Toda essa raiva, cara, isso gera mais raiva

O que você faria se o crime que destruiu sua família fosse ignorado pela polícia? Uma história com muito ódio, sobre a crueldade da vida e como lidar com tantos sentimentos. Um filme excelente que você precisa assistir, pois ele já é quase um clássico.

No longa vamos acompanhar a vida de Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mãe que teve sua filha estuprada e brutalmente assassina e o criminoso nunca foi encontrado, ou descoberto – aparentemente, a polícia tem outros vários nada para fazer. Após meses sem resultado, Mildred decide alugar 3 outdoors numa estrada deserta e cobrar uma atitude da polícia, principalmente do xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson). O filme se passa em Ebbing, Missouri, e por isso do enorme título em inglês Three Billboards Outside Ebbing, Missouri.

O ponto de partida da história, como ficou claro na sinopse, é a raiva e a frustração. Esses sentimentos são onipresentes na trama e são eles que vão guiar os personagens. Mildred é uma mãe que se permite consumir pelo ódio, aceita-lo, e é esse sentimento que a faz agir em busca de justiça e, mais tarde, a se conectar com os personagens e evoluir. Em contrata partida, temos o oficial Dixon, um ser detestável, cheio de ódio, e que, aos poucos percebe que é preciso deixar essa raiva para trás para que ele possa seguir seu sonho. O ódio está ali como um denominador comum na história, e cada personagem o vivencia e o sente de uma forma diferente.

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Mildred Hayes, apesar da dor e do sofrimento que enfrenta pela morte da filha, está longe de ser uma pessoa frágil. A personagem é radical, provocativa e extrema, e está disposta a perturbar todo mundo para ter respostas. Frances McDormand entrega um papel INCRÍVEL, como tem sido muito elogiada. Através do olhar é possível ver a dor, a desolação, a culpa, a sede de justiça e a raiva, e seu olhar vai mudando ao longo do filme, e se torna impossível não sentir empatia pela personagem. Quando decide atacar o xerife com os outdoors, a cidade inteira se volta contra ela, mas isso não é algo que a incomoda nenhum um pouco. Ademais ela também mescla o drama com algumas cenas de humor, que se encaixam perfeitamente na narrativa.

Outro personagem em destaque é Bill Willoughby que, apesar de ter um outdoor enorme lembrando da sua “incompetência”, motivo de grande frustração para o xerife, é um dos únicos a se solidarizar com Mildred. Logo no início descobrimos que ele sofre de câncer terminal (Mildred não liga para isso, e não o considera uma vítima por causa da doença), então, junto com a cobrança da mãe com sede de justiça, temos esse personagem tendo de descobrir como lidar com sua morte iminente e sua família. Eu sou suspeita para opinar pois ADORO o trabalho do Woody Harrelson, e aqui temos algo meio revivendo tempos de True Detective, e a trama dele é simplesmente MARAVILHOSA!

O filme vai discutir uma gama enorme de assuntos, e o que para mim mais pesou foi o da esfera policial. Logo no começo temos uma grave crítica à violência contra negros empregada pela polícia norte-americana, e o racismo é algo que está sempre representado no filme. Outros temas são preconceito e homofobia, o abuso de poder, a falta de punição e a banalização da violência cometida por policiais, todos praticamente representados por Nixon. Mas, antes que você comece a odiar o personagem, este tem um desenvolvimento impecável, e Sam Rockwell está excelente no papel.

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No meio do filme temos um evento WOW, e, para mim, é quando tudo muda de cara e os personagens são colocados no seu limite. É incrível como esse roteiro constrói a narrativa, e não entrega aquilo que as pessoas querem, mas o que elas precisam. Não é um filme feliz, e nem sobre investigação policial, mas como esse crime terrível mexeu com a vida das pessoas, as sequelas que ele deixou e o dominó de ações que causou, mudando a vida de todos. Mildred coloca o dedo na ferida sem medo, e ela somos nós, que diante de várias tragédias da vida, nos sentimentos impotentes e frustrados, o que gera ódio. O longa trabalha o sentimento de frustração de maneira brilhante. O filme tem um ritmo diferente, pois o foco não é o evento e o mistério, mas os personagens.

O estilo meio faroeste moderno (não se passa no faroeste, mas tem essa vibe de cidade pequena de uma rua só dos EUA), e a linguagem irônica, com alívios cômicos e momentos tensos, lembram os filmes dos irmãos Coen. Frances inclusive é a protagonista e vencedora do Oscar como melhor atriz pelo filme Fargo deles – provando que a atriz é realmente excelente. A direção de arte (design de produção), é atemporal, o que sugere que o filme possa se passar em qualquer época, que continua sendo uma discussão atual. Outro ponto de destaque é a trilha sonora muito bem ambientada, que ajuda a criar uma atmosfera e envolver o expectador.

THREE BILLBOARDS OUTSIDE OF EBBING, MISSOURI

Quem assina a direção e o roteiro é Martin McDonagh e olha, que trabalho! Além do roteiro, que já deixei claro que AMEI, a direção é incrível. A câmera acompanha os sentimentos dos personagens, ela conversa com o filme, e não passa despercebida. E quero destacar a cena que se passa no estábulo, que achei simplesmente genial, poética e que já anunciava o que estava por vir. Enfim, a camera ajuda a dar profundidade e construir a personalidade dos personagens. Aqui também destaco o plano sequência do oficial Dixon, que foi muito significativo para passar a emoção do momento. Sério, um show!!!

Três Anúncios para um Crime é um filme imperdível! Com uma história concisa e bem amarrada, que discuti vários assuntos importantes e atuais não de uma forma pedante e nem com lição de moral, mas dando o recado de uma maneira direta e dolorida. Um filme que explora o ódio, mostrando como ele pode cegar, mas também como pode ser o caminho para evoluir e se conectar com os outros. Com uma mulher forte, que se impõe e reage em meio a um ambiente dominado por homens, e que tem seus problemas e defeitos. Um filme sobre a vida como ela é, com personagens excessivamente humanos. Sério, MUITO MUITO BOM, não percam a oportunidade de assisti-lo.

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BÔNUS TIME: O filme tem participação do Peter Dinklage que está ali para ser um amorzinho e dar um tapa na cara, normal. E temos também Lucas Hedges – aka sobrinho de Lee no Manchester à Beira Amar (e também atuou em Grande Hotel Budapeste), adoro esse garoto, mesmo tendo uma participação tímida. Ele está escolhendo muito bem os filmes, continue assim haha.

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