People go by the names their parents give them, but they don’t believe in God.

Um filme que ressalta a importância de contarem mais histórias sobre mulheres com um roteiro que mostra que menos é mais. Lady Bird é, ao mesmo tempo, muito pessoal e muito identificável. A protagonista? Uma adolescente dramática – como todos nós fomos um dia.

A adolescência é um período difícil, inevitavelmente, mas tem a sua magia. Enquanto passamos por essa fase, muitas coisas estão acontecendo, ficamos cegos, intransigentes, confusos e com medo – e só tomamos consciência de tudo isso depois que passou – não importa quantas pessoas estejam repetindo esse discurso. Hollywood, de modo geral, pouco tem sido generosa e honesta em abordar essa época tão rica e delicada, o que vemos em seus filmes são adolescente caricatos, bidimensionais, com uma vida ou aventura que foge completamente da realidade. Até agora.

Lady Bird chega ao cinema como um coming of age já batido, mas com uma pegada honesta, crua e visceral. É o verdadeiro filme sobre o que é ser um adolescente caminhando para a vida adulta. Nele, vamos acompanhar nossa protagonista, Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem autêntica, revoltada, buscando sua identidade, desesperada por ser aceita e amada, vivendo seu último ano do ensino médio em um colégio católico em Sacramento, Califórnia.

Lady Bird

O filme começa com Lady Bird e sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), voltando de carro para Sacramento. As duas estão ouvindo o audiobook de As Vinhas da Ira, e essa já é a primeira dica de um dos embates que as duas terão ao longo da história. O clássico da literatura norte americana, escrito por John Steinbeck conta a história de uma família que, devido à crise dos anos 1930, enfrentam grandes dificuldade financeiras e se veem obrigados a abandonar a sua cidade natal, e migrar rumo a Califórnia. Chegando lá, descobrem que as promessas de prosperidade não eram tão belas assim, tendo suas expectativas frustradas.

Ao decorrer do longa, é justamente essa história que vai nos sendo contada. A mãe da jovem se mudou para Sacramento em busca de um futuro melhor, mas agora a família está enfrentando uma crise financeira e Lady Bird não lida muito bem com isso. Sua condição de vida inferior aos dos colegas de escola a envergonham, e a possibilidade de não conseguir realizar seu sonho de se mudar para NY e fazer faculdade – fugindo da cidade que detesta – a aterrorizam. E aqui temos umas das primeiras características da mocinha, seu egocentrismo.

Lady Bird é egoísta e cega em relação a vida dos outros. Quem ajuda a nos contar esse traço de sua personalidade é a câmera, que na grande maioria das vezes a coloca no centro do quadro. Ainda falando da primeira cena, logo após o término do audiobook, mãe e filha começam a conversar, e logo essa conversa se torna uma discussão e quando você menos espera, a garota pula para fora do carro. Esses 2 minutos também estão nos dizendo muito sobre o filme: Lady Bird é impulsiva, seus atos impensados a machucam (ela quebra o braço), ela e a mãe tem um relacionamento conturbado e, ela vê na fuga a solução para a agonia da realidade. São esses traços que vão reger a protagonista durante a trama.

Lady Bird 4

Como disse no começo dessa resenha, o diferencial de Lady Bird é justamente a profundidade e a verdade que a personagem traz para esse universo de filmes. Christine não é bonita, não está sempre maquiada, não é uma aluna extraordinária – é comum, só isso. Ao mesmo tempo que tem uma personalidade forte, é determinada e inventiva, a jovem também sente medo, insegurança e necessidade de pertencimento. Ao longo da trajetória, Lady Bird erra, fica confusa, hesita, muda de personalidade para se encaixar, entre outras coisas tipicamente adolescentes. Ela é uma garota que quer ser livre, encontrar sua identidade e sair dessa cidade que detesta – quer tanto ir embora que seu apelido é uma alusão a esse desejo.

Para mim, a maior mensagem do filme está no relacionamento de mãe e filha. É dele que temos os maiores momentos de tensão e as maiores mensagens. A interação das duas são baseadas em diálogos extremamente bem construídos e olhares e atitudes que dizem muito sem dizer nada. As duas vão de uma conversa trivial a uma discussão em questão de segundos, e logo já está tudo bem de novo. A mãe está sempre cortando as expectativas fantasiosas da filha com um banho de realidade e contra-argumentos plausíveis. E, apesar de tudo, nenhuma duvida do amor da outra. Em contraste com uma mãe seca e “estraga prazeres”, Lady Bird tem um pai compreensível, amigável, e que não oferece nenhum embate ou obstáculo a filha.

Outro assunto tão comum nessa época são os relacionamentos. No filme, Lady Bird se envolve com dois rapazes que são completamente diferentes. Danny (Lucas Hedge – olha ele de novo aqui!) é meigo e doce, ao passo que Kyle (Timothée Chalamet – e ele de novo aqui também) é mais maduro e blasé. Ambos vão dar a Christine noções e experiências diferentes sobre o amor e os relacionamentos. O filme também aborda outros assuntos como a amizade, amor platônico e mercado de trabalho.

Lady Bird 3

Os personagens secundários não são muito bem desenvolvidos, mas têm uma ótima construção. Cada um representa um tipo diferente de adolescente, com seus próprios dilemas, mas sem ficarem caricatos e superficiais. O foco do filme não é uma grande história, mas o desenvolvimento e amadurecimento de Lady Bird para a vida adulta. O longa traz mensagens bonitas sobre a importância de reconhecer a necessidade dos outros, e questionamentos como “amor e atenção são a mesma coisa? ”.

Falando dessa forma, parece que o filme é um drama sem fim, mas NÃO! De forma alguma. A narrativa é muito divertida, tem momentos de gargalhadas, e é bem leve e fluida. O filme te envolve pela curiosidade e pela identificação com a personagem. O roteiro é irretocável, marcado por diálogos muito realistas e honestos. Ele é simples, e é nessa simplicidade que consegue extrair sentimentos e emoções que conversam tanto com a gente – menos é mais. Nada é despropositado, a marcação de passagem do tempo é sútil e perceptível.

Lady Bird 5

O filme foi escrito e dirigido por Greta Gerwig, e é quase autobiográfico. A excelência do trabalhado dessa mulher maravilhosa vai além e, como seu primeiro filme dirigido sozinha, ela arrasa. A direção complementa o roteiro, é cheia de simbolismo, e cada elemento ajuda a contar a história. Tecnicamente, o filme é ótimo. A história se passa no começo dos anos 2000, tem um clima nostálgico, com o design de produção e a trilha sonora acompanhando esse período, e revivendo as memórias da própria Greta.

As atuações estão impecáveis. Saoirse Ronan está perfeita como Lady Bird, sendo perceptível quando ela aparenta confiança, mas está com medo, seus olhares determinados e de hesitação. Laurie Metcalf, a mãe, está sensacional e é um dos grandes destaques! Todos os demais também estão incríveis, incluindo os dois mocinhos que estão em todas atualmente haha.

Lady Bird 2

Lady Bird é uma dramédia incrível, que trata com veracidade os anseios e as crises de uma adolescente mulher. No meio de tantos filmes repetitivos sobre o tema, é maravilhoso ver um trabalho que foge de estereótipos, retrata as garotas com sinceridade – longe dos padrões fantasiosos americanos – e sob uma perspectiva realista e palpável. É a prova de que um coming of age adolescente tem potencial de ser profundo e muito bem trabalhado. Não é um filme datado, e nem específico para certo público. Eu estava SUPER na hype para assisti-lo, e ele abraçou essa expectativa, mudou ela de lado um pouquinho, e marcou meu coração. Recomendo forte que você assista.

PS: Eu ainda queria falar de outros simbolismos como a ironia do colégio católico, as cenas dela caminhando e tudo, mas ficou muito enorme essa resenha já. Então, se alguém quiser conversar sobre, saber mais, não sei, estou animada para falar haha.

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