (parei!).

Dica: a abertura é incrível, não pulem!

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