A vida é apenas o afogamento dos nossos planos

Fui atingida pela hype do novo filme de Guillermo Del Toro. E olha, você vai se surpreender com a magnitude escondida atrás dessa trama. Um conto de fadas trevosinho, poético, romântico e meio bizarro, a Forma da Água é uma experiência cinematográfica completa.

Durante década de 1960, no período da Guerra Fria e corrida espacial, em uma pequena cidade norte americana vive Elisa Esposito (Sally Hawkins), uma moça muda que trabalha como faxineira noturna num laboratório do governo, junto com sua amiga, Zelda (Octavia Spencer). Elisa tem uma rotina metódica e comum, até que, certo dia, uma criatura vinda da América do Sul chega ao laboratório e, com isso, algumas novas figuras também vem no pacote, como o cientista Dr. Hoffsteller e o Coronel Strickland (Michael Shannon). Elisa e Zelda são incumbidas de limpar o local onde o monstro está, e assim começa a relação entre a moça muda e a criatura fantástica.

Guillermo Del Toro é apaixonado pelo bizarro, conhecido por sempre colocar criaturas loucas em seus filmes com toque de fantasia, é um homem de gostos excêntricos, com um pezinho no terror – eu me identifico muito com tudo isso, de certa forma haha. Em A Forma da Água, Del Toro é o dono do filme (produtor, diretor e roteirista) e encontrou nesse longa a liberdade que precisava para contar uma história que a muito andava com ele. Apesar de suas peculiaridades, o homem é um romântico, e isso fica claro nessa obra.

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Primeiro, vamos falar da história! O roteiro é simples, segue a estrutura dos 3 atos bem definidos, tem uma história linear e de fácil compreensão, porém, cheia de sutilezas e simbolos. Ele é redondo, muito bem amarrado, sem buracos ou barriga. Ele nos conduz com fluidez, delicadeza e maestria ao universo fantástico do ser anfíbio. Tem uma linguagem inocente, que beira o infantil, mas só no que tange o clima de contos de fadas – não é um filme infantil! Tudo que vai nos sendo apresentado tem um proposito, um porquê, que não demorará muito para percebemos qual é. Não tem soluções mirabolantes, e nada que nos desconecte da história. É uma fantasia sútil.

Os arcos dos personagens, principalmente de Elisa e Strickland são muito bem desenvolvidos. Além disso, temos várias mini metáforas colocadas ali, por exemplo o dedo podre de Strickland, e algumas ironias que são geniais. É realmente incrível o trabalho e a sensibilidade de Del Toro e Vanessa Taylor na criação da história, que parece uma poesia. E, claro, destaque as homenagens ao cinema clássico da época, que nos enchem os olhos e o coração, muito bem colocadas, emocionam e evidenciam a beleza do cinema.

A essência do filme é a empatia, e é isso que ele busca discutir ao longo da história nas mais diversas relações que temos na trama. Para mim, se trata sobre o sentimento de pertencimento, e Elisa nunca se sentiu 100% inclusa no mundo, por mais que tenha amigos incríveis, sempre faltou algo para ela, que agora identificou na criatura – e isso fica explícito na relação que ela sempre manteve com a água. Outro assunto discutido no filme é a religião, não de uma maneira aberta, mas nas entrelinhas, evidenciando a contradição que muitas pessoas vivem, e como, às vezes, a empatia está tão afastada das pessoas que se consideram religiosas. O longa faz ainda um excelente trabalho em tratar como algo banal, o que, na verdade, é banal, como a nudez, o sexo e masturbação, representando de forma corriqueira, como parte da rotina das pessoas – não faz um alarde com isso.

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Como disse, o filme se passa na Guerra Fria, e, por uma das primeiras vezes, não temos uma abordagem maniqueísta do assunto. Os soviéticos não são vilões, e os americanos não são os bons moços. O filme, inclusive, brinca com esse conceito, e nos apresenta personagens dúbios. Um deles é vítima desse conflito político, e vê a sua carreira e paixão minada por essa guerra e disputa. Outros assuntos ainda são perpassados ao longo da história, como o racismo, homofobia, assédio no trabalho, representados da forma como acontecem no cotidiano – não são trabalhados e nem desenvolvidos, mas mostra-se que eles existem.

Elisa, nossa protagonista, tem um desenvolvimento absurdo durante o filme, e ganha nossa simpatia logo no começo, é impossível não se envolver com a mocinha. A personagem ouve e entende, ela só não consegue falar por um acidente que sofreu, ainda criança, nas cordas vocais. Sally Hawkins arrasou no papel, conseguindo transmitir tudo e mais um pouco, e nos emocionar sem dizer uma só palavra. É incrível sua atuação, e a forma como a personagem vai crescendo. Esses dois elementos caminham juntos, e vemos como a postura, a ousadia, a paixão, a confiança, mexem com Elisa, se afloram de uma maneira linda.

O personagem de Shannom é o clássico american way of life, conhece a bíblia, mas que não parece compreender o significado de empatia, se considerando superior aos outros, alguém detestável. Ele é um vilão EXCELENTE, e, apesar de ser bem vilanesco, não é caricato. Coronel Strickland tem motivações, tem um background com a família, tem ambições, que vai deixando o personagem real e palpável. Numa atuação sem exageros, Shannom não entrega um Capitão Zod da vida, mas um cara que você entende porque é assim, dada a cultura norte americana e o ambiente em que ele vive. Um arco dramático muito legal de se acompanhar e protagonista dos diálogos mais intrigantes.

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A criatura anfíbia misteriosa é vivida por Doug Jones, alguém que adora fazer um monstrinho. Nós vamos o conhecendo e o descobrindo aos poucos, assim como Elisa, e nos encantando com ele junto com a personagem. É um monstro complexo, que tem momentos selvagens, animalescos, mas também é doce, tem sentimentos e consegue se comunicar. A criatura é praticamente inteira feita de maquiagem e roupas, com alguns pouco efeitos especiais, então UAAAAU! A faxineira Zelda é um ótimo contraponto a Elisa, e serve como alivio cômico. Giles (Richard Jenkins), melhor amigo e vizinho da protagonista, tem um arco dramático superinteressante e divertido, excelente personagem.

Em aspectos técnicos, o filme é um show à parte. A fotografia é magnifica, e brinca com as cores que tem todo um significado, compõe a história e acompanham a mudança de Elisa. Além disso, temos um ar sombrio devido a guerra, cores que representam a água e uma saturação que nos mostra esse ar lúdico e fantástico da história. O design de produção também foi milimetricamente pensado, desde a casa de Giles e Elisa, até o laboratório, os pequenos detalhes são todos muito bem trabalhados, e ajudam nesse clima década de 1960. Somado a tudo isso, temos uma trilha sonora impecável, de verdade, que vai de Carmem Miranda à música francesa, todas muito bem colocadas, com significado.

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Por fim (eu juro, é o fim mesmo haha), a direção de Del Toro é maravilhosa! Com liberdade e propriedade da obra, é possível ver o carinho e o cuidado que ele teve com cada cena, com cada detalhe. Ele confere um ritmo ao filme e uma leveza, que dá esse ar de poesia. Tem uma cena que ele inundou um CÔMODO inteiro, e foi a coisa mais incrível e linda, só tenho que dizer PARABÉNS! O filme diz muito, sem falar quase nada, é um silêncio melodioso e muito bonito. O amor e a dedicação de Del Toro são quase palpáveis, e esse é o trabalho da sua vida, é puro coração.

Ok, claramente eu AMEI o filme! Essa versão alternativa da Bela e a Fera ganhou meu coração, com toda a melodia, poesia e carinho da história, e me deixou com lágrimas nos olhos ao final. O hype está totalmente aprovado, e até aumentado agora. O trabalho empregado foi realmente primoroso, e só tenho que agradecer Guillermo Del Toro por me presentear com essa experiência maravilhosa!

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