Mágico de Oz – a magia vem de você!

É curioso como, por mais que julgamos conhecer completamente algumas histórias, elas ainda são capazes de nos surpreender. Foi isso que aconteceu com O Mágico de Oz. Apesar de saber desde sempre o enredo, quando dei uma chance de realizar a leitura pela primeira vez, encontrei muito mais do que a simples narrativa de uma garotinha perdida.

Acredito que O Mágico de Oz é uma daquelas história que a gente praticamente nasce sabendo do que trata. No entanto, caso você não esteja familiarizado, nela vamos acompanhar Dorothy, menina órfã que mora em uma fazenda no interior do Kansas (que é tipo no meio do nada) com os tios e seu doguinho, Totó. Um dia, um tornado assola a região, e Dorothy percebe que Totó está em perigo, e decide sair de seu abrigo para salvar o cachorro, e os dois vão se esconder na casa em que ela mora (o abrigo era em outro local). Só que a casa é “sugada” por esse tornado e eles são transportados para Oz.

Dorothy acorda dentro de sua casa, porém quando sai ao ar livre repara que não está mais no Kansas, mas na terra dos Munchikins, em OZ! Tudo que a jovem quer é voltar para o Kansas, e só tem uma pessoa capaz de realizar esse desejo O PODEROSO MÁGICO DE OZ! Dessa forma, Dorothy, acompanhada de Totó, é instruída a seguir a estrada de tijolinhos amarelos, que a levará até a Cidade da Esmeraldas, onde o mágico mora. No caminho, a menina acaba conhecendo um Espantalho que quer um cérebro, um Homem de Lata que almeja um coração, e um Leão que precisa de coragem. Unidos pelo mesmo objetivo, todos vão juntos fazer suas solicitações a Oz – e encontram adversidades no caminho.

Eu nunca fui uma grande entusiasta do Mágico de Oz, talvez por já conhecer a história, não achar necessário me aprofundar nela. Ou assim eu acreditava. Acontece que a experiência de leitura me transportou para um local novo, e, sim, descobri várias coisas sobre a aventura de Dorothy, mas também descobri coisas sobre mim! Esse foi um livro que conversou comigo, no auge dos meus 24 anos – e, sinceramente, não esperava por isso. É uma história sobre jornada, e por isso não importa se ela é previsível ou se você já sabe o final, essa não é a questão. Portanto, para explicar o efeito transformador que O Mágico de Oz exerceu sobre mim, darei alguns spoilers – de um livro de 1900 – e que não irão prejudicar, mas enriquecer a sua experiência.

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Primeiro, quero falar do mundo de Oz, que eu fiquei encantada. É uma história de alta fantasia, ou seja, existe toda a criação de um mundo paralelo mágico, com criaturas fascinante, e uma história antes e depois de Dorothy. E tudo é cativante e super visual. O livro é curtinho (eu li em 2 dias), logo, não se demora em descrições – mas estas são muito precisas e com pouco você consegue visualizar tudo, e é LINDO E COLORIDO! Amei a Vila de Porcelana, os Munchkins, os ratinhos … enfim, é um trabalho muito rico de criação: encanta, funciona e convence. Dorothy aceita o mundo sem grandes crises, devido a  ingenuidade infantil e empatia – o que faz com que nós também imergimos sem dificuldade. E os amiguinhos fantástico que ela faz são cheios de simpatia e carisma, o que torna ainda mais fácil de se identificar e integrar na história.

As personagens femininas são tratadas com muito carinho por L. Frank Baum. Dorothy é uma mocinha aventureira, destemida, justa e companheira – isso é definitivamente um “uau”, ainda mais para a época. E temos as bruxas, que são tanto boas quanto más, fugindo do estereótipo que se fixou de bruxa ser alguém terrível e horrenda. Historicamente, o conceito social de bruxa é uma forma de opressão feminina – bruxas são mulheres envelhecendo, sem interesse romântico, curiosas, imaginativas, poderosas e independentes, livres das amarras sociais, e isso assusta e ameaça o patriarcado, e, por isso, são perseguidas e retratadas como más. Baum quebra isso, quando cria bruxas boas e más, bonitas e feias (corrompidas pela maldade). Isso tudo ganha um peso maior dada a época em que foi escrita e a estrutura social na qual o autor está inserido.

Glinda é uma bruxa boa, muito poderosa e respeitada no universo, e que aceita ao pedido de Dorothy por ajuda. No entanto, ela não funciona como uma fada madrinha que vai magicamente resolver os problemas ou obstáculos para nossa heroína, como nos contos de fadas normais. Nesse sentido, Glinda funciona como Gandalf – uma mentora. A bruxa encoraja Dorothy a ser independente e a procurar suas próprias respostas, ao invés de oferece-las gratuitamente. E isso é raro e muito rico para figuras femininas e infantis no geral. Durante a aventura, Dorothy é desafiada e consegue resolver as situações, com ajuda de amigos – ela é cooperativa e ativa, não está esperando ser salva.

Já que citei o homem, Tolkien, acho totalmente possível traçar um paralelo com O Hobbit e toda a Terra Média. Esse ano também li o Hobbit e foi uma experiência maravilhosa e divertida, comentei aqui a respeito. Mas enquanto Bilbo Bolseiro (amo) segue à risca a jornada do Herói, Dorothy tem outro tipo de narrativa: a jornada de heroína (e sim, são coisas diferentes – pretendo fazer um post a respeito). Acho interessante analisar como essas duas histórias, que foram escritas relativamente perto (1900 x 1937) e para um mesmo público – infanto juvenil, constroem os gêneros (feminino x masculino) e como estes são expressado. Curioso, pois, as duas histórias foram escritas por homens brancos heterossexuais economicamente favorecidos, e a percepção dos dois sobre o feminino é bem diferente. É uma conversa que vai muito longe, mas que gostaria de colocar a sementinha em vocês haha.

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Voltando a aventura de Dorothy, um dos pontos que mais mexeu comigo é que essa é, na verdade, uma história sobre VALIDAÇÃO! O espantalho quer um cérebro, pois acha que tem a cabeça de vento, não tem como armazenar conhecimento nela. Porém, durante a história, isso é muito irônico, pois é ele quem traça os planos e estratégias da equipe, é a pessoa mais geniosa. O mesmo se aplica ao leão, ele está desesperado para encontrar coragem, pois, no mundo dele, não tem cabimento um leão ser medroso. Só que ele está sempre disposto a enfrentar os perigos e feras terríveis para salvar seus amigos e se proteger.

Por fim, o homem de lata. Ele quer recuperar sua humanidade por meio de um coração, a ausência física deste órgão o faz acreditar que seja insensível e sem amor. Mas é justamente o oposto: o amigo de Dorothy está constantemente chorando, a ponto de sempre precisar de óleo lubrificante para não enferrujar. Ou seja, o personagem atribui a inexistência de um coração físico ao fato de não saber lidar com seus sentimentos. A dificuldade com a sua sensibilidade o leva a enferrujar, ele ficar paralisado diante disso. É um paralelo maravilhoso sobre a masculinidade, de como é tirado dos homens esse “direito ao amor”, a serem frios, calculista e “práticos”, e a dificuldade daqueles que são mais sensíveis a se adaptarem a isso. O machismo faz com que os homens não aprendam a lidar com suas emoções, ficando paralisados quando expostos a elas. Durante toda a leitura fica claro que os personagens não têm consciência das suas qualidades, e nem de si mesmo.

Quando chegam ao mágico, e este se revela uma grande farsa, ou seja, não tem magia nenhuma, os três ficam desolados. Porém, quando Oz diz que eles não precisam de magia, pois já possuem o que buscam, os três não aceitam. Isso porque os amigos precisam que Oz, alguém que consideram uma figura de autoridade, respeito e poder, lhes entregue o prometido – validem suas almejadas características. Por isso o mágico, de forma simbólica, entrega o prometido a cada um. É através da validação ALHEIA que eles enxergam as suas verdadeiras qualidades, que sempre estiveram com eles. Muitas vezes nós já somos quem queremos ser, mas não enxergamos isso, e esperamos uma validação dos outros, quando, na verdade, ela deveria vir de nós mesmos.

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Não é um cérebro de linhas e alfinetes que conferiu ao espantalho uma inteligência afiada, mas é desse objeto que ele precisava para acreditar nisso, pois é assim que lhe foi dito que deveria ser: Pessoas inteligentes tem cérebros – se eu não tenho cérebro, eu não sou inteligente. Mas essa lógica (simbólica) está toda errada, e coloca as pessoas dentro de uma caixinha que não as comporta. O homem de lata precisou de uma aprovação social, o coração delicado, para se permitir vivenciar seus sentimentos. E o Leão precisou tomar uma poção de nada para aprender que coragem no é ausência de medo, mas conseguir enfrenta-lo. As pessoas são reféns de regras sociais que só servem para coloca-las em caixinhas e não conseguirem identificar o poder nas suas diferenças e qualidades. Essa história de validação mexeu demais comigo, e é tão rica para crianças que consigam, mesmo inconscientemente, extrair essa mensagem – é um livro essencial para elas.

Já o caso de Dorothy é um pouquinho diferente, o mágico não consegue ajuda-la real. Como última esperança, ela procura Glinda e, claro, descobre que também portava aquilo que precisava desde o começo – os sapatos mágicos que conseguiu literalmente no primeiro capítulo. Entretanto, nossa heroína precisava vivenciar aquelas aventuras, fazer os amigos, superar perrengues, para assim amadurecer, aprender a ver o mundo de outra forma, e poder, finalmente, voltar para a casa.

Às vezes a solução para nossos conflitos e crises está conosco o tempo todo, mas precisamos percorrer um caminho de autoconhecimento e amadurecimento para alcança-la e sabermos utiliza-la. As coisas acontecem no tempo que elas têm que acontecer, e precisamos passar pelo que passamos para sermos quem somos, e apressar esses eventos pode prejudicar o nosso desenvolvimento. Ou seja, é tudo sobre a jornada, e, ao final super previsível do livro, percebemos que não era sobre voltar para a casa, mas sobre como você, internamente, volta para a casa.

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Ao final dessas avassaladoras 200 páginas nos transformamos junto com nossos novos amigos. É uma leitura leve, divertida, rápida e muito gostosinha. Uma história que não tem idade para ser visitada e que, acredito extrair algo diferente de acordo com o momento da leitura. Gostaria de fazer uma menção honrosa a Totó, o doguinho, que está sempre colocando o grupo em confusão devido a sua curiosidade, mas que dá um brilho a história – e uma vontade de abraçar.

Existem, claro, outras interpretações desse ícone cultural, como uma toda voltada a economia norte-americana da época, a representação das cores associada a causa LGBT+ e a psicanalise dos personagens de uma forma mais acadêmica e profunda que “validar quem a gente é” haha. Me tornei uma propagadora de o Mágico de Oz, e pretendo assistir ao filme clássico (apesar de algumas críticas negativas no que tange a adaptação). Esse ano os livros clássicos infanto-juvenis tem sido uma descoberta para mim, são como filmes da Pixar, e essa lista de leitura só tem crescido ultimamente.

As artes são da Lorena Alvarez Gomes, uma ilustradora colombiana incrível!!

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