Trilogia Firebird – problemas que transcendem dimensões

Às vezes a gente se pergunta como estaríamos se tivéssemos escolhido outro caminho, se o império romano nunca tivesse caído … Existem infinitas possibilidades, em outras dimensões. E talvez, dentro desse multiverso infinito, exista uma dimensão na qual essa trilogia não tenha tantos problemas!

A história começa com Marguerite, nossa protagonista, tendo que lidar com a morte de seu pai, o físico Henry Caine. Desolada, a jovem é facilmente convencida por seu amigo Theo a sair em busca do suposto assassino de seu pai, Paul Markov, que está viajando entre dimensões. Theo e Paul são orientandos dos pais de Marguerite, professores universitários, ou seja, físicos brilhantes, e os dois garotos são bem próximos da família, passando grande parte do dia dentro da casa de seus professores. Marguerite é a filha mais nova do casal, que dedicam todos seus esforços ao projeto Firebird (nome dessa trilogia).

O firebird é uma espécie de medalhão/colar que permite a viagem entre dimensões, e algumas coisinhas mais. No livro trabalhamos com o conceito de multiverso, ou seja, que a cada decisão que tomamos que altera o rumo da nossa vida, um novo universo surge, tendo, por tanto, infinitos universos – alguns parecidos com a nossa realidade, outros totalmente destoantes. Ao decorrer da narrativa, vamos sendo apresentados, junto a Marguerite, de como funciona essas viagens e todo o sistema científico criado por Claudia Gray.

Essa foi uma leitura conturbada, pois diversas coisas me incomodavam, e tudo ia virando uma bola de neve, até o ponto de eu não ter mais forças para revirar os olhos. No entanto, eu li os três livros por alguma razão, que ainda parece meio nebulosa na minha cabeça haha. Escolhi começar apontando as coisas boas, para depois dizer o que não gostei e a conclusão que cheguei dessa experiência.

AVISO DE SPOILERS, LEVES, MAS NECESSÁRIOS PARA ANÁLISE. Se você está muito interessado em ler os livros, não recomendo que prossiga. Se você não se importa com spoilers, quer saber melhor onde está se metendo com essa leitura ou apenas quer saber o porquê não curti muito, prossiga no texto hehe.

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O que mais me chamou a atenção foi a premissa de viagem dimensional. Sou apaixonada por esses assuntos, e tive pouco contato com literatura de ficção cientifica e identifiquei ali uma oportunidade. E o conceito criado pela autora é realmente interessante. Durante os três livros vemos Marguerite em dimensões muito diferentes, como num mundo em que o Czarismo não acabou, outro com uma guerra infinita, e ainda um onde as corporações tomaram a vez dos Estados, entre outros.

O melhor ponto, para mim, foi a mensagem advinda das diferentes viagens de Marguerite. Ela acreditava ser sempre a mesma pessoa, com seus princípios, seus amores, tudo igual. Só que não é isso que acontece. Existem traços nela que permanecem os mesmos, sua essência, porém, ela é uma pessoa diferente de acordo com o contexto, com as escolhas que fez e com as circunstâncias que se apresentaram. Ela acreditava que todas as versões dela estariam de acordo com o que ela estava fazendo, mas isso não é verdade. Em cada dimensão, ela era uma pessoa diferente. E é interessante pensar nessa nossa construção psicológica, e em como poderíamos ser pessoas completamente diferentes se estivéssemos nascidos num contexto histórico diferente, ou ter tomado outras decisões no passado.

Isso se aplica, claro, aos outros personagens que viajam entre dimensões. E, junto a essa ideia, também é muito legal analisar em quais dimensões estamos próximos das pessoas que amamos, e em outras nem sequer as conhecemos. Inevitavelmente, os pais de Marguerite sempre são os mesmos, pois ela é fruto da relação dos dois, e não tem como ela existir se eles não tivessem tido uma filha. Mas seus amigos, Theo e Paul, nem sempre estão por perto. Ela nem sempre é apaixonada pela mesma pessoa, nem sequer tem sentimentos semelhantes. E em outras dimensões, cada um tem um papel diferente na vida do outro.

Por causa disso, quando Marguerite, ou outra pessoa, encontra sua versão em outra dimensão, as relações são conturbadas, e algumas versões das pessoas que ela ama cometeram erros ou não são boas. E ela tem que separar as pessoas de suas dimensões. Apesar de terem o mesmo rosto, o mesmo DNA, aquela versão do seu namorado não é o seu namorado de verdade, assim como seus pais e amigos. E saber o potencial que alguém tem para a maldade e dissociar da pessoa que ela é para você na sua realidade é muito complexo. Ver aqueles olhos tão familiares não serem realmente familiares assim, é algo bem complicado de se fazer, de superar esse receio.

Durante os três livros, o personagem de Paul quer provar matematicamente a existência do destino. Só que, num mundo onde existem infinitos universos paralelos, criado a partir de cada mínima escolha diferente, é difícil acreditar nisso, não é? E com o decorrer da narrativa, vemos seus planos serem cada vez mais frustradas. Eu, particularmente, acredito que as pessoas que encontramos e que marcam a nossa vida são pré determinadas, encomendadas sob medida, não é ao acaso que as conhecemos, mas num mundo de ficção científica, não quero viver uma fantasia romântica, não é mesmo? Haha

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Então, de forma geral, eu gostei muito da filosofia e mensagem que a autora quis passar nessa louca aventura pelo multiverso. E, apesar da história ser construída bem redondinha, com desenvolvimento da personagem principal, conflitos, resolução, capítulos bem fechadinhos, de um tamanho confortável, a história em si … problemática.

Primeiro, os personagens. Todos brancos, heteros e estereotipados, zero diversidade. Sophia e Henry, pais de Marguerite, são físicos, super “nerds”, sem muito traquejo social, que falam matematiquês, e não se importam nem um pouco com a aparência ou dinheiro, mas são mega gente boa, carinhosos, amam demais as filhas e usam a ciência para melhorar o mundo – own, que meigo, não dava pra ser mais genérico. Marguerite, a protagonista, é a diferentona da família, a que tem vocação para arte, seja pintura, desenho ou escultura, mas isso, sinceramente, não tem o menor impacto na história, ao meu ver, e poderia ser muito melhor trabalhado. De resto, ela é mimada, impulsiva e egocêntrica haha, sério!

Theo é o “nerd hipster”, descolado, bonitinho, adora fazer brincadeirinhas, rei do flerte, ama carros, um amigo super compreensivo e que ajuda Paul. Bom, esse aí é um homem alto, forte, másculo, com dificuldade de expressar seus sentimentos, com receio de ser amado, traumatizado do passado, humilde, dedica todos seus esforços aos seus mentores e a ciência, extremamente esforçado, incompreendido. E, que para mim, tem o um dos arcos mais oks da narrativa, apesar de encher o saco às vezes.

Marguerite tem uma irmã mais velha, Josie. Que no desenrolar dos acontecimentos da história tem uma importância crucial, mas que o relacionamento das duas é abordado da forma mais superficial possível. Josie sempre está presente, mas é como se não tivesse. Ela é facilmente esquecida pela irmã, as duas tem interações bem pontuais, e, o resultado é uma personagem sem personalidade descrita pela boca dos outros. Se ela não estivesse no cerne da história (que até nisso ela está de forma indireta), ela seria uma personagem inútil!

Em alguns mundos, Marguerite tem uma amiga. UMA ÚNICA AMIGA A HISTÓRIA INTEIRA! E, que na maioria dos universos, é uma falsa a serviço do vilão, um homem rico, bonito e poderoso, ÓBVIO (e branco, claro)! Uma das maiores traições que a  protagonista sofre é feita pela menina que é apresentada como sua amiga, que segue cegamente um cara obsessivo – show.

Então vamos lá, Wyatt Coley, o vilão, é uma pessoa ruim em praticamente todos os mutiversos, no máximo uma pessoa neutra, contradizendo a tendência dos outros personagens – ou seja, sem nuances, mal construído. Além disso, o plano dele é basicamente dominar o multiverso e monopolizar a viagem dimensional – e nem o amor é puro em sua vida, é objeto de orgulho. Um cara poderoso, inteligente, e ardiloso, que manipula a protagonista com chantagem emocional usando-a como peça fundamental do seu plano de dominação global – UAU, criativo.

Conclusão dos personagens: chuva de clichê! Na minha opinião, foi preguiça de criar algo mais profundo, complexo, tridimensional. Não dá para sentir empatia pelos personagens, existe uma barreira emocional entre eles e o leitor chamada bom senso!

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Além dessa construção de personagem complicada, a construção das leis do mundo de Claudia Grey é, de certo aspecto, fácil. Quase todas as leis criadas para essa logística dos Firebirds beneficiam Marguerite de alguma forma. Algumas soluções são fáceis, outras tem consequências pequenas, e, em certas ocasiões, tivemos o famoso Deus Ex Machina. Acredito que o livro tinha a oportunidade de explorar mais o lado científico da coisa, ao invés de focar nas duvidas amorosas de Marguerite e na sua vontade megalomaníaca de salvar o multiverso. Por fim, queria aqui ressaltar o ponto de que, sempre que em extremo perigo, nossa protagonista era salva por ninguém mais ninguém menos do que algum ser do sexo masculino. Pois, eles estão sempre no centro da trama, e a ingênua e impulsiva Marguerite tinha Paul e Theo para resgatá-la – me poupe.

Em resumo: O ano é 2017 e temos uma história sem representatividade, onde a protagonista só quer saber se vai ficar para sempre com o amor da sua vida que encontrou aos 17 anos, e que este parece se importar mais com a carreira dela do que ela mesma. A única amiga que ela parece ter em toda a história é uma garota que potencialmente irá traí-la. A esperança de um momento sisterhood fica depositada na irmã, que é ignorada a maior parte da narrativa e de forma alguma convence com um vínculo de verdade. O maior erro dos pais é o excesso de amor pela filha. A donzela que se mete em apuros é salva pelo interesse romântico. E, no final, a história acaba melhor do que começou, sem qualquer prejuízo ou dano grave pra qualquer um dos personagens principais, com o problema solucionado, todos se amando, prontos para um mundo melhor e próspero.

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FIM DA ZONA DE SPOILERS!

Acredito que pela premissa apresentada, a história poderia ser muito mais interessante! Os livros têm um ritmo muito bom de leitura, ela flui de forma natural e ágil. Ao final de cada capítulo tem aquela vontade de ler imediatamente o próximo e a ânsia de saber o que está acontecendo. A história é bem construída do ponto de vista narrativo, é tudo encaixadinho, nada na história está sobrando, o que nos é apresentado no início, tem uma implicação no final. Os flashbacks são usados de forma bonitinha, cumprem seu papel. A dinâmica da viagem dimensional tinha mais potencial, mas mesmo assim era o ponto alto do livro quando Marguerite mudava de dimensão e conhecíamos um mundo completamente novo. E a mensagem final é bem bacana, tem margem para reflexão.

O grande problema realmente é a construção dos personagens: fraca, estereotipada e superficial. Esse é um ponto crucial numa história, e você não criar empatia pelos personagens compromete muito a sua experiência de leitura. Faltou um maior aprofundamento na personalidade de cada um, e eu entendo que isso seria complicado num mundo onde seu personagem existe diversas vezes, mas é um risco que a autora assumiu, e não soube como fazer bem. As motivações deles eram muito clichês, o que transformou a história num show de previsibilidade. E a mania de grandeza da história, como dominar e salvar o mundo, missão nas mãos de uma adolescente, criava um distanciamento ainda maior do leitor para com os personagens.

No meio de toda essa leitura, eu entendi que talvez tenha passado da idade para livros assim. Não vou dizer que não sou o público alvo, pois acredito que eu seja, mas histórias simplórias assim não me ganham mais. Provavelmente, há uns 5 anos atrás, eu iria adorar a trilogia Firebird. Agora, mais velha, e com um repertório maior, a história incomoda. Foi uma experiência que precisava ser vivida por mim, para eu conhecer meus gostos e ver como eles estão mudando, e como meu senso crítico também está melhorando, afinal haha. Às vezes, é bom ler umas coisas ruins para distrair, repensar velhos hábitos, fazer uma auto avaliação … então, apesar de tudo, não considero que foi tempo perdido, essa leitura me acrescentou algo, de alguma forma haha.

 

 

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