Maniac é tipo “alguma magia cerebral multirealidade”

Imagina um seriado que é uma mistura de Inception com Matrix. Pois é, isso foi o mais perto que consegui chegar para explicar Maniac, nova minissérie da Netflix. Ela é uma loucura só e, vai explorar os gêneros narrativos e a psicologia de uma maneira pouco trabalhada anteriormente.

A série estrelada por Jonah Hill e Emma Stone conta a história de Owen e Annie, respectivamente. Os dois são voluntários para participar de um teste de um novo medicamento/procedimento que promete desativar/melhorar seus mecanismos de defesa – ou, em outras palavras, curar permanentemente todos os seus problemas de saúde mental (eu amo esse tema). Durante esse teste de três dias, os participantes ingerem uma droga por dia (A, B e C), que representam etapas do processo de cura. Essas drogas jogam os protagonistas numa viagem afim de explorar vários cantos do seu subconsciente enquanto desperta os seus maiores traumas que as pessoas fizeram tanto esforço para esconder no fundo da mente. Apesar de ser basicamente isso que acontece na série, essa sinopse não dá uma real noção de tudo que ela transmite, da experiência que é assisti-la.

Owen Milgrim é o filho casula de cinco meninos, e vive a sombra dos seus irmãos, principalmente Jed – o Golden Boy da família. No primeiro episódio vamos acompanhar por cima como está a vida de Owen antes de ele tomar a decisão de participar do teste farmacêutico. Ele sofre de problemas psicológicos, teve um grande surto, e, apesar de ser de uma família nova yorkina abastada, faz o máximo para evita-los, eles, por sua vez, não parecem se incomodar muito com isso também – Owen é a ovelha negra. É nos detalhes que vamos percebendo como funciona toda essa dinâmica – como no quadro da família que ele está ao fundo e a história do falcão. No momento que os conhecemos, Owen precisa mentir no tribunal para salvar seu irmão de ouro. Owen tem dificuldade em diferenciar o que é real e o que não é e ouve vozes.

No segundo episódio temos o ponto de vista de Annie, que também está enfrentando um tempo difícil. Ela não consegue superar a saudade de sua irmã, que há uns anos não mora mais em Nova York com ela, e acaba se tornando dependente da droga A – essa que está sendo testada – e é assim que ela vai parar no laboratório. O destino de dos dois vai se interlaçar no experimento. Owen acredita que eles foram destinados a serem parceiros e Annie age com hostilidade num primeiro momento. Depois, quando eles se encontram nos sonhos induzidos pelo procedimento, ela começa a acreditar que talvez, isso realmente seja o destino. E a dinâmica dos dois protagonista fica mais intensa e complicada. 

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E nessa parte dos sonhos que eu digo que vem a semente de Inception. Os sonhos são os mais loucos possíveis, e vemos Owen e Annie vivendo uma vida de casados nos anos 1980 estrelando o que poderia ser um filme dos irmãos Coen sobre um Lêmure roubado. Ou os dois participando de uma conspiração chiquérrima nos anos 1930, em uma missão secreta. Uma fantasia medieval, uma família de gangster, ou um filme B dos anos 1950 sobre guerra fria com um quê de Dr. Fantástico. Por mais LOUCOS que esses sonhos pareçam, eles são cheios de simbologia, e é nessa loucura que vamos pouco a pouco conhecendo nos personagens, e tentando decifrar a bagunça emocional que são. Os dois não são narradores confiáveis de sua própria realidade, então, na confusão insana dos sonhos é onde vemos suas características e histórias verdadeiras. É uma série onde Freud iria enlouquecer haha – é muito rica de análises semióticas, eu amo.

Eu acredito que ela seja relacionada a uma realidade alternativa à nossa. O universo criado é um futuro retrô – eles colocam elementos clássicos da ficção cientifica (principalmente nos detalhes) numa época que parece meio que hoje em dia. Ela foi roteirizada por Patrick Somerville (The Leftovers), e que trabalho incrível, complexo e detalhado. As referências a Kubrick não param no Dr. Fantásticos e se estendem à inteligência artificial chamada de GRTA, homenagem ao HAL. O design de produção de Alex Digerlando é minucioso, e cada mini detalhe importa e tem um significado – além de ser incrível e criar uma atmosfera própria.

Esse paradoxo temporal da série encontrado principalmente nos detalhes, as sátiras do nosso mundo e a falta de um cenário consistente e definido são o que ajudam a torna-la tão fascinante e nonsense. Eu já disse nesse blog que eu sou fã de uma coisa meio random, essa série entra completamente nessa categoria. Não só o visual dela é uma mistura de coisas, como o próprio gênero da série. No todo ela é uma série de drama, mas isso muda a cada episódio e temos um momento mais sci-fi, outro de fantasia, outro de espionagem e assim por diante. Ela troca de gênero com uma enorme facilidade, mas não perde em momento algum o controle da sua narrativa. Isso se deve ao trabalho excepcional de Cary Joji Fukunaga (também dirigiu True Detective), que consegue extrair o melhor do ambiente e do elenco. Destaque para um plano sequência surreal no nono episódio, gente, o que foi aquilo? Maravilhoso.

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Além dos nossos protagonistas, temos o núcleo cientistas da Neberdine Pharmaceutical Biotech (NPB), laboratório que está realizando a experiência – uma corporação enorme. Após um imprevisto durante o procedimento, Dra. Azumi Fujita (Sonoya Mizuno) se vê obrigada a chamar o Dr. James K. Mantleray (Justin Theroux) de volta ao comando do teste. Originalmente, ele foi o criador de tudo isso, mas foi afastado do projeto da sua vida. Ao decorrer dos episódios não fica difícil adivinharmos o porquê: o cara é um desses cientistas malucos e com grandes questões com sua mãe Dra. Greta Mantleray (Sally Field) – uma psicóloga famosíssima no mundo todo, e meio bizarra. Esse é um núcleo de SURPRESAS, por isso não irei comentar muito sobre – funciona como um alivio cômico, uma pitada de humor negro e, muitas vezes, o riso é de nervoso (não vergonha alheia, mas da situação ali gerada).

As atuações de Emma Stone e Jonah Hill estão excelentes, mas são diferentes. Stone consegue trazer Annie para todas as personas que interpreta nos sonhos – apesar de serem pessoas diferentes, nós enxergamos a Annie nelas, existe uma coesão muito presente e forte (parênteses para enaltecer a atuação da vencedora do Oscar, enfatizando o porquê é uma das referências da sua geração, deslumbrante). Já o Owen de Hill não apresenta essa constância de personagem, mudando muito de persona para persona. Isso pode ser tanto uma opção de atuação quanto relacionado a história. Minha interpretação: Owen está tão afundado na sua condição que não tem uma identidade além da doença, e percebemos isso na sua voz monotono e triste. Quando no universo dos sonhos, este está livre da sua doença, e assim podemos conhecer quem ele gostaria de ser o quem ele é de verdade e a doença inibe. Pois, apesar das manifestações externas serem diferentes, a doçura, as palhaçadinhas fofas, a ingenuidade, honestidade e força estão sempre presentes.

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Maniac é uma série sobre doenças mentais e consegue captar a realidade sobre sua condição: como elas isolam as pessoas que as têm, como pregam peças em seus cérebros e não podem ser curadas de uma forma simples com um método qualquer – e como às vezes as pessoas preferem se afastar e não enxergar, não se envolver, ao invés de ajudar de verdade (porque não é fácil). As histórias são desenhadas com um cuidado especial para as famílias – que é a origem do problema psicológico de quase todo mundo, porque é o primeiro universo que somos apresentados e, cá entre nós, todo mundo tem seus “Family issues” que levamos conosco e podem virar uma bola de neve de coisas mal resolvidas. Quando disse que a série ia fundo na psicologia, era disso que eu estava falando – ela vomita psicologia em vocês. Mas além de família, ela vai abordar assuntos como amor, luto, perda, destino, conexão e amizade. Acho que umas das coisas mais bonitas é como a série mostra que amigos se reconhecem, estão meio predestinados a se encontrarem e se ajudarem (muitas vezes fazendo o que a família não faz).

Ela é uma produção original Netflix no formato de minissérie, o que, nesse primeiro momento, significa que acabou ali, sem mais temporadas – mas tudo pode acontecer. Eu acredito que tenha muitas coisas que foram pouco exploradas nesse universo, principalmente porque eles as apresentam no pano de fundo. Apesar do final não ser tão original e surpreendente como a série vai se apresentando, ainda é muito bom e condizente com a narrativa – eu fiquei satisfeita, só queria mais mesmo. A série conta com 10 episódios de duração máxima de 45 minutos, mas esse tempo varia bastante por episódio – ela é experimental e diferentona até nisso! É uma das melhores produções da plataforma, e uma das minhas favoritas do ano até agora! Eu amei demais essa série, é um daqueles casos “feita para mim”. Vale o seu tempo investido, eu garanto – mas só se você curtir coisas meio loucas hihi.

M 3

1 comentário

  1. Que resenha maravilhosa, Thais.
    Eu terminei o último episódio ontem, e foi confesso que após a minha maratona de dois dias foi difícil me despedir da série da Annie do Owen, dois personagens que me cativaram do início ao fim. A atuação do elenco foi maravilhosa, Emma Stone brilha até dizer chega em TODAS as cenas que aparece, é impressionante!
    Eu curti a pegada da série, eu adoro esse clima de sci-fi, algo que eu não assistia muito antes, mas que com Black Mirror e Dark, eu comecei a gostar (e muito). Até porque, essas séries que envolvem conflitos e tecnologia, conseguem fazer nós identificarmos muitas dessas características na sociedade de hoje.
    O tema de doenças mentais também é algo que normalmente me interessa.

    Curtido por 1 pessoa

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